Embargo à carne brasileira barateia corte dianteiro, mas filé mignon fica mais caro

Publicado em 23 de novembro de 2021

O embargo da China à carne brasileira já dura mais de dois meses e fez com que o abate bovino tenha tido o menor patamar em 18 anos, em outubro. Foram 1,9 milhão de cabeças de gado abatidas, no mês, no país, enquanto em setembro foram abatidas 2.747.383 cabeças, 30,7% a mais, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

No Pará, o abate caiu cerca de 50% e a exportação, 80%, afirma o Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Estado do Pará (Sindicarne-PA).

Com a diminuição da exportação para o pecuarista paraense, o preço do mercado interno, segundo o Sindicarne, tem tido mudanças pontuais, que depende do tipo de carne comercializada. A entidade afirma, porém, que a maioria dos cortes ficaram mais baratos.

“Dianteiro com osso, que estava a R$ 24,50 nas gôndolas dos supermercados, chegaram a menos de R$ 18,00, agora estão em torno de R$ 20,00”, afirma o presidente do Sindicarne-PA, Daniel Freire.

Outros tipos de corte, no entanto, ficaram mais caros.

“Com a saída da China e o fato dos abates terem despencado, alguns cortes que tem menor participação na carcaça faltaram e até aumentaram de preços, como é o caso do filé mignon, que representa menos de 1% do que pesa uma carcaça com as vísceras. De 340 quilos de cada boi, 3 quilos são de filé”, aponta Daniel Freire.

Recentemente, por pressão de produtores locais, os Estados Unidos também ameaçam suspender a importação da carne bovina brasileira.

Ainda de acordo com o Sindicarne-PA, no entanto, a possibilidade de ocorrer um embargo é remota, já que não há nenhuma manifestação oficial do governo estadunidense sobre o assunto.

“Não existe embargo, o que houve foi uma carta de uma associação privada de fazendeiros americanos pedindo que a autoridade americana não importe carme do Brasil, nada mais do que isso. Isso não deve se concretizar, pois não há motivos técnicos para isso”, comenta o presidente do Sindicarne-PA

Mesmo que a possibilidade de embargo fosse real, Daniel Freire explica que a produção do Pará não seria prejudicada, já que a carne bovina produzida pelo estado não é consumida pelos norte-americanos.

“Infelizmente, o Pará ainda não exporta para os Estados Unidos. Nós fomos zona tampão de febre aftosa por muitos anos e só fomos reconhecidos como zona livre da doença quando os Estados Unidos já tinham aprovado outros estados. De lá para cá eles nunca atualizaram a lista de estados, então nós ficamos de fora. Mas a gente acha que esse movimento (de pedido de embargo) é uma lógica de concorrência, não há justificativa técnica nenhuma”, reitera.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) publicou nota em que afirma que o pedido da Associação de Produtores de Carne dos Estados Unidos (NCBA), encaminhado ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), tem como objetivo impedir a entrada da carne brasileira no mercado norte-americano.

“O Brasil nunca teve qualquer caso de forma típica da Encefalopatia Espongiforme Bovina, o mal da vaca louca. A legislação brasileira proíbe o uso de qualquer proteína animal para alimentação bovina, única causa de contaminação da doença pelos animais. Diante deste contexto, entendemos que, ou a NCBA está desinformada ou adota a postura protecionista com viés econômico e sem nenhum caráter sanitário. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) condena qualquer medida arbitrária que vá contra os pilares do comércio internacional. Assim, repudia a conduta adotada pela entidade americana”, conclui a nota divulgada no dia 19 de novembro.

O embargo imposto pela China, que permanece, aconteceu após uma iniciativa do governo de suspender as vendas por conta da ocorrência de dois casos do mal da vaca louca, doença degenerativa e fatal causada pela ingestão de produto contaminado. (ORM)