Hiroshi Bogéa On line

Em quatro atos.

Ato 1

Quando Ratinho surgiu, liderando audiências (primeiro, no Paraná, de onde originou; depois no SBT) na televisão brasileira, descobriu-se podia estar nos programas apelativos o caminho mais curto para engordar faturamento das emissoras menos criativas. Em pouco tempo, virou moda lançar “atrações” do tipo João Kleber imitando drag”s, e fazendo pessoas passarem do ridículo, além de outras figurações de baixo nível.

Até o brutamontes Maguila, nordestino analfabeto usado habilmente para empapuçar a conta bancária do Luciano do Vale e de outros não menos espertos, foi colocado num quadro de programa vespertino para “comentar”o que não sabia.

A fórmula mágica, simples e barata, não durou muito tempo. Os índices de audiência dos caratonhas já não eram suficientes para mantê-los no ar. O interesse do telespectador, dito classes C e D, acabou na proporção da rapidez com que foi despertado, como chuva de verão.

Nem foi preciso chamar a polícia de plantão para escorraçá-los da sala: um simples desligar de botão nos lares brasileiros foi suficiente para acabar com a sodomização.

Ato 2

Há fatos concretos de filtro inquiridor fomentado pelo Poder Judiciário quanto ao conteúdo do acervo jornalístico a ser veiculado. Fatos que representam inegável censura, com severos arranhões à liberdade de imprensa. E isso patenteia nossa inquietude, sinalizando a nocividade em se tentar silenciar a informação pelo braço forte de juízes e desembargadores intervencionistas.

Há um esforço para se colocar peias nas salas de redação.

Desde o fim da censura oficial, em 1978, nunca havíamos convivido com tentativas de tantos amordaçamentos.

Já falaram em criação de um conselho federal para monitorar a atividade jornalística. O projeto do tal Conselho Federal de Jornalismo (CFJ) tinha erros crassos , como o de pautar a imprensa, definir notícia e fixar teto para indenização obtida em processo judicial. Acho até que um dos pontos positivos daquela fedida proposta era exatamente a que mais foi combatida por alguns veículos: a pena de prisão para jornalistas condenados por calúnia, difamação e injúria e pelo valor do teto para as indenizações — 20% do faturamento da empresa jornalística condenada na Justiça.

Se errarmos irresponsavelmente e de má fé, temos, sim, de receber punição à altura do dolo cometido.

Depois, o Judiciário passou a dar o tom, provocando grande comoção as liberdades do pais, proibindo o Jornal da Tarde publicar matéria apontando bandalheiras no Conselho Regional de Medicina de São Paulo.

No Rio Grande do Sul, elite de servidores públicos entrou com mandado de segurança contra a publicação da lista de duas centenas de funcionários estaduais mais bem pagos. Um juiz local comprou a briga, exercendo seu poder de mando sobre o Zero Hora, sexto maior jornal em circulação no país, censurando-o.

Juiz da 9ª Vara Cível de Brasília, do alto de sua soberba, entendeu em proibir o jornal Folha de S.Paulo publicasse foto e matéria mostrando o filho do presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Edson Vidigal, envolvido no esquema de venda de sentenças judiciais. Bem que tentou, mas perdeu a parada.

A censura judicial é inaceitável

Desembarcando agora no Pará, como moda, parece, não foge às características das demais.


Ato 3

O efeito da censura prévia, como o imposto ao Quinta Emenda, tem a dose exata de atender interesses da cambada de pedófilos soltos pelo Estado. Basta observar o repentino silencio assustador cercando os blogs que tanto denunciaram os fatos e seus personagens, como a se autocensurar diante de novas ameaças. Parece desencorajados, buscando algum esconderijo.

Ina-cei-tá-vel!

Decisão judicial, sim, é para ser cumprida. Mas eu sempre me rebelei a elas, mesmo cumprindo-as, ao longo dos anos, e já são mais de trinta na estrada.

Indignei-me, reagi com a mesma dureza com que via o conteúdo das notificações entregues a mim por Oficiais de Justiça. De uma, eu gerava mais duas subseqüentes, tal a extensão das atitudes tomadas, dia seguinte, em páginas de jornais, dizendo não ao proibido.

Ao ler comentarista no blog do Juvêncio baixando a peia, em mim e no Bemerguy, por sermos contra qualquer tipo de censura, a razão maior de defender nossa convicção, diz um deles, é o interesse pelo “aumento de salários”. Mal sabe o comentarista do que já passei como vítima do arbítrio e da perseguição política, encorajado pelo excesso de hormônios juvenis e convicções libertárias que sempre me fizeram incorrigível sonhador.

Nem bem sabe ele, certamente inspirado no politicamente correto a embalar algumas cabeças paroaras, ou por modismo de ocasião, dos oito dias que passei numa cela do 50º BIS, com sede em Imperatriz, após ser colocado numa Kombi por um tenente do Exército, às 8 da manhã de um dia de 1976, à porta do jornal O Progresso, sem direito a advogado nem a comunicar o fato à minha jovem mulher.

Motivo da prisão? Um crônica denominado “Mana Fuinha” escrita numa madrugada enluarada de beira-rio, para Sonia, mãe de meus três filhos.

Nem bem sabe as dificuldades vividas, a partir daí, para me manter num emprego, sempre vítima das pressões que as empresas sofriam ao me contratar.

Optando por concursos públicos, pior ainda. Mesmo classificado entre os primeiros, jamais era chamado. Meu nome estava inserido no CNPJ (Cadastro Nacional dos Perseguidos e Judiados) da época, do SNI.

Aí sim, eu lutava por um salário sequer, nem o mínimo, pra sustentar a prole em formação.

Ato 4

Tenho plena consciência de que a audiência de qualquer veículo não deve representar, exclusivamente em sua essência, escolha livre e soberana do telespectador/leitor – até por que escolhas são feitas sobre ofertas iguais. Também não compactuo com a tese de que se dá ao povo o que o povo quer, escudados em pesquisas de audiência, que nada mais são do que sanções do mercado selvagem. Afirmações desse tipo revelam, na verdade, preconceito em relação à imensa maioria da população.

A potencialização do mau gosto de alguns cadernos policiais já foi maior. O surgimento de outras mídias tem contribuído para reduzir essa escala periférica, impondo novas regras e conceitos.

O combate eficiente ao formato apelativo tem que ser liderado pela constante mobilização da sociedade civil e seus multiplicadores de opinião no sentido de conciliar a preocupação com a competitividade no mercado, mas também melhorando o nível cultural de nossos leitores. E o bom gosto pela informação.

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2 Comentários

  1. Adir Castro

    18 de abril de 2009 - 16:45 - 16:45
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    Ratinho, Gugu Liberato, João Kleber e tantos outros são exemplos de pessoas que perderam o respeito próprio e pelos outros, quando faziam seus bizarros quadros. Quando foram descobertos pelos concorrentes de como eles faziam seus quadros, perderam a audiência e a credibilidade perante o público. Detalhe: a concorrência não estava preocupada nem um pouco com a ética e os valores morais e coisas do gênero, quando mostrou a verdade sobre eles, estavam preocupados apenas com seus baixos índices no ibope.

    Citarei o caso do Táxi do Gugu, em que atores desconhecidos eram contratados para fazer o papel de passageiros; a entrevista que ele conseguiu com pseudo criminosos ligados ao PCC que estariam tramando o sequestro do padre Marcelo.

    O Ratinho estava respondendo a alguns processos por contratar uma pessoa para participar de um determinado quadro, que durante a apresentação do programa o quadro era alterado. Talvez por isso, seu patrão, Silvio Santos, o tenha colocado na geladeira. A imprensa tem sim direito e obrigação de informar a verdade dos fatos e com imparcialidade. Por outro lado, qualquer pessoa tem direito de ter sua imagem preservada.

    O que tem acontecido é o oposto: a imprensa é imparcial na divulgação dos “fatos”, dependendo de quem seja o protagonista; o cidadão de pouco conhecimento e pouco poder aquisitivo, sem amigos “importantes”, tem sua vida privada invadida.

    Quer desmoralizar e desacreditar a alguém? Use a imprensa, que por inúmeras vezes se prestou a esse serviço, atendendo sabe-se lá a quem. É difícil acreditar que um profissional do jornalismo tenha autonomia e coragem pra dizer NÃO ao patrão quando ele depende do emprego.

    Ademais, não é a primeira vez que nossa justiça protege alguém da elite política, econômica ou cultural. Vejamos o caso do jornalista Pimenta das Neves que executou a amante, também jornalista. A imprensa não deu notoriedade ao caso, como costuma querer dar noutros.

    Um fato: Dois pesos e duas medidas em todos os setores da sociedade.

    EU POSSO, VOCÊ NÃO! Agindo assim somos apenas hipócritas.

  2. Anonymous

    18 de abril de 2009 - 14:43 - 14:43
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    Os jornais devem ter liberdade de imprensa, dentro do processo democrático, mas que o editor deve ter sensibilidade e limites, a fim de não desrespeitar a dor dos familiares dos envolvidos.

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