É que o mundo é que é meu lugar

Publicado em 9 de setembro de 2007

Em São Domingos, na quarta-feira, converso com dona Matilde, a contar estórias do filho que deixou a casa prometendo voltar ‘homem vencido na vida’. Botou a perna no mundo, dizendo pra vizinhança, cheio de sonhos, disposto a tentar a sorte em Ourilandia do Norte, trabalhar numa ‘gata’ que lhe desse condição de ganhar trocados para voltar endinheirado. A compra de uma casa pra mãe era o objetivo maior ‘do pegar a estrada’.

Jonas, de 17 anos, partiu em marco deste ano. Nos três primeiros meses mandou de volta dois recados em envelopes contendo R$ 250,00 e R$ 170,00, cada; e uma carta contando que estava bem, trabalhando de pedreiro numa firma da Vale do Rio Doce,

Dia 28 de agosto o corpo do garoto foi encontrado, crivado de balas ,em Altamira, sob a suspeita de integrar um bando de assaltantes de estrada.

Ao ouvir dona Matilde contando as virtudes do filho enterrado, depoimentos de vizinhos que o viram crescer -, “atencioso, com vontade de dar à mãe uma vida melhor” -, veio à mente um canto de Gonzaguinha, “Com a Perna no Mundo”, que Tereza Cristina deu um balanço gostoso embalada pelo Grupo Semente.

Acreditava na vida
Na alegria de ser
Nas coisas do coração
Nas mãos um muito fazer
Sentado bem lá do alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo cheiro de asfalto
Desceu por necessidade

Ô Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gentes a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar

Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é, qual é
Perna no mundo sumiu

E hoje, depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos
É a medalha que ele tem pra mostrar
Passado, é um pé no chão e o sabiá
Presente é a porta aberta
E o futuro é o que viráô ô e e á
O moleque acabou de chegarô ô e e á
Nessa cama é que eu quero sonharô ô e e á
Amanhã boto a perna no mundoô ô e e á
É que o mundo é que é meu lugar