Dia Internacional da Mulher – Entrevista

Publicado em 8 de março de 2012

 

 

MARY COHEN :Um dia a Mulher conquistará seu espaço, não como um favor concedido, mas como um direito que vem sendo objeto de luta na nossa história“.

 

 

Ela é reconhecida nacionalmente pelo ativismo em favor das mulheres, premiada pelo conjunto de ações desenvolvidas para valorização do gênero e em constante estado de vigilância para o aprofundamento das discussões e debates que envolvem a mulher como  agente ativo da sociedade.

Bela mulher, física e espiritualmente, a advogada Mary Cohen (foto)  é um dos símbolos paraenses  dos incessantes esforços que o sexo feminino desenvolve, ao longo dos anos, para quebrar preconceitos e violências, seja dentro de casa – como espaço privado; seja à frente das lutas sociais -, como espaço público.

Condecorada com o prêmio João Canuto conferido pela ONG Humanos Direitos,  integrante da Comissão Estadual de Erradicação ao Trabalho Escravo, da Comissão Justiça e Paz  da CNBB Norte 2, Mary Cohen acrescenta, nesta quinta-feira, 8, ao seu currículo, mais uma condecoração: a Medalha Iza Cunha, conferida pela Assembleia Legislativa do Pará através de proposição do deputado Edmilson Rodrigues (Psol).

Foi em busca de toda uma história de luta e organização das mulheres trabalhadoras,  que o poster  preparou a entrevista com Mary Cohen, especialmente no Dia Internacional da Mulher, reproduzida a seguir:

 

 

Hiroshi – 8 de março marca a luta das mulheres pela garantia de  direitos. Partindo do principio de que você vive cotidianamente defendendo esses direitos, seja como ativista ou  ocupando  funções em instituições de Defesa dos Direitos Humanos, o que realmente tem mudado na sociedade paraense para que a mulher deixe de ser vista apenas como mera reprodutora?

Mary Cohen – Primeiramente quero agradecer a você, Hiroshi, a gentileza de convidar-me para falar sobre um tema tão instigante e desafiador. Agradeço. É certo que muitas conquistas foram feitas, especialmente com relação aos direitos políticos das mulheres, todavia, há um caminho longo a percorrer para que a mulher seja, de fato valorizada. Ainda enfrentamos a discriminação de gênero em vários níveis, chamando atenção para o fato de que no Pará, por ser um Estado de grande dimensão e com uma absurda concentração de renda, existem “várias realidades”, como, por exemplo, no interior do Estado, onde a mulher, sem a mínima informação sobre seus direitos, é vitima de toda sorte de abusos, desde os sexuais. Nos grandes centros a situação melhora um pouco, pois a mulher tem meios de conhecer seus direitos, de buscar informações, de reivindicar mais.

 

Hiroshi – Apesar das muitas conquistas, a condição feminina ainda exige uma batalha constante contra o preconceito e a desigualdade. Anualmente, nesta data, não se corre o risco de alguns segmentos reacionários da sociedade continuar tentando resumir o Dia Internacional da Mulher como simples data comemorativa, com flores e cumprimentos, ao invés de realçá-lo como dia de conscientização?

Mary Cohen – Infelizmente, sim. Vejo instituições divorciadas do compromisso com o real significado desta data, que longe de ser uma data festiva, deve ser aproveitada para a reflexão acerca do papel da mulher, dos avanços e recuos que ocorrem na sociedade quando se trata de respeitar seus direitos.

Também registro que temos que aproveitar alguns eventos promovidos por essas instituições para marcar, com nosso discurso, uma posição de conscientização.

Nem a propósito, fui indicada, pelo Deputado Estadual Edmilson Rodrigues, para receber a Medalha Iza Cunha, dia 8 próximo (nesta quinta-feira), a ser conferida pela Assembléia Legislativa do Estado. Lá estarei para registrar minha posição e tentar chamar atenção para a discriminação e a violência que a mulher ainda enfrenta na sociedade.

 

Hiroshi – Quando se fala de direitos da Mulher, normalmente aparece espécie de “clareza subjetiva” de que esses ganhos são relacionados às melhores condições de trabalho e salários equiparados ao sexo masculino, havendo nisso o perigo de se esconder a questão do assédio e todo tipo de violência física e psicológica. Como fazer chegar às mulheres menos informadas de que seu universo de direitos contempla uma série de outras conquistas, principalmente na área de justiça social?

Mary Cohen – Voltamos à questão da ausência do Estado, pois acredito que seja do Poder Público a responsabilidade maior de levar, a todas as mulheres, não somente informações, mas, e principalmente, medidas efetivas para fazer valer, na prática, seus direitos. Não adianta dizer que a mulher tem esse ou aquele direito se de fato, quando ela se vê ameaçada, não tem a quem recorrer.

 

Hiroshi – O Pará aparece sempre no ranking nacional como um dos Estados onde mais se registram índices de trabalho escravo. A mulher paraense aparece nesse cenário como personagem ativo ou ela ainda não é vítima do trabalho análogo à escravidão na zona rural?

Mary Cohen – É preciso que a sociedade saiba que não só os trabalhadores rurais são vítimas de trabalho escravo, mas, também, imigrantes, mulheres e crianças. A exploração sexual atinge 79% das mulheres e meninas, seguida pelo trabalho forçado, em 18%. No trabalho forçado, 20% das vítimas são crianças.

 

Hiroshi – Tempos atrás você denunciou a ausência do Estado, que não leva políticas púbicas efetivas à população, e o modelo econômico adotado no interior do Pará, como causas principais da prática de trabalho escravo. Continua com essa mesma opinião ou alguma coisa mudou de cinco anos pra cá?

Mary Cohen – Infelizmente, nada mudou. Pelo contrário, o modelo econômico que não beneficia a população paraense é o maior incentivador da prática do trabalho escravo, juntamente com a ausência de políticas publicas como segurança, escolas de boa qualidade, saúde, saneamento básico, política de emprego e renda, lazer e esportes.

 

Hiroshi – Você construiu uma amizade fraterna com irmã Dorothy Stang. Completados sete anos de seu assassinato, o que mudou no campo? A semente que irmã Dorothy espalhou, deu para frutificar, ou as mulheres camponesas ainda não conseguem vislumbrar caminhos reais para a consolidação de conquistas sociais efetivas?

Mary Cohen – Há uma participação muito grande das mulheres na luta pela terra, nos lotes dos PDS. Quando vou lá, geralmente por ocasião de eventos de reivindicações, as mulheres comparecem em maior número, são corajosas, ousadas… Fico encantada com a postura delas, reivindicam, brigam, assumem a liderança e isso tudo tem muito a ver com o legado da Irmã Dorothy, de não se calarem diante das injustiças.

 

Hiroshi – Estamos à véspera do Congresso Nacional aprovar um Código Florestal todo emendado, e com forte tendência a anistiar multas de devastadores e estimular a derrubada de florestas rica em biodiversidade. Baseada na experiência que você adquiriu junto às esposas de sem-terra, essas corajosas mulheres têm consciência do papel que podem desempenhar na luta pela preservação das matas?

Mary Cohen – É importante frisar que esse espaço não foi conquistado de “mão beijada”. É fato conhecido que, no meio rural, persistem obstáculos e preconceitos maiores em relação à participação feminina.

Antes, a atuação das mulheres era restrita ao cuidado dos filhos e às tarefas domésticas. Foi na área da educação, valorizada pelo MST desde os primeiros acampamentos, que, inicialmente houve oportunidade para muitas mulheres atuarem fora do núcleo familiar. A organização de tarefas ligadas à saúde, como a produção de ervas medicinais e medicamentos naturais, também propiciou esse avanço. A partir da década de 80 as mulheres passaram a participar mais ativamente na base, nos acampamentos e assentamentos, na produção, nas finanças, na tarefa de debater a situação dos trabalhadores brasileiros com famílias ainda não acampadas.

 

Hiroshi – Advogada, você já ocupou a presidência da Comissão dos Direitos Humanos da OAB-Pará. No poder judiciário paraense, é possível vislumbrar mudanças de comportamento de magistradas portando bandeiras de modernização do tribunal, ou a maioria das mulheres juízas e desembargadoras exerce o papel conservador de manutenção do status quo de prevalência da cultura da impunidade, tão criticado pela sociedade?

Mary Cohen – Minha atuação profissional é voltado para a área trabalhista, não tendo participação no dia a dia do TJE. Todavia, pelo que é divulgado na imprensa, infelizmente não há avanços significativos, prevalecendo ainda a postura nitidamente conservadora. Há, porém, a necessidade de se destacar que contamos, sim, com honrosas exceções, magistradas que acompanham o trabalho da Comissão Justiça e Paz da CNBB por exemplo.

 

Hiroshi – A Lei Maria da Penha, em vigor, passa a aplicar maior rigor nas infrações penais praticadas com violência contra a mulher, definindo as formas de violência vivenciadas no cotidiano: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Saudada por todo o país, a Lei MdP não corre o risco de ser transformada em mais uma lei brasileira, diante da morosidade do nosso judiciário?

Mary Cohen – Infelizmente, sim, mas nós, enquanto cidadãos de bem, temos o dever de não deixar isso acontecer. Um passo importante nesse sentido foi a recente decisão do Supremo Tribunal Federal, que transferiu para o Ministério Público a prerrogativa de continuar com a ação ainda que a mulher desista da denúncia. Outro ente responsável para que essa lei tenha efetividade é o estado, que deve e, precisa urgentemente fazer seu dever de casa, possibilitando à mulher ameaçada, todas as condições para protegê-la.

 

Hiroshi – Mulher corajosa e reconhecidamente defensora intransigente dos Direitos Humanos, você tem esperança da mulher brasileira, dentro de poucos anos, encontrar sua verdadeira independência em qualquer campo que a vislumbre na sociedade?

Mary Cohen – Tenho. Preciso acreditar ardentemente nisso, senão minha atuação, enquanto defensora dos direitos humanos, não teria sentido.

Acredito que um dia, não distante, a mulher conquiste seu espaço, não como um favor concedido, mas como um direito que vem sendo objeto de luta na nossa história.