Hiroshi Bogéa On line

De saco cheio de Papai Noel

Minha essência é feita de esperanças. Acredito firmemente em um mundo mais justo, em dias melhores e em pessoas felizes!

Nunca consegui escrever sobre Natal. No fundo, considero a data muito chata. E isso não é coisa de gente rabugenta. É um sentimento sincero dos efeitos de uma data que não me cai bem. E olha que sempre gostei de “inventar” natais diferentes para meus filhos. Ao meu feitio.

Sinto impossível escrever texto até falando mal do Natal. Tipo assim: não cheira e nem fede.

No fim de 1979, eu e meu amigo Osvaldo Alencar, advogado fundador do Partido dos Trabalhadores em Imperatriz (posteriormente primeiro candidato do PT a governador do Maranhão que não chegou a ter 5 mil votos no Estado), lançamos uma revista quinzenal chamada “Momento” que durou exatamente o tempo previsto: três meses. Nessa época, para saudar o Natal, bolamos engraçada entrevista (fictícia, claro!) com Papai Noel que se revelava de “saco cheio” de tanto perambular o mundo distribuindo presentes. Na mesma edição, a quatro mãos, escrevemos bela matéria a respeito da inexistência de Papai Noel. Ou seja, estávamos dispostos a anarquizar!

Em verdade, não havia nada o que escrever: a cultura entre de recesso durante as festas de Natal. É como se todo mundo emburrecesse mais um pouquinho.

A matéria ficou engraçada. A gente inventou lance de uns malucos japoneses fazendo cálculos absurdos da velocidade que o trenó do Papai Noel teria de atingir se quisesse, de fato, entregar presentes a todas as crianças. Eu me lembro de rir muito. Repercutiu tanto o artigo que alguns amigos e parentes resolveram profetizar o risco de sermos castigados por causa da matéria anti-Papai Noel. E nem sabíamos o Bom Velhinho ter tanto poder assim.

Durante anos cheguei a apontar o negro Aziz como culpado de meu distanciamento do espírito natalino. Criado desde pequeno pela minha avó materna, Aziz mais tarde se revelaria um homossexual rejeitado pela sociedade reacionária da Velha Marabá – naquele tempo um amontoado de casas com pouco mais de 30 mil habitantes (A Velha Marabá, mais velha, mais povoada, continua também mais reacionária como nunca se viu).

Todos os anos, a partir de 1º de dezembro, Aziz montava lindo presépio na casa de meus avós. Verdadeiro presépio. Ao lado dele, gigante árvore de Natal. As luzes do presépio, a manjedoura, vaquinhas, burros, pastores, Anjo, Reis Magos, incenso, mirra, a Estrela Guia desenhada no papelão formando céu pairando sobre o cenário da Belém de Nazaré, e a imagem do bebê Jesus. Aquilo me encantava.

Quando chegava 7 de janeiro, data em que a obra de arte era desmontada pelo bom negro Aziz, imensa tristeza me dominava por alguns dias.

O presépio foi destituído da casa de meus avós após o suicídio de Aziz, que resolvera procurar Jesus em outras plagas virando na boca um recipiente cheio de soda cáustica. Nunca mais se fez presépio na gostosa casa de Tufy Gaby e Tunica. Passei mais de uma década maldizendo Aziz pela sua atitude. Ele nos fez falta ao deixar imensa lacuna nos seio da família que muito o amava.

Nos dias atuais, tenho certeza de que meu distanciamento do “sentido” natalino nada tem a ver com a auto-extinção de Aziz. Sinto, sim, verdadeiro incômodo por certa mentira no ar. Pode ser isso: Natal passou a ser “festa” mentirosa. Num clic, tudo de bom parece ocorrer na madrugada de 24 para 25 de dezembro. Como se as infelicidades cessassem, maldades esquecidas, homem virando santo, todos se certificando de serem bons -, e a maldade, durante o resto do ano, apenas resíduo de um desvio de conduta involuntário.

Quem critica o Natal se concentra na perda do sentido religioso e no foco meramente comercial da data. Para isso, dou de ombros. Nada a ver, também.

Incomoda, sim, o torpor impregnado. Fantasia movendo ridículo sorriso passageiro. E a falsidade que faz das pessoas mais abjetas dignas de admiração – só porque é Natal.

Não me sinto melhor por isso. Para ser sincero, até me acho pouco pior. Gostaria, verdadeiramente, de estar envolvido no processo.

Como de todo não faz bem a mim fingir certas coisas, resta-me, pois, como consolo, comer muita rabanada e rezar para que o tempo passe mais rápido. Rumo às resoluções de Ano Novo.

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