Criando laços

Publicado em 10 de novembro de 2011

 

 

A Vila São José localiza-se às margens de uma rodovia federal, a BR-230 (Transamazônica), o que provoca movimentação natural em povoados como este.

Porém, esta movimentação, em si só, não é benéfica: a exploração sexual infantil e o uso de drogas tornam-se presentes e são fatores preocupantes, que precisam ser combatidos pelas vias legais e a educativa.

A esfera legal faz-se presente com policiamento eficaz e o cumprimento das rigorosas leis que regem as políticas públicas de combate ao narcotráfico e a exploração sexual infanto-juvenil, através de ações dos Conselhos Tutelares e Juizado da Infância e Adolescência.

A educativa deve começar nos lares e encontrar na escola uma continuação.

Infelizmente nossos adolescentes, que estão em um momento de grandes mudanças físicas e emocionais, por isso mais vulneráveis, nem sempre possuem uma estrutura familiar capaz de fornecer o suporte necessário para encararem todas as tentações que aparecerem.

A escola, então, passa a ser uma referência, tanto no combate aos diversos tipos de exploração como na conscientização dos adolescentes aos perigos que estão expostos.

No segundo semestre do ano de 2010 nos deparamos com um número considerável de meninas, entre 14 a 17 anos, grávidas. Não tínhamos um índice tão alto de gravidez precoce em nossa escola há um bom tempo, por isso nos assustamos e começamos a questionar sobre quando deixamos de cumprir nosso papel educativo.

Repassamos a preocupação ao nosso amigo da Vale, Antonio Venâncio, que por essa época havia se tornado um verdadeiro professor para nós professores. Com sua experiência e sabedoria sempre nos presenteava com orientações eficazes.

Como é próprio de sua personalidade comprometida com o social, abraçou o problema e passou a intermediar a implantação na Vila São José de um dos programas mais promissores da Vale: O Programa Vale Juventude, PVJ como chamamos.

O namoro com o programa iniciou-se em uma tarde na escola, quando recebemos a visita da guerreira Joilda (como o Venâncio costuma chamá-la), coordenadora do programa em Marabá.

Naquela ocasião, que também estava presente a Andréia, coordenadora nacional do PVJ, fomos (professores, merendeiras, agente de portaria, coordenadores e direção) levados a pensar em diversos questionamentos que povoam o mundo dos adolescentes. Nos confrontamos com nossa própria sexualidade e com uma nova forma de olhar os alunos “complicados”.

Ficamos com um gostinho de quero mais na alma, aguardando o período que receberíamos a formação dos professores que atuariam no programa.

O PVJ hoje é uma realidade na Vila São José. Atendemos cerca de 28 adolescentes e, a cada encontro, novas descobertas são feitas, a emoção paira no ar, tanto professores quanto alunos (e também não alunos) passam por uma profunda reviravolta interior.

O principal objetivo do programa é fornecer preparo aos adolescentes em situação de vulnerabilidade para adquirirem condições de defenderem-se de possíveis ameaças, tomarem as rédeas de seus destinos, fazendo escolhas certas, fortalecendo-se para dizerem “não” às drogas e à exploração sexual.

Queremos fazer uma ponte entre o programa e o livro “O Pequeno Príncipe”, do francês Antonie de Saint-Exupéry, especialmente no trecho em que o Pequeno Príncipe encontra-se com a raposa e esta lhe diz:

“- Por favor…cativa-me! – disse ela.

(…)

Que é preciso fazer? – perguntou o pequeno príncipe.

É preciso ser paciente– respondeu a raposa – Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. (…) Mas, a cada dia, te sentarás mais perto…”

O trabalho realizado pelos professores e outros profissionais do PVJ é um trabalho paciente, de cativar, criar laços. Atitude pouco difundida em nossa época contemporânea, pois a velocidade das informações é repassada para os relacionamentos, tornando-os instantâneos e supérfluos.

Continuando com o livro citaremos o amor do pequeno príncipe por sua rosa, que mesmo descobrindo não ser a única no universo, percebeu que era a mais importante, pois o tempo que perdera com a sua rosa a fez especial. A raposa finaliza: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Tu és responsável pela tua rosa…

Eu sou responsável pela minha rosa… – repetiu o principezinho para não esquecer.

Ao nos aproximarmos de nossos adolescentes nos tornamos responsáveis por eles, e estaremos sempre repetindo isso para não nos esquecermos…

Nota: Registremos, também, a participação  no PVJ do Instituto Nova Aliança, bem como da prefeitura de Marabá através das ações conjuntas das secretarias de Assistência Social, Educação e Saúde.

 

Texto: Evilângela Lima, Educadora -, Diretora da Escola de Ensino Fundamental São José