Conversa de garimpeiro

Publicado em 13 de janeiro de 2008

As “Forças Guerrilheiras do Araguaia” (Foguera) – denominação oficial do movimento de insurgência ocorrido no Bico do Papagaio -, nunca cogitaram explorar jazidas de minérios ou solicitaram alvarás de lavras como indica documento assinado, irresponsavelmente, pela diretoria da Cooperativa Mista de Serra Pelada, ao questionar junto ao Ministério Público Federal a concessão à Vale da exploração do garimpo e de outras jazidas minerais naquela região.
A ambição desenfreada dos patifes chega ao ponto dos mesmos tentarem alterar o curso da história peticionando algo que nunca existiu no passado. Nem haveria nenhuma possibilidade real de ocorrer dado às condições onde e como ocorreram os confrontos entre a militância do PC do B e as forças federais.

Aos fatos:

1- Quando começaram a se infiltrar na região, a partir de 1966, Maurício Grabois, Elza Monerat, Osvaldo Orlando da Costa, Nélson Piauhy Dourado, João Carlos Haas, Líbero Giancarlo Castiglia, Ângelo Arroyo e João Amazonas preocupavam-se, exclusivamente, em conquistar a população prestando assistência social, ampliando uma rede de organizações comunitárias e tentando conscientizar politicamente as comunidades nas regulares reuniões promovidas em diversas vilas e distritos.

Esse comportamento de dedicação total dos guerrilheiros à luta pela tomada do poder foi testemunhada pelos nativos, entre eles vítimas da guerrilha entrevistadas pelo poster, recentemente durante alguns meses.
Sem exceção, os infiltrados do PCdoB cumpriam rigorosa disciplina diária tateando estradas e pinicadas em busca de familiarização e realizando constantes treinamentos militares.

Alguma vez, eles chegaram a falar da existência na região de jazidas de ouro ou minérios outros em larga escala que fosse de seus interesses explorá-los como legítimos proprietários?

2- Dias atrás, à publicação do artigo de Vasconcelos Quadros, jornalista de Brasília, contando a invencionice de alguns diretores da cooperativa de que Dinalva Conceição (Dina), Osvaldão e outros líderes dos guerrilheiros seriam verdadeiramente antigos donos de Serra Pelada e de outras áreas de Carajás, o poster retornou às localidades de Metade, Oito Barracas e São Domingos, com a pergunta na ponta da língua.
Sem as dificuldades iniciais para a gravação dos depoimentos de treze personagens, a maioria com mais de 78 anos (sonoras arquivadas na VídeoV aguardando o destino a ser-lhes dado), o blogger pôde, desta vez, bater papo mais ameno.

Quatro pessoas voltaram a ser entrevistadas: Raimundo “Barbadinho”, Alda, Pedro Borba e Vanu.

3- Raimundo “Barbadinho” (foto abaixo) trocava prosa com Osvaldão e Maurício. Fizeram amizade no comércio que ele tinha em São Domingos e era visitado quinzenalmente pelos líderes da guerrilha, isso nos idos de 1969.
Quando Osvaldão não ia à vila buscar suprimentos, ‘Barbadinho’ levava-os em sua tangida de burros até o barracão onde o jovem negro morava dizendo ser comprador de pele de animais para revender em São Paulo.
De São Domingos ao local, nas imediações de “Manuel das Duas”, uma colocação de castanha explorada pelo castanheiro assim apelidado, a distancia não passava de uma légua. Foi nessa região que a Foguera implantou o Grupamento C (Caianos). Resposta de Raimundo Barbadinho:

– Nunca ouvi Osvaldão falando de garimpo. Nem ele, nem outro amigo dele. Mais tarde, quando descobrimos que eles eram guerrilheiros, então era que não se falava mesmo. A única coisa que se ouvia aqui era barulho de bala, tiros de metralhadora e fuzil.

4- Alda Gomes (foto), amiga de Dina, Alice e Fátima -, as meninas da guerra -, também nunca ouviu.

– Elas falavam de liberdade, da gente viver melhor, dos castanhais não serem apenas de cinco pessoas, mas de todos nós, caso o governo quisesse dividir as terras e distribuir para os pobres. Garimpo, minério… não, nunca ouvi isso. Aqui, não!

5- Pedro Borba (foto), figura super-bem humorada, espancado na Casa Azul, em Marabá (sede atual do Dnit, na Cidade Nova) e na Bacaba, viveu transportado de um lugar a outro, para confessar sua participação numa guerrilha da qual nunca participou – a não ser como torturado.
E ele nem sabia o que era guerrilha, mas conheceu Osvaldão e seus camaradas:

– Garimpo quem falava era nós por aqui, sempre querendo um lugar para tentar extrair ouro. Os “paulistas”(designação dada pelos nativos aos guerrilheiros) nunca falaram nisso, acho que eles não tinham nem jeito pra ser garimpeiros. Eram sabidos demais, e gente sabida não vai procurar o que não guardou debaixo da terra. 6- Resposta mais compatível com a realidade da época é do ex-mateiro do Exército Vanú (guia que andava na mata tentando localizar os guerrilheiros, seguido de contingente de militares do Exército; ou vice-versa, ‘guiando’os guerrilheiros nas estocadas que davam atacando as forças federais).

A explicação do ex-mateiro – que pediu a não publicação de sua foto -, abarca a lógica geográfica:

– Os guerrilheiros nunca chegaram às imediações do que hoje é Curionópolis. O máximo aonde eles chegaram foi a uns 20 km da Pa-150, que naquela época nem existia ainda. Só tinha a rodovia Transamazônica, inaugurada em setembro de 1972. O resto era pinicada ou estrada de carroça. Os ‘paulistas’ tinham o rio Araguaia como referencia, já que o Itacaiúnas ficava bem distante dos três Grupamentos montados no Bico do Papagaio.

7- O poster obteve um mapa antigo e sujo de barro, ainda do tempo da guerrilha, que os militares usavam para situar-se em suas investidas na floresta. Vanu tem guardado até hoje o croqui com a localização real dos grupamentos dos guerrilheiros: Grupamento A (Perdidos), bem próximo ao Araguaia; B (Caianos), atuante no vale da Gameleira e o C (Saranzal), nas imediações da rodovia Transamazônica.

Faz sentido, a declaração de Vanu.

Olhando o mapa fotografado das mãos de Vanu e depois reproduzido no computador sem as marcas do tempo, a localização dos três grupamentos (em círculo, área limitada para atuação de cada grupo formado por até dez guerrilheiros) os jovens insurgentes do PCdoB não passaram do espaço onde seria depois cortada pela Pa-150 (traço vermelho).

O croqui fornecido pelo ex-mateiro, confeccionado certamente pelos serviços de inteligência do SNI, é a prova de que não havia margem de manobra para líderes da guerrilha terem em seus objetivos, além da tomada do poder pelas armas, pesquisa de jazidas de minérios. Tremenda mentira.

Conta ainda algo interessante, Vanu:

– O Osvaldão dizia para todos seus colegas que a única saída segura da região, em caso do Exército fechar o cerco mesmo, como fechou mais tarde, seria pelo Araguaia. Ele lembrava que a Transamazônica era o pior caminho de fuga. Por isso os grupamentos foram definidos nos locais indicados aqui no mapa.

Osvaldão estava tremendamente certo. Dos guerrilheiros que conseguiram vazar o cerco militar, apenas dois seguiram pela Transamazônica. Só que em sentido de Altamira: Elza Monerat e Ângelo Arroyo.

Observem no mapa as linhas pontilhadas indicando o traçado futuro das OP-2 e OP-3, estradas feitas em tempo recorde pelo Exército para cercar a guerrilha. A OP-2( traço azul) é atualmente a BR-153, ligando a Transamazônica a São Geraldo do Araguaia; e, a OP-3 (traço róseo) é a estrada que hoje liga a BR-153 a Pa-150, passando pelo município de Piçarra.

Se os guerrilheiros estivessem atrás também de ouro, como insinua um falso documento da cooperativa dos garimpeiros, o PCdoB teria chegado além do traçado vermelho (Pa-150), mais ao Norte. Eles nunca estiveram ali.

8- Mais realista nessa história é Ana Salett Marques Gulli, chefe da procuradoria do DNPM em Brasília, nascida em Xambioá e neta de garimpeiro. Portanto, conhecedora da região e do próprio conflito.
Ela disse a Vasconcelos Quadros que os guerrilheiros não teriam tempo nem condições técnicas para se ocupar de minério. E também é improvável que algum ativista fosse colocar seu nome num requerimento de lavra.