Hiroshi Bogéa On line

Considerações sobre solidão na Internet

 

A busca por relações no mundo virtual não é algo deslocado na história da humanidade. São diversos os fatores que nos mostram um contexto de profundo desgaste das relações e das instituições, como as conhecemos no século passado. “Tudo o que é sólido desmancha no ar.” Nunca uma frase foi tão profeticamente precisa para ilustrar esse tempo da nossa história, como essa escrita por Marx e por Engels n’O Manifesto Comunista (1848). Justamente neste momento em que todas as nossas instituições sociais mais ‘sagradas’ são quebradas, desmancham-se no ar, somos inevitavelmente seduzidos com a fuga para o mundo virtual.

 

Constatação é da colaboradora Ghyslaine Cunha, num dos parágrafos do artigo “A solidão conectada”, especialmente produzido para o blog.

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A solidão conectada

(*) Ghyslaine Cunha

 

Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão solitários. Começo este texto concluindo, mas a constatação não é minha. Em mim brota o sentimento, vindo de uma percepção corroborada pelos tantos artigos que surgem em minha tela, a um simples clique na caixa de pesquisa do Google sobre solidão e internet. São muitos os cientistas da psicologia, educação, neurolinguística e tantas outras áreas de estudos, se debruçando sobre o assunto. Vários cursos universitários começam a montar grupos e linhas de pesquisa para investigar essa solidão conectada através das máquinas, onde nossas relações são mediadas por cabos, telas, ondas, bytes, palavras, sons e imagens, códigos decifrados e retransmitidos por supercomputadores que liquidificam nossos sentimentos ao redor do globo, mas não podem substituir a verdade profunda, simples e humana do olhar, do sorriso e do toque.

 

“Os meios de comunicação, ao mesmo tempo em que nos aproximam do resto do mundo, nos tornam seres individualizados e solitários. Isso se dá pelo imediatismo com que as informações chegam a nós através da grande rede. As pessoas preferem o contato rápido pela internet aos antigos encontros realizados pessoalmente.” Afirma Adjiedj Bakas, um dos mais badalados trendwatchers da atualidade, que dedica sua vida a pesquisar, analisar e monitorar as grandes tendências sociais do futuro. Bakas aponta a solidão em escala global como um grande dilema atual, devendo ser um dos maiores problemas da humanidade em um futuro breve.

 

A busca por relações no mundo virtual não é algo deslocado na história da humanidade. São diversos os fatores que nos mostram um contexto de profundo desgaste das relações e das instituições, como as conhecemos no século passado. “Tudo o que é sólido desmancha no ar.”Nunca uma frase foi tão profeticamente precisa para ilustrar esse tempo da nossa história, como essa escrita por Marx e por Engels n’O Manifesto Comunista (1848). Justamente neste momento em que todas as nossas instituições sociais mais ‘sagradas’ são quebradas, desmancham-se no ar, somos inevitavelmente seduzidos com a fuga para o mundo virtual. Philippe Quéau, um pioneiro mestre em ciência da informação e comunicação, corretamente afirmou que “a fascinação pelos mundos virtuais (…) provém do fato de que não somente podemos criar pequenos mundos do nada, mas, sobretudo pelo fato de que, num certo sentido, podemos habitar realmente nestes mundos. Podemos contentar-nos com estes simulacros da realidade, por pouco que o mundo real nos pareça demasiado duro (…)”.


A contradição é que a vida virtual e seus novos paradigmas não nos devolvem os valores e princípios perdidos, ao contrário, tratam de desconstruir os que ainda restam. Antes do facebook, por exemplo, usávamos categorias para definir o nível de aproximação com alguém: havia os conhecidos, os colegas e os amigos. Hoje, “amigos” são todos, inclusive os que não conhecemos presencialmente, mas fazem parte da nossa lista na rede. Aliás, muitos de nossos “amigos” virtuais estão por mais tempo em contato conosco na internet, do que as pessoas com as quais residimos. Provavelmente, em dez anos, o conceito de amizade estará profundamente alterado. Nossos netos não poderão compreender, sem nossa ajuda, o sentido da bela canção “meu caro amigo” de Chico Buarque e Francis Hime – “Meu caro amigo, me perdoe, por favor, se eu não lhe faço uma visita…” uma visita está a um clique no mouse e pronto: vou curtir as postagens no seu mural.

 

Parece-nos realmente sedutora a idéia de evitar a dureza das relações humanas. Dá trabalho aprender a conviver. Conviver significa estar junto quase sempre, quando escolho e quando não escolho, na alegria e na tristeza. Já na fugacidade das redes sociais a escolha é sempre minha. A tela pode me mostrar apenas o que quero. Quando não quero, a distância e o mouse resolvem: mudo de papo, de amigo, de amor, mudo de site. Assim, parece fácil. Parece, mas não é. Luiza Ricotta, psicóloga e professora universitária, em seu texto “Ansiedade e solidão na era da internet”, assinala que a forma como temos vivenciado esse fenômeno “provoca efeitos desastrosos, seja pela crescente ansiedade existente e pela sensação de solidão, (…) no caso daquelas pessoas que estão perdendo em qualidade relacional, suprindo suas necessidades de contato e de atenção, por meio de conversas virtuais e da participação em redes que lhe oferecem praticamente o mundo. (…) Tudo é muito ágil e, ao mesmo tempo, fugaz, deixando também de ter validade a cada hora que passa. (…) resultado de uma vida plugada e conectada, destituindo-se do que faz verdadeiramente sentido para a sua vida. A vida precisa ser assimilada e não engolida.” Conclui a psicóloga.

 

Se a vida tem sido dura, se temos cada vez menos tempo e se conviver dá trabalho demais, ao optarmos, ainda que inconscientemente, pela ilusória busca de relações plenas no mundo virtual, parece lógico que ‘esqueçamos’ os passos de aproximação que, nas janelinhas e chats, não encontram espaço e tempo. “reconheço que há algo nas relações virtuais que fascina e assusta, e por isso elas são vistas com tamanha desconfiança: é a rapidez com que se cria o vínculo. Não há outro relacionamento que queime tantas etapas (…) As pessoas querem saltar da tela do computador num efeito rosa púrpura, como se passar do virtual para o real fosse uma mera questão de continuidade, e não é. É preciso retroceder a fita, reiniciar o programa…” ressalta a psicóloga e poetisa Martha Medeiros, autora de diversos livros sobre as relações humanas.

 

Como em uma corda cada vez mais fina e mais bamba, vamos tentando nos equilibrar em um mundo cada vez mais fluido, fugaz, virtual, incapaz de alimentar realmente nossa necessidade humana de contato profundo. Sinais dos nossos tempos… Carências, todos temos. Desejos de amar e ser amados, todos temos. Necessidades de resolver conosco, e com a ajuda de outros, as nossas questões mais internas, todos temos. Somos humanos. Precisamos voltar e reconstruir nosso mundo real para vivermos o ser humano em nossa plenitude e profundidade. O que queremos, de verdade, é tocar fundo, olhar no olho, sorrir junto e isso continua sendo muito gostoso na vida real, continua valendo a pena, mesmo se pesarmos na balança tendo, do outro lado, os desgastes de toda convivência; inclusive porque no caminho natural do amadurecimento, tendemos a ficar mais generosos e pacientes.

 

Isso significa abandonar ou negar a evolução tecnológica? Não. Podemos e devemos aproveitar ao máximo as novas possibilidades de pesquisas, estudos e interação na internet, mas sem ilusões quanto às nossas emoções. A internet não substitui a vida real, presencial. Telas não são peles, não tocam, não sorriem, não cheiram. Por trás das máquinas somos sempre nós, a nossa energia viva. Então encontremos mais tempo para sermos nós frente a frente, olho no olho, mão na mão. “E a gente vai se amando que, também, sem um carinho, ninguém segura esse rojão…”.

 

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(*) – Ghyslaine Cunha (como ela mesmo se apresenta) é mãe de Cecília, eterna estudante das ciências sociais e políticas, vegetariana e esotérica, apaixonada por poesia, crônica e boa música, editora do blog http://amoresmeusvidaminha.zip.net . Também presta assessoria política e em planejamento e gestão a associações e sindicatos de trabalhadores, pequenas empresas, mandatos e outras organizações populares.

 

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4 Comentários

  1. Ghyslaine

    27 de fevereiro de 2012 - 11:07 - 11:07
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    Grata pelos comentários. Não creio que haja um trato específico nas obras de Marx quanto à afetividade, o amor, mas uma visão ampla do todo, de tudo, diria até holística… nesse sentido trouxe a bela e profundamente verdadeira frase “Tudo o que é sólido desmancha no ar”.

    Não creio que possamos, ou devamos, abrir mão da internet e suas diversas, interessantes e até maravilhosas formas de interação, mas creio que necessitamos, humanamente, trazer essas relações para a vida real… pessoalmente tenho reencontrado tantas pessoas queridas e conhecido pessoas encantadoras pela internet, e tem sido delicioso abraçá-las, conversar com elas, sorrir com elas, quando acontece de nos encontrarmos… ampliei muito meu precioso leque de amigos e amigas, e nesse post é o que proponho: olho no olho, mão na mão, e com uma dica nas entrelinhas: cuidar da emoção… proteger a emoção, ter cuidado com relações afetivas que, pela internet, não podem chegar a ser plenas, porque em um clic de mouse, sem o olho no olho, fica muito fácil começar e terminar qualquer coisa, só que a emoção é real. Um abraço em cada um.

  2. Capitu

    26 de fevereiro de 2012 - 19:38 - 19:38
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    Concordo com este post. Esse negócio de relacionamento online vicia, e não é tão saudavel assim.
    As pessoas se escondem na internet para não levarem um relacionamento a sério.
    Pior que a gente acaba tendo dificuldade de se libertar disso. É muito cômodo, mas não a toque, nem cheiro, nem olho no olho…

  3. Marcos Nascimento

    25 de fevereiro de 2012 - 17:25 - 17:25
    Reply

    Nao devemos confundir a coisa: devemos dar importancias as coisas novas sim, mas nao devemos trocar as antigas, sobre tudo os relacionamentos reais, por aquilo que nao te traz o contato direto com as pessoas. Dar importancia a alguma coisa, nao significa trocar essa coisa por prazo indeterminado.

  4. Vizinha

    25 de fevereiro de 2012 - 15:39 - 15:39
    Reply

    Esse texto me fez lembrar de um vizinho, a qual falamos sempre pela internet. Me coloquei a pensar, e não teria coragem de afirmar que estamos vivendo o marxismo nas relações afetivas devido ao imediatismo das informações como colocado no início do texto. Seguindo a linha de raciocínio que o artigo segue relacionado a ideologia de Karl Marx que juntamente com seu fiel companheiro Friederik Engels defendiam no milênio passado, as relações existentes hoje pela rede virtual nada mais é aquilo que estes pensadores já argumentavam, ou seja, pelo materialismo histório. Vejamos um ex: Eu e meu vizinho, nós só falamos via internet, por que ambos tem poder aquisitivo que proporcione isso. Sequentemente, isso está relacionado ao poder econômico que determina o capitalismo e quando Marx usou essa expressão, “o sólido desmancha no ar”, ele também se referia as relações de poder, as políticas e principalmente ao capitalismo que para ele apesar de sólido poderia um dia vir se auto destruir. Trazendo o pensamento marxista para as relações afetivas, digo que sua teoria ainda vale. O casamento por exemplo, existe relação mais sólida que possamos comparar? Ele por si só não se distrói, e quando não o faz, não vem outro modelo (feminino ou masculino) e o destroi. Diante dessa análise vejo que as relações virtuais não são uma vilã da tecnologia e nem da solidão e muito menos uma válvula de escape para os corações solitários e para as relações presentes fracassadas. Vejo como um ato determinado por quem detém os meios. Outro ex; Um campones que se sente sozinho, solitário e que até tee seu relacionamento muito sólido, acabado, destruído. Ele se sente sozinho, com desejo de afogar aquela solidão numa boa conversa, num bate papo, etc. Porém este campones, não tem acesso a rede virtual, justamente pela divisão capitalista que ele está inserido. Diante disso tudo, eu deixo a pergunta para que voces próprios respondam para si mesmos, principalmente para a autora do texto.”A solidão conectada é uma fuga das durezas das relações humanas, da solidão (como diz o texto), ou é consequencia das classes capitalistas dominantes?

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