Hiroshi Bogéa On line

Compreendendo a vassalagem do Século 21

A eventual mudança na direção da Vale vem ocupando páginas das publicações especializadas. O governo teria ou não direito de influir nesse processo? Parauapebas, como você bem sabe, tem interesses reais nesse debate.

Recentemente, postagens sobre o tema, no blog do Zé Dudu, levaram-me a um ligeiro duelo de ideias com nosso notável e bom “esgrimista” Chico Brito*.   

 Reproduzo abaixo os argumentos, com a devida vênia do autor:

 

 

“Quando político diz uma coisa é por que pensa exatamente em fazer o contrário. O governo quer sim, há tempos, tornar a Vale ineficiente, cabide de emprego para esse monte de mensaleiros e que tais, derrotados nas eleições.
Dizer que quer blindar a empresa é só para não assanhar ainda a turma. Isso é típico de Brasil, especialmente do PT: não consegue conviver com a competência.
Se com Agnelli a Vale chegou onde está e é empresa privada é ela, e apenas ela, que tem que administrar sua estratégia de crescimento. Se este não é o momento para os investimentos que o governo quer é por que não é a hora, e por que, certamente, a empresa não irá mudar seus planos só para agradar ao governo que não engole o fato de que ele não determina a vida das empresas privadas.
Não dessa forma, ingerindo lá dentro.
Eles querem prejudicar a mineradora, cortar sua trajetória brilhante e ascendente sob a presidência atual, que deveria não ser substituída, mas condecorada. Depois que seguir eu projeto atual e ocupar o 1º lugar entre as mineradoras do mundo, aí será a hora dos investimentos internos. Agora, é aproveitar o momento de alto consumo mundial, especialmente o chinês, que não durará para sempre”.
Chico Brito

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Meus argumentos:

Meu caro Chico,

Permita-me uma ponderação. Na sua assertiva: “aproveitar o momento de alto consumo…” está, do meu ponto de vista, a chave para se chegar à conclusão diversa da sua. A Vale – e o Brasil – precisam aproveitar o momento – que você bem sabe “… não durará para sempre”, para criar as bases para a verticalização da produção mineral no País.

Sabe quem já é a segunda maior mineradora brasileira? A Companhia Siderúrgica Nacional, que domina todo o processo do setor – do extrativismo à laminação. É lógico que a distância que as separam é enorme, mas a estratégia da CSN tem dado bons resultados.

A Vale já dá sinal de buscar a diversificação, seja nas alianças com a Thyssenkrupp, no Rio; na implantação da Alpa, em Marabá – cuja decisão o governo federal “ajudou” a tomar – ou nos novos investimentos, como o exemplo da produção de fertilizantes.

Uma das críticas correntes à direção tomada pela Vale alude o fato de ter a mineradora algo em torno de 60% de sua receita vinculada à produção de um único minério: o ferro.

Além disso, quando um governo detém 49% das ações de uma empresa – neste caso falamos da Valepar, holding que possui maioria das ações com direito a voto na mineradora –, fica patente que os planos macro-econômicos defendidos por este governo deverão ser levados em conta nas definições de rumo do referido empreendimento.

Em relação a administração de Roger Angelli, é inquestionável sua competência, mas competência para quem e para que? Se olharmos os números friamente, chegaremos a conclusões tão óbvias quanto frágeis.

Uma rápida varredura nos métodos de relacionamentos com terceirizadas, na precarização das relações de trabalho e nos problemas que se avolumam com governos e comunidades, podemos no mínimo dizer: olhe, poderosa Vale, você não é essa maravilha toda, como dizes que é”

Essa necessária avaliação ficou escamoteada por anos em função da dependência pela qual o País se viu submetido para a produção de superávit comercial. Agora é necessário um freio de arrumação, colocando a empresa em conformidade com um projeto de desenvolvimento do País. Um projeto que resolutamente abandone o modelo de exportação de matérias primas e aposte no desenvolvimento do parque industrial brasileiro, agregando valor e tecnologia à produção nacional.

É lógico que se pode sempre argumentar: a Vale é privada!

Anexando novo argumento, eu termino lembrando: mas o minério é da União, portanto, do povo brasileiro. E da mesma maneira que convencionamos criticar o período colonial, quando nosso ouro era levado para Portugal, atendendo os interesses da Corte, eu digo que passa da hora de assumirmos a mesma compreensão sobre essa espécie de vassalagem do século 21. (Cláudio Feitosa)

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* Chico Brito administrou Parauapebas há 24 anos, quando a hoje maior exportadora de minério brasileiro ainda se encontrava na condição de distrito de Marabá.    

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1 Comentário

  1. Delley Landal

    25 de março de 2011 - 13:56 - 13:56
    Reply

    Muito boa a analogia, Cláudio Feitosa. O que me deprime é um cidadão da região ter esse tipo de comportamento! Diante daquilo que podemos considerar como o marco da retomada – não da empresa que, infelizmente, já foi rifada-, mas do minério que há tempos vem sendo exportado em sua forma bruta, em detrimento dos valores reais que poderíamos agregar com a sua transformação no país. Outra coisa, defender o Roger Agnelli e dizer que a Vale chegou onde chegou, como se a Vale antes do Roger desse prejuízo, é no mínimo admitir que temos que nos submeter, mais uma vez, ao poder de vassalagem q nos é imposto desde tempos Cabril. Ora, já chega termos que ouvir desse fantoche do capital estrangeiro que “…a Vale não tem nada a ver com os problemas sociais da região!”, agora seremos obrigado a suportá-lo infinitamente no comando de uma Empresa genuínamente do povo brasileiro? E o que é pior recebendo o aval de ex-agente público que conhece as mazelas que a Vale oferece para a nossa região. É simplesmente, inacreditável!

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