Com o coração na boca

Publicado em 6 de dezembro de 2009

A primeira arma do Flamengo para prender seus fervorosos torcedores, é o sofrimento.

Mas não é aquele sofrimento pelo qual passam os torcedores do Botafogo, que quanto mais supersticiosos, mais azarados são.

O Flamengo é como o mocinho de filme de luta: apanha, apanha, mas no final, chega com uma voadora aterrorizante e sai campeão.

E você fica pasmo, pensando: – Mas meu Deus, como ele conseguiu levantar depois de tanta pancada?

Outra diferença gritante entre o Flamengo e os outros clubes:
Enquanto os times têm seus alçapões, seus caldeirões, o Flamengo tem o Maracanã – estádio com capacidade para 90 mil pessoas.

E é claro, sabemos que o Maraca não é do Flamengo, mas será que a torcida apaixonada, sabe?

Será que eles ligam?

Pior: ignoram de caso pensado.

Não se aprende a torcer pelo Flamengo.

A gente nasce rubro-negra.

Porque o Flamengo circula como sangue nas veias, tecendo sua teia mística.

E a paixão cresce, nas variáveis etapas da vida humana, ensinando a cada torcedor como faz bem à alma fazer parte de um time que sabe sempre se levantar.

Que tem a maior torcida do mundo.

Que tem estrela, raça, amor e paixão.

E quando eu digo fazer parte de um time, é fazer parte mesmo.

O Flamengo espalha paixão até entre os torcedores adversários que, contritos em seu silencio, escondem a simpatia e o desejo de provar um pouco do adocicado orgasmo de arquibancada.

Desejam calados.

Fantasiam consigo mesmo já que não podem falar, publicamente, sobre o caso extra-conjugal.

Amam o Flamengo pelos olhos.

Que o diga Nelson Rodrigues, o maior tricolor de todos os tricolores cariocas, ao escrever sua leve traição, diante da camisa rubronegra:

Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte:- quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas, tremem, então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o  Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.” (Nelson Rodrigues, tricolor doente, excitado pelo Mengo).

Flamenguista não tem excitação por outras cores. Ou é rubronegro ou nada existe.

Não há traição velada, entre os membros da Nação Flamengo.

Quem conta isso em uma de suas crônicas é o incorrigível escritor flamenguista José Lins do Rego, no texto “Sangue para o Vasco”, escrita em 1948.

Narrando com humor irrepreensível, mas cheio de ironias requintadas, as vezes em que se dirigia aos hospitais para doar sangue a pessoas enfermas, um dia passou a conversar com um garoto internado, perguntando a ele para qual time torcia, no Rio de Janeiro.

– Doutor, eu sou vascaíno, respondeu o menino enfermo, enquanto Zé Lins doava sangue.

O diálogo encerra a crônica com a seguinte manifestação do autor do livro “ Menino de Engenho”:

– “E assim se explica como o rubro-negro José Lins do Rego teve a honra de dar o seu sangue ao Vasco”.

Flamenguistas de verdade não torcem pelo Flamengo.

São Flamengo.

Até morrer.