Hiroshi Bogéa On line

Com cenas rodadas em Marabá, ficção e documentário vão retratar trabalho escravo no Brasil. 

Informação antecipada pelo blog  em 2015,  a equipe do filme Pureza anunciou a contratação de figurantes em Marabá, local onde  parte do set será trabalhado.
“Pureza” é  que vai mostrar, 129 anos após a Lei Áurea, a realidade de trabalhadores que são explorados de tal forma que as condições remetem à escravidão do século XIX.
O cineasta Renato Barbieri, autor de filmes  como “Cora Coralina — todas as vidas” e “Do outro lado da rua”, sobre a população de rua, soube por um amigo fotógrafo, em Santarém, da história de Pureza: a mãe que já tinha visto o irmão ser escravizado e agora saía em busca do filho que seguia pelo mesmo caminho, ainda nos anos 1990.
— A jornada de Pureza vai mostrar ao espectador o Brasil profundo, aquele onde a mentalidade escravocrata ainda persiste no século XXI — afirma Barbieri.
A ficção “Pureza”, inspirada na história dessa mãe, começa a ser rodada ainda neste semestre, em Marabá.
— Quando liguei, ela disse: sonhei que os olhos do mundo iam me ver, os olhos do mundo eram o cinema — lembra Barbiere.
A peregrinação de Pureza é uma jornada típica de um herói, diz Barbieri.
Uma mulher que parte de Bacabal, a 246 quilômetros de São Luís, no Maranhão, com a roupa do corpo, algum dinheiro e a foto do filho numa viagem ao desconhecido para libertar o rapaz da mão dos “gatos” (aliciadores de mão de obra) e mercenários.
— Ao se lançar, começa a descobrir algo que não conhecia, seguindo dicas, sinais. Ela é muito religiosa e crê que Deus foi mandando sinais. Ela desce às profundezas, conhece o trabalho escravo que a sociedade brasileira não vê. O público vai ficar conhecendo esse mundo com Pureza. Quando ela sai desse inferno e volta à superfície, vem com algumas pepitas, preciosidades, uma delas, um tremendo destemor. Uma mulher muito corajosa, fala o que sabe, a verdade que ela consegue traduzir e ver.
Nesse trabalho, Barbieri teve acesso ao arquivo de Pureza: cartas, gravações, documentos.
Com o gravador no bolso, ela foi colhendo depoimentos para denunciar às autoridades de Brasília, que exigiam provas para investigar o que ela descobriu pelo caminho.
Na produção de “Pureza”, Barbieri viu que tinha reunido material suficiente para um documentário, enriquecido com o arquivo reunido por ela. E nasceu “Servidão”, documentário também de Barbieri, que  complementou o material acompanhando fiscalizações do Grupo Móvel Contra o Trabalho Escravo, criado em 1995, e entrevistando estudiosos e abolicionistas.
— O foco é a escravidão na Amazônia, ancorada na mentalidade escravagista que vem do latifúndio, que está por trás da portaria do Ministério do Trabalho. A portaria, suspensa por liminar do Supremo Tribunal Federal semana passada, muda o conceito do crime, retirando condições degradantes e jornadas exaustivas das características de trabalho escravo, a menos que o trabalhador esteja impedido de ir e vir.
As filmagens para o documentário ocorreram no Pará, Maranhão e Mato Grosso.
Mais de 21 instituições abolicionistas apoiaram os projetos de Barbieri: — É um mundo de crueldade e violência. São cenas dramáticas, o rebaixamento do ser humano à condição de coisa, tratado como peça de reposição.
No documentário, Barbieri conta, por exemplo, a história de Marinaldo Soares Santos, de 46 anos, que foi resgatado três vezes pelo Grupo Móvel em fazendas para fazer o roçado de juquira, mato que cresce e dificulta a pastagem.
— Se eu pudesse, não passaria mais por isso. Mas, às vezes, a gente é humilhado pela precisão. Quando um filho adoece, eu me desespero e, então, é muito fácil aceitar trabalhar em fazendas — diz Marinaldo, pai de três filhos, uma menina de 13 anos e mais dois meninos, de 8 e 11 anos.
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