Hiroshi Bogéa On line

Calma, ainda não é bem assim!

 

 

O papa, sinais e substância

(*) Clóvis Rossi

 

É impressionante a unanimidade a favor do papa Francisco.

Até um crítico contundente da hierarquia da igreja, o teólogo Leonardo Boff, condenado ao silêncio pelo antecessor de Francisco, entusiasma-se com o novo pontífice.

Boff chegou a dizer, em entrevista ao jornal espanhol “El País”, que Francisco “não é um nome, é um projeto de igreja. Uma igreja pobre, humilde, despojada do poder, que dialoga com o povo”. O teólogo espera que Francisco “inaugure a igreja do terceiro milênio”. Uau.

Acho que é cedo para essa beatificação em vida do papa.

Tudo bem que ele tenha emitido sinais simpáticos. Tudo bem que símbolos são importantes. Mas vamos combinar que símbolos só se tornam de fato decisivos quando acompanhados de substância.

E vamos combinar também que, em matéria de substância, o papa ainda deve tudo. Nem se diga que a pregação de uma igreja ao lado dos pobres já é substância. Desde pelo menos a “Rerum Novarum” de Leão 13, velha de 122 anos, a retórica da igreja tem forte conteúdo social.

Se a prática seguiu ou não a retórica, é uma outra história que não dá para discutir em uma mera coluna de jornal.

Em termos de simbolismo, parte da mídia italiana deslumbrou-se com o fato de que Francisco levava a própria pasta ao subir as escadas que o depositariam no avião da Alitalia que o traria ao Brasil. De fato, nunca vi um chefe de Estado praticando exercício semelhante ao subir ou descer de aviões oficiais.

É um símbolo, ok. Mas realmente definitório seria o papa enfrentar o dossiê que talvez estivesse na pasta ou que certamente está em seu escritório no Vaticano.

Ajuda-memória: o jornal oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, chegou a definir o papa anterior como “um pastor cercado de lobos”. Alusão a uma sucessão de escândalos que envolveram dinheiro, disputas de poder, condutas inadequadas, vazamento de documentos de Bento 16.

O próprio Bento 16 encarregou um estudo alentado da Cúria Romana –a fonte dos escândalos–, o que foi feito por três cardeais não eleitores porque já haviam superado a idade limite para votar no conclave. O dossiê ficou pronto às vésperas da eleição de Francisco e foi entregue a ele ao assumir.

A lógica elementar indica que o documento pede uma faxina na poderosa Cúria Romana, para evitar que o novo papa, como o antecessor, fique cercado de “lobos”. Faxina, aliás, pedida publicamente por alguns cardeais antes de se trancarem na Capela Sistina para a votação que elegeu Bergoglio.

O novo papa não teve tempo ou condições de mexer na Cúria, o que significa dizer que a igreja continua ancorada em intrigas medievais, muito longe de uma “igreja do terceiro milênio” antevista por Boff.

A propósito de Boff: o correspondente de “El País” no Brasil, Juan Arias, um dos mais respeitados vaticanistas de todos os tempos, antecipou ontem a hipótese de que Francisco receba no Rio o teólogo virtualmente excomungado por seu antecessor. Aí, sim, seria o início da uma revolução.

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(*) – Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno “Mundo”. É autor, entre outras obras, de “Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo” e “O Que é Jornalismo”. Escreve às terças, quintas e domingos na versão impressa do caderno “Mundo” e às sextas no site.

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