Alimentando o viver a cada dia

Publicado em 13 de março de 2012

 

A colaboradora  Ghyslaine Cunha (*) nos contempla, esta semana,  com texto que aborda a beleza em suas diversas expressões. A beleza “na palavra, na emoção, na canção (….), no silêncio pontuado pelos cantos dos pássaros…”

 

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O Belo Alimento da Vida

 

(*) Ghyslaine Cunha

 

É impossível escolher sempre as horas e o que nelas vivemos. A vida é feita também de revezes, imposições, dores, lutas, a maioria delas dispensáveis… seguimos ora atalhando os caminhos, ora enfrentando, desviando, buscando, vivendo um dia de cada vez, sem nunca chegar a lugar algum, porque nessa vida não há chegada. Tudo é partida. Tudo é recomeço. Vivemos para viver, apenas. E viver deveria ser sobretudo amar, respeitar, cantar, brincar, poetizar, sorrir, cuidar, mas nem sempre é.

Há momentos nos quais me pergunto que tipo de lucidez seria possível nesse mundo que amanhece e anoitece infinitamente, e as nossas mais profundas verdades ficam adormecidas, às vezes por anos, ou por toda uma vida, sob o peso do que nos é externo: instituições, burocracia, preconceitos, tradições que podam o mais fino e delicado sentir em nós? “De perto ninguém é normal, às vezes, segue em linha reta, a vida que é meu bem, meu mal” cantou Caetano Veloso em ‘Vaca Profana’.

E é então que investigo, no silêncio pontuado pelos cantos dos pássaros dessa manhã, o que me alimenta viver…

É a beleza.

A beleza na palavra, na emoção, na canção… A beleza desejada na utopia, a beleza conquistada no amor e na alegria… A beleza da alma de quem vê e enxerga e sente, mesmo sem procurar, ainda que para enxergá-la seja necessário sintonizá-la, e eis que a sintonia dispensa a procura. O belo como alívio, libertação, cura, deleite, o prazer do belo… E me chegam as imagens de seres iluminados que, desesperados nessa lucidez possível, encontraram a paz na criação da beleza. Hoje, dois deles me tocam mais profundamente: Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e Vincent Van Gogh.

 

"O Profeta Daniel", de Aleijadinho, é uma das esculturas em pedra sabão, pertencente ao conjunto "Os Doze Profetas", em Congonhas do Campo - MG, no adro do Santuário do Bom Jesus de Matozinhos. A peça é a maior entre todas as esculturas, feita em pedra monolítica e sem a ajuda de seus auxiliares, segundo contam os estudiosos.

 

Aleijadinho, nascido escravo em 1783, em Ouro Preto, morreu doente, corpo em chagas, completamente deformado, em 18 de novembro de 1814. Foi escultor, entalhador e arquiteto do Barroco, considerado o maior expoente da arte colonial no Brasil e um dos maiores nas Américas. Em seus últimos anos de vida, pedia que lhe amarrassem os cinzéis nos tocos dos braços para poder criar.

 

"A Noite Estrelada" é uma das mais belas e conhecidas obras de Van Gogh, que a pintou quando estava internado em um asilo em Saint-Rémy-de-Provence, no sul da França, em 1889. Atualmente a obra encontra-se no Museu de Arte Moderna, em Nova York.

Van Gogh, pintor holandês, nascido em Zundert, em 30 de março de 1853 e falecido em Auvers-sur-Oise, em 29 de julho de 1890, é um dos maiores pintores de todos os tempos, embora aos olhos de seu tempo, tenha sido considerado um ‘fracassado’. Ele teria ‘falhado’ em todos os aspectos práticos da vida e, incapaz de compor uma família, sustentar-se financeiramente e estabelecer relações sociais, aos 37 anos, profundamente depressivo, suicidou-se.

Como eles, Frida Kahlo, Beethoven e tantos outros se somam a essa lista das pessoas ‘difíceis’ que encontraram na criação da beleza o caminho para a existência nesse mundo. E o que mais poderia alimentar de paz essas almas libertas de toda limitação física, sedentas de conexões para além de tudo o que o mundo material pudesse ou não lhes oferecer, inquietas, esfomeadas de vôos insondáveis?

Ao criarem belezas, elevaram consigo a humanidade inteira, refinaram nossa capacidade de olhar e sentir o mundo e nos ajudaram a abrir trilhas para perscrutarmos nossa vida interior que não passa pela consciência, pela mente ou por todos os adestramentos a que somos submetidos desde o útero. É no silêncio mais profundo e liberto do ser que reconhecemos, sintonizamos e criamos a beleza.

Em essência todos somos profundamente belos, mesmo que escondidos em algum canto esquecido de nós. Há uma lembrança, uma canção, uma imagem, um lugar, uma pessoa, ou pessoas, que nos fazem sintonizar a beleza em nós e no mundo, uma unidade de beleza manifestada ou latente… é a mesma energia do belo permitindo à vida conceder sublimação, elevação dos sentidos, os cinco sentidos e mais todos os outros que ainda não denominamos.

Na dor também encontramos muita beleza. Aí estão os tantos maravilhosos poetas e músicos a traduzir-nos em nossos momentos mais difíceis. E é aqui que tento terminar voltando ao começo: quando a vida não der, quando não engrenar, quando as imposições, as dores, as lutas e os revezes forem de tal modo imperiosos que não possamos atalhá-los, que tenhamos que enfrentá-los, permitamos a beleza. Tenhamos sempre o belo a nos envolver. Criemos belezas para superar e para superar-nos, sintonizemos belezas no silêncio para permitirmos que elas brotem, como as flores, que são o presente do reino vegetal para a vida.

Como as flores, tudo o que se manifesta neste mundo, se transforma pela morte. Também nossas belezas, ao se transformarem, atuem em nós como “A Pequena Morte” de Eduardo Galeano, no seu belo “O Livro dos Abraços”.

Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte chamam, na França, a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”

 

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(*) – Ghyslaine Cunha (como ela mesmo se apresenta) é mãe de Cecília, eterna estudante das ciências sociais e políticas, vegetariana e esotérica, apaixonada por poesia, crônica e boa música, editora do blog http://amoresmeusvidaminha.zip.net . Também presta assessoria política e em planejamento e gestão a associações e sindicatos de trabalhadores, pequenas empresas, mandatos e outras organizações populares.