Hiroshi Bogéa –  Há alguma coisa de extraordinariamente curiosa acontecendo diante dos nossos olhos. Talvez estejamos vivendo uma das maiores mudanças de comportamento da história da humanidade — e, de tão acostumados à Internet, já nem percebemos o tamanho da revolução.

Basta abrir o celular.

Ali está o mundo inteiro, aparentemente sem necessidade de explicação.

Uma mulher aparece durante trinta segundos, simplesmente requebrando diante da câmera. Milhares, às vezes milhões de pessoas assistem.

Uma senhora (Adriana Salles, veja o vídeo) vive numa pequena cidade da Bahia, dessas com menos de três mil habitantes, e descobre que pode transformar a própria rotina em espetáculo: filma a praça ao meio-dia,  sol a pino,  ruas vazias, E há quem acompanhe aquilo religiosamente.

Outro é pescador. Antes de jogar a rede no mar, pula na água — como se a pescaria tivesse se transformado também em uma produção cinematográfica.

Há o homem que captura cobras cascavéis e garante ter adquirido resistência ao veneno das serpentes.

Há o caçador amazônico que percorre a mata atrás da onça que ameaça seu gado.

E por aí vai.

O que antes seria apenas uma cena da vida cotidiana, destinada a desaparecer junto com o instante em que aconteceu, hoje pode virar conteúdo. E conteúdo, na linguagem do nosso tempo, significa audiência. Audiência significa seguidores. Seguidores podem significar dinheiro.

É aí que a coisa fica ainda mais interessante.

Estamos diante de um novo tipo de trabalhador: o sujeito que transformou a própria existência em produto. Não precisa necessariamente cantar, representar, escrever, ensinar ou dominar alguma técnica extraordinária. Às vezes, basta mostrar aquilo que faz todos os dias.

 

Idade da Pedra audiovisual

A praça vazia. O café da manhã.  A pescaria.  A estrada.  A cobra.  A vaca. A onça. O corpo. A própria casa.  A própria vida.

E milhões de pessoas olham.

É como se a humanidade tivesse passado séculos esperando por esse momento. Parece que estávamos todos vivendo numa espécie de Idade da Pedra audiovisual e, de repente, alguém abriu uma janela gigantesca para o planeta inteiro.

Antes, para mostrar alguma coisa ao mundo, era necessário passar pela televisão, pelo rádio, pelo jornal, pela revista. Havia uma porta de entrada. Havia editores, produtores, repórteres, apresentadores, fotógrafos.

Agora não.

Agora basta um celular.

A mulher que vive numa cidade onde quase nada acontece pode mostrar justamente o quase nada acontecendo. E descobre que, para milhões de pessoas que vivem em cidades barulhentas, congestionadas e apressadas, aquele quase nada pode ser fascinante.

Talvez esteja aí uma das grandes ironias da Internet.

A tecnologia mais veloz já inventada pelo homem descobriu um mercado extraordinário para a lentidão.

Enquanto uma parte do planeta corre, outra parte assiste a alguém sentado na calçada de uma cidadezinha onde o relógio parece ter desistido de correr.

É curioso também observar que muitos desses personagens, depois que descobriram a monetização, passaram a viver melhor.

A Internet não apenas lhes deu visibilidade. Em alguns casos, deu-lhes independência financeira.

 

No vídeo acima, Adriana Salles mostra  a cidade pacata de Itaju do Colônia, na Bahia. Ela tem mais de 550 mil seguidores

 

A cobra transformada em personagem

Um homem que jamais imaginaria ser conhecido fora de sua comunidade pode hoje ter seguidores em dezenas de países.

Uma mulher que jamais teria acesso a um programa de televisão pode alcançar uma audiência maior do que a de muitas emissoras.

O pescador que antes pescava apenas para sobreviver pode agora pescar também para contar a própria história.

O caçador de cobras transforma a cobra em personagem.

O homem da Amazônia transforma a floresta em cenário.

A moça que dança transforma trinta segundos do próprio dia em negócio.

E nós, do outro lado da tela, transformamos todos eles em audiência.

Talvez seja essa a verdadeira novidade do chamado Admirável Mundo Novo: ninguém mais precisa esperar que o mundo venha até ele.

Cada pessoa pode construir seu próprio pequeno mundo e convidar os outros para entrar.

E nós entramos.

Entramos na casa de desconhecidos, acompanhamos suas refeições, suas viagens, seus animais, suas brigas, seus trabalhos, suas pescarias, suas cidades e até seus momentos de absoluto silêncio.

A Internet democratizou o espetáculo.

Mas também democratizou a plateia.

Hoje, qualquer pessoa pode ser protagonista. E qualquer pessoa pode ser espectadora.

O mais espantoso é que não sabemos exatamente o que estamos procurando.

Talvez estejamos cansados das grandes narrativas. Talvez depois de tantas guerras, crises, discursos políticos, tragédias e escândalos, tenhamos desenvolvido uma espécie de desejo coletivo pelo banal.

 

Verdadeiro Admirável Mundo Novo

Queremos ver uma rua vazia.

Uma rede sendo lançada ao mar.

Uma cobra atravessando o caminho.

Uma praça sem ninguém.

Uma pessoa pedalando.

Um homem contando a história de sua cidade.

Talvez porque, no fundo, ainda exista dentro de nós uma necessidade de simplicidade.

A Internet nos prometeu o mundo inteiro.

E nos entregou, curiosamente, milhões de pequenas vidas.

Cada uma delas dizendo: olhe para mim.

E nós olhamos.

Olhamos tanto que, talvez sem perceber, transformamos a vida cotidiana em uma gigantesca televisão aberta, funcionando 24 horas por dia, sem intervalo comercial — embora, paradoxalmente, quase tudo ali possa ser convertido em dinheiro.

Esse é o verdadeiro Admirável Mundo Novo, mas nada parecido com aquilo que está no livro escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932 –  retratando uma sociedade futura controlada pela ciência, pelo consumo e pelo condicionamento psicológico em massa..

Um mundo em que o extraordinário pode estar no simples, o anonimato pode valer milhões de seguidores e uma praça vazia, ao meio-dia, pode conquistar uma audiência que muitos programas de televisão jamais conseguiram.

A pergunta talvez já não seja mais quem está produzindo conteúdo.

A pergunta é outra:  o que, afinal, estamos fazendo com os nossos olhos?

Porque nunca tivemos tanta coisa para ver.

E talvez nunca tenhamos visto tão pouco do mundo que está acontecendo diante de nós. ( Foto: Google / Reprodução)