A invisível dor.

Publicado em 13 de agosto de 2012

 

 

Rosa desfolhada.

 

Quando a rosa, tão rosa, rosada e viçosa

Desabrochou em gomos atraentes e perfumados

A mão impiedosa a desejou…

Colheu, desfolhou-a, amassou sua cor

Retirou seu perfume…

Satisfeito seus desejos de macho predador

A jogou aos pés de todos os passantes.

 

A nossa Rosa do texto, vive atualmente de forma precária, com quatro filhos em uma casinha nada engraçada, sem estrutura e sem o brilho da outrora rosa atraente que um dia foi.

Conheci a querida Rosa há quase doze anos, mulher nova, muito sorridente e meiga. Chegava perto e declarava:

– Evilângela, eu quero estudar, me ajuda aí, vai…

A ajuda que ela pedia, na verdade, era um apelo para ser encorajada a sobreviver no meio de uma sociedade, que não reconhece mulheres que se enveredam pelo mundo invisível da prostituição.

Não sei se a ajudei o suficiente, foram tantas desistências, retomadas, conversas, acordos… mas o fato foi que a Rosa concluiu o Ensino Fundamental, e parou, novamente, já no terceiro ano do Ensino Médio, desanimou, me confessou.

Rosa sempre desanimava na metade do caminho, os professores por conhecê-la, muitas vezes foram à sua casa com a finalidade de trazê-la de volta, e foi assim, ela desanimava e nós a animávamos, empurrando-a para concluir o que havia começado.

Ouvia as histórias da vida da Rosa pela boca de mulheres ressentidas com o comportamento leviano dela. Um dia a tia, moradora da comunidade, me desafiou:

– Nós precisamos ajudar a Rosa, você conhece a história dela? Sabe o que faziam com ela?

Não, na época eu não conhecia nada da vida da Rosa, só sabia que não parava na sala de aula e tinha um filho que enlouquecia os professores.

Assim, passei a saber detalhes da secreta vida da menina Rosa. Aos treze anos veio da roça com os pais e mais um montão de irmãos, menina bonita, de corpo desabrochando, fogosa, chamou a atenção de fazendeiros ricos. Contrataram- na para fazer pequenos serviços em suas residências, nos finais de semanas a levavam para passeios de rio. Nestes passeios as situações mais inimagináveis aconteciam, a pequena Rosa se sujeitava, muitas vezes embriagada pelas misturas alcoólicas que lhe ofereciam.

O silêncio reinava doloroso, seus pais eram constantemente agraciados com alimentação e pequenos favores, que nada valiam diante da exploração sofrida pela filha.

Os anos se passaram, a Rosa, amadurecida à força, foi trocada por outras Rosas que desabrochavam. Quando se viu sem sustento e grávida de um filho que não conseguia identificar quem era o pai, de tão abusada por tantos homens que foi, passou a fazer pequenos programas à beira da estrada.

Minha informante não continha a revolta ao relembrar as situações humilhantes vividas por Rosa. Completou seu relato desabafando: As filhas destes fazendeiros, hoje tem caso com os próprios amigos deles, na cara deles. E aí o que irão fazer se descobrirem?

Com certeza coisas terríveis aconteceriam, se descobrissem que suas protegidas filhinhas também são abusadas por amigos que frequentam suas casas.

A história de Rosa é mais comum que se imagina, porém pouco ou quase nada é feito para punir homens pedófilos da “sociedade”, as meninas no ato da convivência com seus algozes não se veem como exploradas, pois romanceiam a situação. Sentem-se importantes, por receberem pequenos presentes (celulares, roupas, dinheiro para o salão e academia), os pais são persuadidos que a filha agora terá um bom futuro, pois um protetor se levantou.

No perfil destes pedófilos se encaixam homens públicos, casados, que sustentam uma imagem de integridade e pureza. Aproximam-se destas meninas com belas palavras, atitudes apaixonadas, conhecem bem o papo que rola no mundo das adolescentes, são conectados em salas de bate papo, facebook e outras redes sociais.

            Joarez Oliveira Nascimento, conselheiro tutelar, fiel companheiro de luta, sempre presente em nossa escola, nos auxiliando na resolução de casos como os de Rosa, traz  a triste estatística de apenas 15 denúncias de exploração sexual de meninas e meninos durante todo o ano de 2011. Número irrisório diante da monstruosidade que ocorre em nossa cidade e região. As famílias não denunciam, as meninas são iludidas e o poder do dinheiro reina.

Rosa possui uma dor invisível, tornou-se invisível para a sociedade. Gilberto Dimenstein, conceituado jornalista da Folha de São Paulo, ganhador de vários prêmios por seu trabalho voltado para os “invisíveis” da sociedade, me fez reverdecer a esperança ao ler seu contundente livro  “O mistério das bolas de gude” (2010):

“Além de agredirem ou se agredirem para, de algum jeito, gritar “eu existo”, os quase invisíveis às vezes se materializam despertados por um detalhe – uma música, um professor, um quadro, um livro, uma dança, uma poesia, uma fotografia-, estabelecendo uma relação de pertencimento com o mundo. Testemunhei como esse encantamento se disseminava, em igual intensidade, e às vezes com intensidade maior, em quem, de algum jeito, ajudava-os a se descobrir. Para algumas pessoas, compartilhar é um prazer supremo. Não são movidas nem por heroísmo nem por altruísmo, mas pelo prazer da criação humana (…). Como ocorre em toda criação, combinam-se dor, sacrifício e beleza.” p. 09.

Dimenstein observa movimentos urbanos que tornam os invisíveis vivíveis, percebidos, valorizados. As escolas terminam por ser centros pertinentes   destes movimentos, pois são nelas que as situações de exploração e sofrimento são muitas  vezes descobertas, e atitudes são tomadas. Uma diretora amiga,  me confidenciou ter enfrentado um sério problema com um ”figurão”, uma de suas alunas estava envolvida com o senhor, como a menina desabafou todo seu amor pelo homem, a diretora passou a ser alvo de pressões para se manter calada. Não se intimidou e deu o seguinte recado ao “homem da sociedade”:

– Não estou preocupada com sua reputação, não ouvirá falar de mim, não me importo com sua vida. Mas me preocupo com está menina, ELA ouvirá falar de mim e me importo com o que acontecer com a vida dela.

Logo a menina, sem explicações, mudou de escola e de bairro. Minha amiga se sentiu derrotada. Lendo o livro de Dimesntein resolvi incentivá-la a prosseguir auxiliando outras meninas, outras Rosas invisíveis, porque, segundo o nobre jornalista, “a resistência se processa quase que clandestinamente, o esforço de retomada resulta, na maioria das vezes, da ação de cidadãos comuns, anônimos, em escolas, favelas, delegacias, centros de saúde, associações de bairro e de rua, organizações não governamentais.”

Rosa casou-se, o marido, um homem que a ama sem se importar com o passado, tem sido compreensivo com as crises existências que assola a alma da esposa, feridas não tratadas, provindas de inúmeras situações humilhantes que vivenciou.

Sempre me sinto em dívida com a Rosa, a dor invisível que a atormenta atingiu minha consciência de mulher. Pensá-la como uma menininha frágil, desprotegida, submetendo-se a todos os tipos de violência sexual, me angustia, perco a paz e passo a rever meus conceitos e valores.

Ao escrever este texto desejei, ardentemente, torna Rosa visível, para a sociedade, para os homens que a exploraram e para ela mesma…

 

(*) Evilângela Lima Alcântara. . Educadora, Diretora da Escola de Ensino Fundamental São José