Hiroshi Bogéa On line

A invisível dor.

 

 

Rosa desfolhada.

 

Quando a rosa, tão rosa, rosada e viçosa

Desabrochou em gomos atraentes e perfumados

A mão impiedosa a desejou…

Colheu, desfolhou-a, amassou sua cor

Retirou seu perfume…

Satisfeito seus desejos de macho predador

A jogou aos pés de todos os passantes.

 

A nossa Rosa do texto, vive atualmente de forma precária, com quatro filhos em uma casinha nada engraçada, sem estrutura e sem o brilho da outrora rosa atraente que um dia foi.

Conheci a querida Rosa há quase doze anos, mulher nova, muito sorridente e meiga. Chegava perto e declarava:

– Evilângela, eu quero estudar, me ajuda aí, vai…

A ajuda que ela pedia, na verdade, era um apelo para ser encorajada a sobreviver no meio de uma sociedade, que não reconhece mulheres que se enveredam pelo mundo invisível da prostituição.

Não sei se a ajudei o suficiente, foram tantas desistências, retomadas, conversas, acordos… mas o fato foi que a Rosa concluiu o Ensino Fundamental, e parou, novamente, já no terceiro ano do Ensino Médio, desanimou, me confessou.

Rosa sempre desanimava na metade do caminho, os professores por conhecê-la, muitas vezes foram à sua casa com a finalidade de trazê-la de volta, e foi assim, ela desanimava e nós a animávamos, empurrando-a para concluir o que havia começado.

Ouvia as histórias da vida da Rosa pela boca de mulheres ressentidas com o comportamento leviano dela. Um dia a tia, moradora da comunidade, me desafiou:

– Nós precisamos ajudar a Rosa, você conhece a história dela? Sabe o que faziam com ela?

Não, na época eu não conhecia nada da vida da Rosa, só sabia que não parava na sala de aula e tinha um filho que enlouquecia os professores.

Assim, passei a saber detalhes da secreta vida da menina Rosa. Aos treze anos veio da roça com os pais e mais um montão de irmãos, menina bonita, de corpo desabrochando, fogosa, chamou a atenção de fazendeiros ricos. Contrataram- na para fazer pequenos serviços em suas residências, nos finais de semanas a levavam para passeios de rio. Nestes passeios as situações mais inimagináveis aconteciam, a pequena Rosa se sujeitava, muitas vezes embriagada pelas misturas alcoólicas que lhe ofereciam.

O silêncio reinava doloroso, seus pais eram constantemente agraciados com alimentação e pequenos favores, que nada valiam diante da exploração sofrida pela filha.

Os anos se passaram, a Rosa, amadurecida à força, foi trocada por outras Rosas que desabrochavam. Quando se viu sem sustento e grávida de um filho que não conseguia identificar quem era o pai, de tão abusada por tantos homens que foi, passou a fazer pequenos programas à beira da estrada.

Minha informante não continha a revolta ao relembrar as situações humilhantes vividas por Rosa. Completou seu relato desabafando: As filhas destes fazendeiros, hoje tem caso com os próprios amigos deles, na cara deles. E aí o que irão fazer se descobrirem?

Com certeza coisas terríveis aconteceriam, se descobrissem que suas protegidas filhinhas também são abusadas por amigos que frequentam suas casas.

A história de Rosa é mais comum que se imagina, porém pouco ou quase nada é feito para punir homens pedófilos da “sociedade”, as meninas no ato da convivência com seus algozes não se veem como exploradas, pois romanceiam a situação. Sentem-se importantes, por receberem pequenos presentes (celulares, roupas, dinheiro para o salão e academia), os pais são persuadidos que a filha agora terá um bom futuro, pois um protetor se levantou.

No perfil destes pedófilos se encaixam homens públicos, casados, que sustentam uma imagem de integridade e pureza. Aproximam-se destas meninas com belas palavras, atitudes apaixonadas, conhecem bem o papo que rola no mundo das adolescentes, são conectados em salas de bate papo, facebook e outras redes sociais.

            Joarez Oliveira Nascimento, conselheiro tutelar, fiel companheiro de luta, sempre presente em nossa escola, nos auxiliando na resolução de casos como os de Rosa, traz  a triste estatística de apenas 15 denúncias de exploração sexual de meninas e meninos durante todo o ano de 2011. Número irrisório diante da monstruosidade que ocorre em nossa cidade e região. As famílias não denunciam, as meninas são iludidas e o poder do dinheiro reina.

Rosa possui uma dor invisível, tornou-se invisível para a sociedade. Gilberto Dimenstein, conceituado jornalista da Folha de São Paulo, ganhador de vários prêmios por seu trabalho voltado para os “invisíveis” da sociedade, me fez reverdecer a esperança ao ler seu contundente livro  “O mistério das bolas de gude” (2010):

“Além de agredirem ou se agredirem para, de algum jeito, gritar “eu existo”, os quase invisíveis às vezes se materializam despertados por um detalhe – uma música, um professor, um quadro, um livro, uma dança, uma poesia, uma fotografia-, estabelecendo uma relação de pertencimento com o mundo. Testemunhei como esse encantamento se disseminava, em igual intensidade, e às vezes com intensidade maior, em quem, de algum jeito, ajudava-os a se descobrir. Para algumas pessoas, compartilhar é um prazer supremo. Não são movidas nem por heroísmo nem por altruísmo, mas pelo prazer da criação humana (…). Como ocorre em toda criação, combinam-se dor, sacrifício e beleza.” p. 09.

Dimenstein observa movimentos urbanos que tornam os invisíveis vivíveis, percebidos, valorizados. As escolas terminam por ser centros pertinentes   destes movimentos, pois são nelas que as situações de exploração e sofrimento são muitas  vezes descobertas, e atitudes são tomadas. Uma diretora amiga,  me confidenciou ter enfrentado um sério problema com um ”figurão”, uma de suas alunas estava envolvida com o senhor, como a menina desabafou todo seu amor pelo homem, a diretora passou a ser alvo de pressões para se manter calada. Não se intimidou e deu o seguinte recado ao “homem da sociedade”:

– Não estou preocupada com sua reputação, não ouvirá falar de mim, não me importo com sua vida. Mas me preocupo com está menina, ELA ouvirá falar de mim e me importo com o que acontecer com a vida dela.

Logo a menina, sem explicações, mudou de escola e de bairro. Minha amiga se sentiu derrotada. Lendo o livro de Dimesntein resolvi incentivá-la a prosseguir auxiliando outras meninas, outras Rosas invisíveis, porque, segundo o nobre jornalista, “a resistência se processa quase que clandestinamente, o esforço de retomada resulta, na maioria das vezes, da ação de cidadãos comuns, anônimos, em escolas, favelas, delegacias, centros de saúde, associações de bairro e de rua, organizações não governamentais.”

Rosa casou-se, o marido, um homem que a ama sem se importar com o passado, tem sido compreensivo com as crises existências que assola a alma da esposa, feridas não tratadas, provindas de inúmeras situações humilhantes que vivenciou.

Sempre me sinto em dívida com a Rosa, a dor invisível que a atormenta atingiu minha consciência de mulher. Pensá-la como uma menininha frágil, desprotegida, submetendo-se a todos os tipos de violência sexual, me angustia, perco a paz e passo a rever meus conceitos e valores.

Ao escrever este texto desejei, ardentemente, torna Rosa visível, para a sociedade, para os homens que a exploraram e para ela mesma…

 

(*) Evilângela Lima Alcântara. . Educadora, Diretora da Escola de Ensino Fundamental São José

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16 Comentários

  1. Esperença

    16 de janeiro de 2013 - 22:09 - 22:09
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    Minha filha, o que estão fazendo com você?
    Anos de dedicação não podem ser jogados no lixo, a construção de um novo conceito de educação não deve ser desprezado.
    Podem te tirar, mas seu trabalho irá permanecer, falando pra toda essa gente que você não será esquecida.
    Te amamos, linda!

  2. Samurai

    16 de janeiro de 2013 - 12:38 - 12:38
    Reply

    Querida Evilangela;
    Conheço seus passos, nada, nada mesmo, deve ser maior que seu carater. Não se preocupe com as lutas, perseguições, desilusões, irão passar.
    Sempre haverá pessoas que estarão do seu lado.
    Continue sonhando, menina, onde estiver, em qualquer lugar.
    Abraço apertado.

  3. Vitória Kênia

    6 de novembro de 2012 - 15:06 - 15:06
    Reply

    Lindo texto! Palavras e mensagens fortes, verdadeiras ! Dignas de uma educadora humana e de luta.

  4. Elton

    24 de agosto de 2012 - 15:14 - 15:14
    Reply

    Parabéns, que texto maravilhoso…

  5. M. B. NETA

    21 de agosto de 2012 - 12:00 - 12:00
    Reply

    Minha amiga, mais uma vez conseguiu aguçar-me a vontade de fazer um comentário. Como nos conhecemos bem, fiquei visualizando na imaginação a sua angústia em relação a esse texto no caso da Rosa. A procura de uma forma mais sutil e carinhosa para abordá-la e poder com certeza ajudá-la. acredito fielmente que conseguiu de alguma forma o seu objetivo.
    No mesmo momento, lembrei-me a avalanche de surpresas e ienterpretações,quando uma celebridade do mundo de apresentadores se manisfestou e fez o seu relato em favor de um projeto que venha proteger e auxiliar pessoas que tenham enfrentado ou enfrentam situações parecidas.
    Sabes que sou sua admiradora principalmente na forma que escreve.Acredito muito em anjos da guardas. E me pergunto: Serás o anjo da guarda de muitos que aqui estão? Tomara que sim. E digo mais, tomara que seja o meu também. Bjs amiga,

  6. Evilangela

    19 de agosto de 2012 - 19:48 - 19:48
    Reply

    Algumas palavras desmancham a alma da gente! Desarrumam o coração. Pra depois dar novos contornos pro nosso olhar, pro nosso jeito de pensar o mundo!
    Suas palavras, Francisco Pacheco, fazem isso comigo: desarrumam e arrumam de outro jeito! Coisa boa, porque forma novos pensamentos, novas ideias, novos sentimentos!
    Ler o que escreve, faz com que me sinta acompanhada, não sozinha, compreendida, entendida. Me força a prosseguir, mesmo sem saber direito qual próximo passo dar.
    Você tem razão, não sou eu a se mostrar, há um Deus que toma o lugar, nem sei como as ideias e o fazer surgem, simplesmente me deixou ser usada. Não possuo nada, euzinha é vazia de essência!
    Belas, fortes e reveladoras palavras! Me senti acolhida, abraçada, protegida!
    Muito obrigada, meu bom amigo.

  7. Francisco Sampaio Pacheco

    17 de agosto de 2012 - 15:20 - 15:20
    Reply

    Evilângila,

    Desconfio que quando estavas no ventre preste a dizer sim ao mundo, algum aceno tu viste como se fosse um aviso te preparando para uma missão na terra. Trás consigo uma alma abençoada, uma alma de mulher guerreira para lidar com os abutres terráqueos.
    Tua força vem sim de alguém muito especial, alguém que lá em cima gosta de você! Se perderes o emprego, ganharás outro mundo longe dos tiranos sem abdicar a luta, se perderes o emprego, eles ganharão a revolta de tantos que estão ao teu lado! Mas eles não são tão loucos assim, pois sabem que no fundo você é muito especial, admirada por um mundão de gente! Meu testemunho é este cantinho do blog que vai direto se alojando mansamente nem que seja no cantinho do coração dos internautas! Esse jeito simples de um ser humano um tanto raro. Essa dor, essas gotas de lágrimas invade, que inundam os teus olhos, essa preocupação que tens para com os teus irmãos. Eles não sabem o que é isso! São estáticos em sentimento.
    Teu trabalho, tua vontade de poder mudar toda uma situação faz com que sejas mais admirada.
    A Rosa com 13 anos, um olhar inocente presente em seus olhos, e que ainda não era flor e sim um botão de rosa, depois desabrochou e com seu encanto despertou o voraz predador. Há tantas rosas sendo pisoteadas nessa estrada da vida.
    A Rosa que brotou no teu jardim, jamais perecerá, pois foi regada com tudo que há de mais bonito em você o “AMOR.” Além dessa imaginação fértil proporcionada por DEUS.
    Teu caminho é longo e bonito, siga em frente deixando rastros fazendo essa história marcante, Evilângela.
    “Sinta a força daqueles(as) que te admiram que não são poucos”
    Carinhosamente,

  8. Evilângela

    15 de agosto de 2012 - 20:03 - 20:03
    Reply

    Andréa:
    Estou aprendendo a caminhar por terreno tão espinhoso. Mas é necessário caminhar, falar, ouvir, consolar… Os horrores que essas meninas passam devem apavorar toda sociedade. Vamos continuar com o PVJ, pois tem se mostrado eficaz.
    Obrigada Andréa.
    Beijos.

  9. Evilângela

    15 de agosto de 2012 - 19:52 - 19:52
    Reply

    Maria do Carmo;
    Que Deus nos abençoe nessa luta! Sempre encontraremos Rosas assim em nossos caminhos, e como é triste vê-las carregando lembranças que as atormetam.
    Devemos nos achegar a elas, oferecendo nosso colo, nossos ouvidos, nosso amparo, nossa compreensão. Na maioria das vezes é apenas isso que esperam de nós: aproximação sem reservas!
    Obrigada, amiga!

  10. Evilângela

    15 de agosto de 2012 - 19:44 - 19:44
    Reply

    Joab;
    Meu amigo de sorrisos!!! Valeu, muito obrigada!

  11. Evilângela

    15 de agosto de 2012 - 19:38 - 19:38
    Reply

    Denise;
    Muito obrigada!
    A revolta é natural diante de Rosas doloridas. É preciso falar, falar e falar, mesmo que pareça não estarem nos ouvindo, não podemos é sentar e deixar o triste espetáculo dos homens da sociedade prosseguir.

    Forte abraço.

  12. maria do carmo

    15 de agosto de 2012 - 00:15 - 0:15
    Reply

    Parabéns pelo seu texto… de forma poética conseguiste nos incomodar com uma realidade tão deprimente, e infelizmente tão constante… apesar do
    ECA. Quando vivemos outros contextos, nos “esquecemos das rosas”, às vezes nem as percebemos, portanto, não fazemos nada para mudar essa triste realidade. Parabéns, e continue fazendo a diferença. DEUS te abençoe!

  13. Andréa Righi

    14 de agosto de 2012 - 10:08 - 10:08
    Reply

    Texto muito bem escrito por Evilangela. Com simplicidade e poesia, ela consegue realmente nos sensibilizar para a importância de cuidar dos nossos jardins onde tantas rosas nascem e, ainda como botões, são cortadas sem tempo de florecerem. Uma sociedade que maltrata suas crianças e jovens é uma sociedade doente. E como todos nós somos parte dessa sociedade, urge buscarmos tratamento. Parabéns Evilangela, pela coragem de evidenciar fatos como esse, parabéns por seu humanismo, por sua solidariedade e por sua competência como profissional da educação. Um grande abraço, Andréa

  14. joab baiao

    14 de agosto de 2012 - 10:07 - 10:07
    Reply

    Quando a rosa, tão rosa, rosada e viçosa…
    são grande rosas lindas rosas …
    parabéns amiga por nos surpreender a cada texto e a casa atitude …
    grande abraço

  15. Denise

    14 de agosto de 2012 - 09:02 - 9:02
    Reply

    Evilângela cada vez que leio um de seus textos, fico mais admirada de sua pessoa, de seu caráter e talento. Fiquei transtornada de saber da Rosa e tantas outras Rosas que vivem sem justiça e enganada por esses homens sem escrúpulos: os famigerados homens da sociedade(nem todos). Sociedade essa que está cega ou compactua com esse barbárie que se chama violência sexual, violência contra mulher , violência contra a dignidade, violência contra crianças. Mas temos um Juiz Justo, que um dia julgará a todos com justiça. E essa justiça não é cega!

  16. Denise

    14 de agosto de 2012 - 08:59 - 8:59
    Reply

    Evilângela cada vez que leio um de seus textos, fico mais admirada de sua pessoa, de seu caráter e talento. Fiquei transtornada de saber da Rosa e tantas outras Rosas que vivem sem justiça e enganada por esses homens sem escrúpulos: os famigerados homens da sociedade. Sociedade essa que está cega ou compactua com esse barbárie que se chama violência sexual, violência contra mulher , violência contra a dignidade, violência contra crianças. Mas temos um Juiz Justo, que um dia julgará a todos com justiça. E essa justiça não é cega!

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