Hiroshi Bogéa On line

A casa do Oscar

Chico Buarque, seu sonho de juventude, era ser arquiteto.

Como quase todo estudante de arquitetura da época, os traços de Oscar Niemayer em cada canto de Brasília, recém construída, inspiravam a todos.

A descrição do próprio sonho é um dos textos mais belos escrito por Chico.

Um presente pra vocês, nesta manhã de quinta-feira, 7, que o poster resgatou em seus arquivos:

A casa do Oscar era o sonho da família. Havia um terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar.

Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.

Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e saí batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for à casa do Oscar!

Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguases, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquele casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo.

Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe.

Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.

Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim.

Quando minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim.

Música do Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar.

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7 Comentários

  1. Jr. do teclado

    7 de maio de 2009 - 21:39 - 21:39
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    É, a alma de um artista com tanta sensibilidade parece entranhar-se em nossas vísceras. Chico é o supra-sumo do egoísmo, pois ficou com quase tudo que Deus quis pulverizar na terra, no tocante a genialidade. Ele é unico!!!

  2. Hiroshi Bogéa

    7 de maio de 2009 - 17:04 - 17:04
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    Também gostei, Cláudia. Sempre amei esse texto. Originalmente, saiu numa publicação com depoimentos de personalidades sobre Niemayer – “A vida é um sopro”. Lá estão José Saramago, Eduardo Galeano (escritor uruguaio), Ferreira Gullar, Eric Hobsbawn (historiador inglês), Ítalo Campofiorito (arquiteo), e, claro, o Chico.

  3. Hiroshi Bogéa

    7 de maio de 2009 - 17:03 - 17:03
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    Grande Chico, Samar.

  4. Hiroshi Bogéa

    7 de maio de 2009 - 17:02 - 17:02
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    Maneiro demais, né Alcilene?!! Também, sem que o leio, vibro.

  5. Claudia

    7 de maio de 2009 - 16:15 - 16:15
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    Adorei. Por ser arquiteta, por amar o Chico, pelo conjunto, por tudo!
    Copiei e linquei no meu blog (www.marcosdotempo.blogspot.com). Se vc puder me dar a fonte do texto, agradeço.

  6. Samar

    7 de maio de 2009 - 15:48 - 15:48
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    Gênio. Consegue transformar até a descrição da coisa mais simples em bela poesia. Grande Chico.

  7. Alcilene Cavalcante

    7 de maio de 2009 - 14:10 - 14:10
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    Lindo! Lindo! Lindo!

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