Hiroshi Bogéa – A discussão sobre a redução da jornada de trabalho para o modelo 4×3 (ou o fim da escala 6×1) trouxe à tona uma estratégia política que, sob o manto do “equilíbrio econômico”, esconde uma transferência perversa de responsabilidade: a tentativa da oposição de condicionar esse direito humano à desoneração da folha de pagamento.
O debate sobre o fim da escala 6×1 não é apenas uma discussão trabalhista; é um debate sobre saúde pública, convivência familiar e o direito básico ao descanso em um século marcado pelo esgotamento mental. No entanto, a reação de setores da oposição e de representantes da elite econômica revela uma face cruel: a ideia de que o trabalhador só pode ter um sopro de liberdade se o Estado — e, por extensão, a sociedade — pagar a conta para o empresariado.
Sugerir que a redução da jornada de trabalho deve vir acompanhada de mais desonerações é, na prática, uma chantagem institucional. O argumento é de que o empresário “perderia produtividade” ou teria “custos elevados”. Contudo, o que se omite é que a produtividade brasileira aumentou nas últimas décadas sem que isso se traduzisse em redução de horas trabalhadas ou em ganhos reais de qualidade de vida para quem está no chão de fábrica ou no balcão do varejo.
A desoneração não garante empregos, ao contrário. Experiências passadas no Brasil mostram que desonerar setores raramente se traduz em contratações em massa ou melhores salários; muitas vezes, apenas infla a margem de lucro e os dividendos de acionistas.
O atual modelo da escala 6×1 gera gastos astronômicos ao SUS com doenças ocupacionais e burnout, que vem a ser estado de exaustão física e mental extrema resultante de estresse crônico no trabalho O empresariado que exige compensação financeira é o mesmo que hoje externaliza os custos da saúde de seus funcionários exaustos para o Estado.
Ao desonerar a folha, o governo renuncia a impostos que financiam a Previdência e serviços públicos. Ou seja, retira-se dinheiro do bem comum para garantir que o lucro do patrão não sofra qualquer oscilação.
Classificar essa manobra como um “crime contra o país” não é exagero retórico. É uma agressão à tentativa de modernizar as relações de trabalho no Brasil.
Enquanto o mundo desenvolvido testa semanas de quatro dias com ganhos comprovados de eficiência, a oposição brasileira tenta transformar um direito fundamental em uma mercadoria de troca.
Favorecer empresários gananciosos em detrimento da saúde do trabalhador é perpetuar uma lógica colonial de exploração máxima da mão de obra. A escala 6×1 é uma herança de um tempo que já não cabe mais na realidade humana. Condicionar o seu fim a privilégios fiscais é assinar o atestado de que, para alguns, o lucro ainda vale mais do que a vida.
A jornada de trabalho precisa mudar por uma questão de humanidade, não de contabilidade.
O Brasil não pode mais aceitar que avanços sociais sejam vendidos no balcão de negócios de Brasília. É hora de decidir se somos uma nação que protege sua gente ou um grande empreendimento que sacrifica vidas para manter planilhas de lucro intocáveis. (Foto: Reprodução)



