Hiroshi Bogéa On line

“A esperança é que essa ira santa não seja seletiva”

 


A revolução gourmet

          (*)  Glauco Lima

Quando leio sobre esses episódios em que pessoas em restaurantes bacanas de classe média hostilizam outras que são do partido que lidera a coligação de governo do Brasil, ou ainda atacam pessoas do governo ou mesmo aquelas que declararam sua simpatia pelo grupo que governa o país desde 2002, tento me colocar na cabeça dessas pessoas agressoras e entender o motor que movimenta essa ação.

Vamos fazer esse exercício de entendimento: a pessoa está ali, com a família ou os amigos, num momento relax, comendo e bebendo num lugar confortável e, de repente vê um monstro, um bandido, um inimigo da ordem social e do progresso. Vamos lembrar que essa pessoa não nasceu em 2002, a maioria já tem mais de 30, 40, ou 50 anos. Já viu e viveu muita coisa nesse país. Talvez não tenha visto tanto, porque até o começo deste século 21 o denuncismo desvairado das mazelas não era tão intenso nas grandes mídias.

Bem, mas a pessoa nota a presença deste bandido vermelho e, num ato de coragem cívica e profundo destemor, larga seu prato e seu copo e vai pra cima do impuro para falar mal, denunciá-lo e quem sabe, até esbofeteá-lo. Alguém pouco iniciado nas coisas do Brasil, ao ver uma cena dessas diria: – que lindo! A classe média brasileira é patriótica, se levanta contra os saqueadores, a corrupção, a desigualdade e enfrenta os inimigos da nação mesmo quando está se divertindo num restaurante consagrado, que gente magnífica!

Remetendo-se ao pensamento do agressor, fico imaginando a sensação deste ao voltar para a mesa, depois de ter jogado umas verdades na cara do petralha patife. Deve ser sensação comparada ao orgasmo obtido num motel com super banheira de hidromassagem: – foi maravilhoso!

A esperança que fica é que essa ira santa não seja seletiva, nem eleitoral. Esperemos que a classe média, branca e francesamente perfumada, tenha aprendido a levantar, se rebelar contra as grandes injustiças do Brasil e do mundo e agora passe a largar o sashimi ou o filé flambado e brade em alto e bom som denunciatório quando um banqueiro acusado de enriquecimento ilegal adentrar no restaurante. Ou não se conter e gritar “assassino!!” quando um mega empresário da agropecuária, acusado de devastar sem licença grandes áreas florestais, entrar no bistrô acompanhado de sua linda família.

Espera-se que, depois de atacar esse delinquente de alta periculosidade chamado Chico Buarque de Holanda, a nossa classe média alta, forte e saudável, grite ao ver através da vidraça do restaurante caro uns moleques negros comendo sobras na lata do lixo e protestem contra o fato de o país nunca ter feito políticas públicas consistentes para integrar milhões de serem humanos negros que foram escravizados por mais de 350 anos, num pais que foi descoberto a pouco mais de 500 anos.

Será lindo ver jovens empresários, bronzeados e de corpos bem definidos, em caras academias de ginástica, confrontando os que misturam de forma pouco cristã a religião com as eleições, repreendendo os herdeiros de fortunas construídas de maneiras não declaradas, degladiando contra médicos milionários que não emitem nota fiscal, ou mesmo mostrando-se indignados contra especuladores do mercado financeiro que quebram micro e pequenos industriais.

É o começo do novo Brasil, a semente da revolução contra as desigualdades regionais, econômicas e sociais. Vamos começar a desmontar a concentração de renda e de patrimônios.

Quem sabe, no futuro, os historiadores vão se referir a esse movimento como a Revolução Gourmet, numa referência aos episódios ocorridos em restaurantes, como o ataque a Chico Buarque de Holanda num badalado sushi do Leblon, na zona sul cidade do Rio de Janeiro, numa noite de verão do terceiro milênio.

 

     – Glauco Lima, é publicitário, escrevendo para o blog Ponto Crítico

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