Hiroshi Bogéa – Quando a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) celebra seus 13 anos de existência, uma das instituições mais importantes para o desenvolvimento educacional, científico e econômico da região, é oportuno resgatar episódios pouco conhecidos que ocorreram nos bastidores de sua implantação e que foram decisivos para garantir a construção do campus universitário no bairro Cidade Jardim, em Marabá.
A história da criação da universidade é marcada por mobilizações políticas, articulações institucionais, esforços empresariais e decisões que, à época, ocorreram longe dos holofotes.
Muitos dos personagens que participaram desse processo jamais tiveram seus nomes associados publicamente a essa conquista coletiva, embora tenham desempenhado papéis fundamentais para evitar que um projeto estratégico para o futuro da região fosse comprometido.
O impasse na área destinada à Cidade Universitária
Ainda durante o governo da ex-governadora Ana Júlia Carepa, que administrou o Pará entre 2007 e 2010, avançavam as discussões para a implantação da futura universidade federal que atenderia o Sul e Sudeste do Estado.
Naquele período, a área onde hoje se localiza o campus da Unifesspa integrava o projeto do Loteamento Cidade Jardim, empreendimento conduzido pelo empresário Leonildo Rocha, conhecido popularmente como “Léo da Leolar”, proprietário do Grupo Leolar e sócio da empresa Buriti Empreendimentos.
Antes do surgimento dos problemas que viriam a seguir, Leonildo havia assumido o compromisso de doar a área destinada à futura Cidade Universitária. O gesto representava um passo decisivo para que o Governo Federal pudesse liberar os recursos necessários para o início das obras.
Entretanto, o processo enfrentaria uma inesperada dificuldade.
Parte da área do empreendimento imobiliário foi ocupada por movimentos sociais que reivindicavam moradia. Com a ocupação, o grupo empresarial ficou impossibilitado de dar continuidade ao cronograma do loteamento, que previa abertura de vias, infraestrutura urbana e comercialização dos lotes.
Mais do que um problema fundiário, a situação passou a representar uma ameaça concreta ao futuro da universidade.
A documentação da área destinada à doação precisava ser regularizada para atender às exigências burocráticas do Ministério da Educação. Sem essa formalização, os recursos previstos para a construção dos prédios não poderiam ser liberados.
Segundo informações discutidas à época, havia preocupação de que os investimentos federais destinados ao novo campus fossem redirecionados para outra instituição caso o impasse persistisse por muito tempo.

A mobilização em defesa da universidade
Foi nesse momento delicado que entrou em cena o empresário Gilberto Leite, executivo do Grupo Revemar.
Conhecido por sua capacidade de articulação e por manter diálogo aberto com diversos setores da sociedade, Gilberto sempre demonstrou interesse em iniciativas voltadas ao desenvolvimento de Marabá e da região.
Com trânsito entre lideranças empresariais, representantes de governos e movimentos sociais, ele passou a atuar na busca de uma solução capaz de preservar o projeto da futura universidade.
Ao mesmo tempo, o assunto ganhava repercussão na imprensa.
Como colunista político do jornal Diário do Pará, eu acompanhava diariamente o desenrolar dos acontecimentos e registrava em minha coluna as preocupações relacionadas ao destino da área reservada para a implantação do campus.
A cada novo capítulo da crise aumentava a apreensão de todos aqueles que compreendiam a importância histórica da universidade para o futuro do Sul e Sudeste paraense.
O telefonema decisivo
Um dos episódios mais marcantes dessa história ocorreu em uma noite que permanece viva na memória de quem participou das articulações.
Por volta das 21 horas, recebi uma ligação de Gilberto Leite (foto ao lado) pedindo que eu fosse imediatamente até a sede da Revemar. O tom de urgência deixava claro que algo importante havia acontecido.
Ao chegar ao local, Gilberto relatou que acabara de conversar com Leonildo Rocha.
A notícia era preocupante.
Cansado da indefinição gerada pela ocupação, o empresário havia estabelecido um prazo para que a situação fosse solucionada. Caso contrário, retiraria o compromisso de doar a área destinada à universidade.
Era um ultimato.
Gilberto precisava entrar em contato imediatamente com a governadora Ana Júlia Carepa. O número que possuía já não funcionava e ele solicitou que eu fornecesse um contato atualizado.
Naquela mesma noite, diante de mim, ele telefonou para a governadora.
Ana Júlia ouviu atentamente o relato sobre o prazo estabelecido por Leonildo e compreendeu de imediato a gravidade da situação.
Ao final da conversa, assumiu um compromisso que seria decisivo para o desfecho da história: viajar pessoalmente a Marabá no dia seguinte para tentar construir uma solução negociada.
A viagem sem alarde
Como havia prometido, Ana Júlia desembarcou em Marabá no dia seguinte.
A visita ocorreu de forma discreta, sem divulgação oficial e sem qualquer mobilização pública. O objetivo era exclusivamente resolver o impasse.
No aeroporto estavam presentes, além de Gilberto Leite e deste jornalista, outros empresários e colaboradores que acompanhavam com preocupação os riscos que pairavam sobre o projeto universitário.
Enquanto isso, integrantes da equipe da governadora já haviam articulado encontros com lideranças dos movimentos socais responsáveis pela ocupação.
O que se seguiu foi uma intensa rodada de negociações.
Cinco horas de diálogo
Durante todo o dia, Ana Júlia Carepa permaneceu reunida com representantes dos movimentos sociais.
Não houve imposição, ameaças ou demonstrações de força.
Em vez de recorrer a uma reintegração de posse pela via policial, a governadora optou pelo caminho do diálogo e da negociação.
Ao longo das conversas, apresentou a importância estratégica da futura universidade para toda a região e os riscos que o empreendimento enfrentava caso a situação permanecesse sem solução.
Ao final das reuniões, as lideranças compreenderam a dimensão do projeto e demonstraram sensibilidade aos argumentos apresentados.
O entendimento construído naquele encontro permitiu superar um dos maiores obstáculos enfrentados durante a implantação da futura Cidade Universitária.

Uma decisão que mudou o futuro da região
Passados mais de dez anos, é possível avaliar a dimensão daquele momento.
A consolidação da Unifesspa transformou profundamente Marabá e dezenas de municípios do Sul e Sudeste do Pará.
Milhares de jovens passaram a ter acesso ao ensino superior público sem precisar migrar para outras regiões do país. A produção científica ganhou força, novos cursos foram implantados e a universidade tornou-se um dos principais motores do desenvolvimento regional.
Além disso, a implantação do campus contribuiu diretamente para a valorização e expansão urbana da área que hoje forma o bairro Cidade Jardim, transformando uma região então incipiente em um dos principais vetores de crescimento da cidade.
É difícil imaginar atualmente um local mais adequado para sediar a universidade.
Personagens que merecem ser lembrados
Toda grande obra coletiva possui personagens que, mesmo atuando longe dos holofotes, ajudam a escrever capítulos decisivos da história.
No caso da Unifesspa, dois desses nomes merecem reconhecimento especial.
A ex-governadora Ana Júlia Carepa, que compreendeu a gravidade do problema e decidiu agir pessoalmente para encontrar uma solução negociada.
E o empresário Gilberto Leite, meu amigo-irmão já falecido, cuja capacidade de articulação, espírito público e dedicação às causas ligadas ao desenvolvimento de Marabá foram fundamentais naquele momento de crise. E em outros também.
Treze anos depois da criação da universidade, a comunidade acadêmica, a sociedade marabaense e toda a região Sul e Sudeste do Pará têm razões de sobra para celebrar a existência da Unifesspa.
Mas também é justo recordar aqueles que, nos bastidores, ajudaram a tornar possível um projeto que hoje representa conhecimento, oportunidades e transformação social para milhares de paraenses.
A história da universidade não foi construída apenas com concreto, salas de aula e laboratórios. Ela também foi edificada por meio do diálogo, da capacidade de negociação e da visão de pessoas que compreenderam, antes de muitos, o papel estratégico que a instituição teria para o futuro da região. (Fotos: Correio de Carajás / Arquivo Pessoal / Reprodução Internet)



