“O que é que tem na sopa do neném?”

Publicado em 15 de março de 2012

 

 

Nina Horta é uma escritora com sabor. Cozinheira, dona de um famoso buffet, escreve crônicas que enchem os olhos, boca e nariz. Suas palavras produzem sensações das mais gostosas e encantadoras.

Em 2001, foi convidada pelo Ministério da Educação (MEC) a fazer um tour pelo Brasil com o renomado chef Olivier Anquier (um pão brioche mousseline delicioso!), visitando escolas e ministrando às merendeiras oficinas de comida.

No livro “Vamos comer”, Nina Horta narra de forma lírica essa odisseia pelos quatro cantos do Brasil. Um livro apaixonante, que guardo como se fosse ouro.

Foram distribuídos, gratuitamente, exemplares do mesmo pelo MEC para todas as escolas públicas do país.

Esse livro reúne alguns dos ingredientes que mais me fascinam: educação, pessoas de verdade, comida e literatura.

As pessoas de verdade a que me refiro são as merendeiras. Mulheres alegres, simples, que têm as mãos como seu principal utensilio.

Todas são especiais e singulares, não posso citar cada uma ( são tantas, que o espaço virtual não abarcaria todas).  Quero que cada merendeira de nossa cidade, região e país se sinta valorizada através da Dona Valdinete (foto).

Quando cheguei à Escola São José ela já estava lá. Me deixou invadir sua cozinha com minhas “comidas diferentes”, como chama. Passei a compartilhar com ela as ideias mais mirabolantes para o cardápio da merenda escolar. E pasmem!!! Acatou todas, conseguindo fazer prodígios com poucos ingredientes.

Nossa cozinha recebe alunos e visitantes de cara, pois situa-se na entrada. Todas as merendeiras são educadoras de mão cheia, pois ensinam nossas crianças enquanto as alimentam. Distribuem as refeições com cuidado, fazem os alunos obedecerem às filas, orientam a manter o pátio limpo e sem desperdício de alimento.

O estado de espírito das merendeiras penetra na comida, por isso estão sempre alegres, para que o arroz, a sopa, o suco, a carne com legumes, saiam deliciosos, para que acordem todos os sentidos de nossos alunos.

Passo um bom tempo na cozinha, pois gosto da quentura que as merendeiras emanam. Quando estou triste, então??? Praticamente moro lá.  Tem uma conversa alegre, um purê de batata que consola a alma, bem amanteigado…

As merendeiras são a alma da escola. Não podem passar despercebidas do processo educacional, não devem ser alijadas, como afirma Nina Horta. Na cozinha fixamos a letra da música SOPA do grupo, que sou fã, Palavra Cantada. Levei o som para a cozinha várias vezes com a intenção de fazê-las aprender a cantar. Aprenderam, gostaram e fazem inveja às professoras ao mostrarem o belo mural (foto) que ganharam, ficam cantando: “O que é que tem na sopa do neném?”.

Recebemos cerca de 280 professores da zona rural bimestralmente em nossa escola (foto abaixo). São dias de muito trabalho para nossas fazedoras de comida, chegam antes das 6:00 horas da manhã para prepararem o café, e só param às 18:00 horas, quando já adiantaram o almoço do dia seguinte e limparam a cozinha.

Foi em um desses momentos que as peguei às 6: 30 da manhã, às gargalhadas na cozinha. Fiquei curiosa (sou muito curiosa!!!), quis saber o motivo de tanta alegria, me revelaram que eram fãs do radialista Cesar Santos da FM 91 de Marabá, o achavam engraçado com sua eterna implicância com a coitada da Maíara, ele as fazia trabalhar em harmonia àquela hora da manhã.

Acreditam que virei fã dele também? Passei a ligar o rádio do carro cedinho, na minha ida ao trabalho, ouvindo-o naquela conversa sem fim com a Maíara, e com os ouvintes. Um dia copiamos uma receita de frango com batatas, Cesar Santos narrou todo o processo de construção do prato, desde a compra dos ingredientes na Feira da Folha 28 até o prato pronto. Eu e as merendeiras ficamos apostando se ele realmente sabia cozinhar ou era só papo de locutor de rádio.

Ainda irei convidá-lo a visitar nossa escola, para alegrar nossas merendeiras e fazer aquele famoso frango com batata.

A merenda escolar é tratada por nossas mulheres de touca branca como iguarias finas, capricham no tempero, na quantidade e qualidade de cada prato. São profissionais que precisam ser tratadas com dignidade, devem ser valorizadas e sempre lembradas nas escolas por diretores, professores, pais e alunos.

Afinal são elas que serão as formadoras de gostos culinários de nossas crianças, tornando-as plenas conhecedoras do mundo através da boca.

 

Evilângela Lima. Educadora, Diretora da Escola de Ensino Fundamental São José