Hiroshi Bogéa On line

“O que é que tem na sopa do neném?”

 

 

Nina Horta é uma escritora com sabor. Cozinheira, dona de um famoso buffet, escreve crônicas que enchem os olhos, boca e nariz. Suas palavras produzem sensações das mais gostosas e encantadoras.

Em 2001, foi convidada pelo Ministério da Educação (MEC) a fazer um tour pelo Brasil com o renomado chef Olivier Anquier (um pão brioche mousseline delicioso!), visitando escolas e ministrando às merendeiras oficinas de comida.

No livro “Vamos comer”, Nina Horta narra de forma lírica essa odisseia pelos quatro cantos do Brasil. Um livro apaixonante, que guardo como se fosse ouro.

Foram distribuídos, gratuitamente, exemplares do mesmo pelo MEC para todas as escolas públicas do país.

Esse livro reúne alguns dos ingredientes que mais me fascinam: educação, pessoas de verdade, comida e literatura.

As pessoas de verdade a que me refiro são as merendeiras. Mulheres alegres, simples, que têm as mãos como seu principal utensilio.

Todas são especiais e singulares, não posso citar cada uma ( são tantas, que o espaço virtual não abarcaria todas).  Quero que cada merendeira de nossa cidade, região e país se sinta valorizada através da Dona Valdinete (foto).

Quando cheguei à Escola São José ela já estava lá. Me deixou invadir sua cozinha com minhas “comidas diferentes”, como chama. Passei a compartilhar com ela as ideias mais mirabolantes para o cardápio da merenda escolar. E pasmem!!! Acatou todas, conseguindo fazer prodígios com poucos ingredientes.

Nossa cozinha recebe alunos e visitantes de cara, pois situa-se na entrada. Todas as merendeiras são educadoras de mão cheia, pois ensinam nossas crianças enquanto as alimentam. Distribuem as refeições com cuidado, fazem os alunos obedecerem às filas, orientam a manter o pátio limpo e sem desperdício de alimento.

O estado de espírito das merendeiras penetra na comida, por isso estão sempre alegres, para que o arroz, a sopa, o suco, a carne com legumes, saiam deliciosos, para que acordem todos os sentidos de nossos alunos.

Passo um bom tempo na cozinha, pois gosto da quentura que as merendeiras emanam. Quando estou triste, então??? Praticamente moro lá.  Tem uma conversa alegre, um purê de batata que consola a alma, bem amanteigado…

As merendeiras são a alma da escola. Não podem passar despercebidas do processo educacional, não devem ser alijadas, como afirma Nina Horta. Na cozinha fixamos a letra da música SOPA do grupo, que sou fã, Palavra Cantada. Levei o som para a cozinha várias vezes com a intenção de fazê-las aprender a cantar. Aprenderam, gostaram e fazem inveja às professoras ao mostrarem o belo mural (foto) que ganharam, ficam cantando: “O que é que tem na sopa do neném?”.

Recebemos cerca de 280 professores da zona rural bimestralmente em nossa escola (foto abaixo). São dias de muito trabalho para nossas fazedoras de comida, chegam antes das 6:00 horas da manhã para prepararem o café, e só param às 18:00 horas, quando já adiantaram o almoço do dia seguinte e limparam a cozinha.

Foi em um desses momentos que as peguei às 6: 30 da manhã, às gargalhadas na cozinha. Fiquei curiosa (sou muito curiosa!!!), quis saber o motivo de tanta alegria, me revelaram que eram fãs do radialista Cesar Santos da FM 91 de Marabá, o achavam engraçado com sua eterna implicância com a coitada da Maíara, ele as fazia trabalhar em harmonia àquela hora da manhã.

Acreditam que virei fã dele também? Passei a ligar o rádio do carro cedinho, na minha ida ao trabalho, ouvindo-o naquela conversa sem fim com a Maíara, e com os ouvintes. Um dia copiamos uma receita de frango com batatas, Cesar Santos narrou todo o processo de construção do prato, desde a compra dos ingredientes na Feira da Folha 28 até o prato pronto. Eu e as merendeiras ficamos apostando se ele realmente sabia cozinhar ou era só papo de locutor de rádio.

Ainda irei convidá-lo a visitar nossa escola, para alegrar nossas merendeiras e fazer aquele famoso frango com batata.

A merenda escolar é tratada por nossas mulheres de touca branca como iguarias finas, capricham no tempero, na quantidade e qualidade de cada prato. São profissionais que precisam ser tratadas com dignidade, devem ser valorizadas e sempre lembradas nas escolas por diretores, professores, pais e alunos.

Afinal são elas que serão as formadoras de gostos culinários de nossas crianças, tornando-as plenas conhecedoras do mundo através da boca.

 

Evilângela Lima. Educadora, Diretora da Escola de Ensino Fundamental São José

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11 Comentários

  1. Edneia

    29 de abril de 2012 - 16:16 - 16:16
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    Realmente essas mulheres fazem a diferença na Escola São José
    é maravilhoso almoçar lá, rsrs!

  2. Evilângela

    19 de março de 2012 - 20:46 - 20:46
    Reply

    Cézar;
    Muito obrigada pela atenção e carinho.
    Li seu comentário para as merendeiras e ficaram alvoroçadas, me incumbiram da missão de te ligar e marcar o encontro culinário.
    Mas avisaram: nada de copo de meio litro para tomar a sopa, ok?
    E nada de remédio também, tenho certeza que é um exímio cozinheiro. Será um momento muito agradável.
    Milhões de abraços de todas as merendeiras.

  3. Cézar Santos

    17 de março de 2012 - 19:36 - 19:36
    Reply

    Quando era menino o momento que mais gostava na escola era a hora da merenda. Estudava em escola pública, e minha mãe sabiamente comprou-me um copo com capacidade de mais de meio litro para tomar bastante sopa do governo.
    Lembro da tia Maricota, que acolhia todos os alunos como filhos, sendo eu o preferido.
    Bom lembrar disso nesse momento, pois vejo a história se repetindo, sabendo dessas senhoras que amam o que fazem.
    E é bom fazer parte da vida de vocês, levando alegria nas suas manhas.
    Agradeço por esse tempo doado a FM91, fazemos nosso programa pensando em vocês.
    Aceito o convite, e para mim será um prazer cozinha para minhas amigas, claro que levarei o remédio para dor de barriga..
    Obrigado,
    Um grande Fã de todas vocês
    Cézar Santos

  4. Wal

    17 de março de 2012 - 17:18 - 17:18
    Reply

    Esse texto é um prato cheio!!!
    Saboroso, delicioso!!!!
    Huumm, fiquei até com saudade da comida da dona Valdinete, que merecidamente foi homenageada. Posso repetir? Vou ler de novo.
    Bjos.

  5. CLEOMAR CALDAS

    17 de março de 2012 - 09:54 - 9:54
    Reply

    Parabens! ! !
    São elas “merendeiras” o coração da escola.

  6. Hiroshi Bogéa

    17 de março de 2012 - 08:31 - 8:31
    Reply

    Cleomar Caldas, não publicamos texto todo em letra maiúscula. Refaça seu comentário.

  7. Dora

    16 de março de 2012 - 15:33 - 15:33
    Reply

    Eu tambem gosto de ouvir o Cesar Santos. Justa homenagem às merendeiras.

  8. Evilângela

    15 de março de 2012 - 20:30 - 20:30
    Reply

    Clézia, que bom que tem gostado de estar entre nós.
    Nossa escola é assim: todo mundo que chega não consegue mais sair. Tenho uma leve desconfiança que a culpa é dessas merendeiras, que além de nos engordar, são umas mães acolhedoras.
    Anny, me orgulho de trabalhar com umas mulheres tão competentes e meigas. Não imagina como fico de olhos brilhando, em saber que nossos alunos são felizes na Escola São José.
    Beijão.

  9. Cleza Maia

    15 de março de 2012 - 17:17 - 17:17
    Reply

    Tenho pouco tempo na Escola São José-km 8 e já percebo a valorização e respeito que há pela a equipe da merenda,profissionais competenes que trabalham com uma disposição impressionante! Foi o que percebi ao dar uma ajudinha na realização do bolo, no dia da formaçao dos professores da zona rural.
    A Escola Sao Jose tem essa característica, a sensação que tenho e que estou aqui ha anos,tendo apenas somente dois meses. Todos nesta instituição tem essa qualidade:ACOLHEDORES,tao difícil em outros ambientes, tão raro entre os seres humanos.

  10. Joab Baião

    15 de março de 2012 - 16:39 - 16:39
    Reply

    Ao ler o texto, parei para observar o quanto as pessoas nao dão valor a essas mulheres de grande garra, e determinação que nos servem e nos fazem nos deliciar de grandes refeiçoes. E que ao mesmo tempo que alimentam também educam essas nossas crianças e educadores ao mesmo tempo.
    Parabéns Evilangela por mas esse artigo de grande porte.

  11. anny ex-Aluna

    15 de março de 2012 - 13:04 - 13:04
    Reply

    Falar dessas merendeiras é uma honra, pois pasei 7 anos nessa escola e ñ tenho do que reclamar,pois essas merendeiras são sensacionais, fazem merendas de primera e com todo amor e alegria,ñ fazem só por que é obrigação delas, mas por que gostam do que fazem,cozinham como estivessem cozinhando para sua familia, e nunca ficam a cara em burrada mesmo com as lutas da vida sempre estão alegres .Além de serem merendeiras são amigas e tratam todos os alunos bem, como se fossem seus filhos. As merendeiras são realmente importante para a nossa escola não é atoa que eu estou mais cheinha e ja estou sentindo saudades dessa merenda delicisa !!!!!! bjs a todas as merendeiras do Brasil

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