“A dor de perder uma filha não tem nome”

Publicado em 16 de fevereiro de 2012

 

 

“Vou lutar enquanto viver para que as coisas mudem. A  morte de nossa filha pode até  ficar impune, infelizmente, e dói muito, é como se nos matassem também”.

A voz embargada, falando ao celular,  denuncia a forte emoção de Manoel Feitosa, no meio da tarde de quarta-feira, em mais uma entrevista de tantas dada por ele durante o dia. O pai de Thaís, a adolescente de 12 anos barbaramente morta em Parauapebas, já não conseguia manter o equilíbrio emocional revelado no início da entrevista.

A ficha estava caindo, pela primeira vez, conforme ele mesmo revelara:

– “Tenho procurado ser forte para ajudar minha família a suportar tudo isso, mas não estou conseguindo mais, só de imaginar que agora não temos mais nossa filha, que deixaram seu corpo todo esquartejado, tanta maldade, santo Deus….”

O blog não tenta extrair nenhuma informação a mais do que já está sendo divulgada pela imprensa. Objetivo do contato com Manoel é mais humanitário, entender  o lado desolador de um pai que perde a filha barbaramente.

A conversa dura  cinco minutos, tempo suficiente para deixá-lo à vontade, ciente da intenção solidária de quem lhe entrevista.

Numa última tentativa de consolo, o pôster conta a Manoel da existência de uma árvore africana chamada Baobá, de tronco fininho, que quanto maior a falta de água e  calor, mais ela cresce – seu tronco fica grosso e forte.

Em favor da memória de Thaís, peço-lhe procurar ser como Baobá.

 

“É, posso até me torcer e vergar, mas não vou cair. Vou até o fim, mas  a dor de perder uma filha não tem nome” – reagiu, antes de acompanhar a solenidade fúnebre de sepultamento da pequena menina, de quem ele recebeu um “até mais tarde”, na manhã do dia em que saiu para a escola e não mais voltou

O blog tem como regra evitar potencializar noticiários policialescos, a não ser fatos de extrema gravidade, como esse em que uma menina de 12 anos é morta no caminho da escola.

A banalização da violência e os crescentes índices de criminalidade amedrontam. A população de Parauapebas, depois do bárbaro assassinato de Thaís, está assustada, mães fazendo guardas aos filhos na ida a escola, um clima de instabilidade emocional preocupante.

Não se vive hoje sem o medo constante da agressão física ou moral; não se consegue mais estabelecer um sentimento de segurança plena.

O quadro se agrava com a constatação da incapacidade da polícia em controlar ou diminuir essa onda de violência utilizando-se do sistema tradicional de Segurança Pública. Isso porque a ação isolada das diversas forças  policiais e o policiamento repressivo, feito exclusivamente por homens fardados, caracterizado pelo excesso de burocracia e pela má formação dos oficiais, já não são suficientes.

Essa violação diária da ordem pública, contudo, está prestes a extrapolar o limite do suportável pelo homem, se é que já não extrapolou.

O caminhar das pessoas está numa encruzilhada: ou se faz alterações sérias nas políticas de segurança pública, ou se chegará ao estado da inviabilidade da vida.

O caso de Thaís pode até estar vinculado a prática de magia negra ( ou branca?), mas é um crime hediondo tanto quanto outros, de efeito devastador na memória e coração das pessoas.

O corpo de uma saudável e indefesa adolescente, esquartejado; literalmente dilacerado de forma cruel. Uma pequena adolescente  na flor de seus 12 anos vivendo  sonhos juvenis.

A violência praticada no extremo limite da barbárie.

O blog não pode ficar passivo diante de tanta crueldade

É preciso o engajamento sincero e comprometido dos que acreditam na possibilidade de  mudar  essa exposição efetiva de brutalidade e extermínio.

Mudança de mentalidade, em que as  pessoas não aceitem passivamente  a violência, e realmente lutem contra ela.

É preciso que se restaurem valores éticos e morais, de preservação da dignidade humana.

A polícia diz estar dedicada à descoberta de quem matou Thais. O mínimo que se espera dela é isso mesmo, exigindo extremo zelo nas investigações a fim de que a sociedade receba garantias de que, ao fim e ao cabo, a barbárie seja esclarecida -,  e seus autores presos.

Da mesma forma, a sociedade paraense espera que a Justiça abra seus olhos cegos para enxergar àqueles que clamam por sua ajuda diante da maior dor e perdas humanas.

Enxergar as lágrimas nos olhos dos pais, o desconsolo e desespero das mães, a dor e a tristeza dos entes queridos que perderam alguém pela estupidez, mesquinharia e maldade humanas.

Se isso realmente ocorrer, neste dia, ela decidirá que ninguém mais poderá passar por semelhante tortura e não permitirá que jamais os filhos voltem a anteceder seus pais em seus ritos fúnebres, e que vidas em movimento não sejam jamais cessadas pela vontade humana novamente, que projetos e destinos não sejam interrompidos pelo simples desejo humano de fazê-lo.

A vida humana  deveria ser o maior bem a ser resguardado. O único bem inviolável.

Ninguém tem o direito de tirá-la, pois  é o único crime para o qual não há redenção.