Hiroshi Bogéa On line

Interpretações equivocadas de um ranking de universidades causam indignação na Academia

Interpretações amadoras e equivocadas de alguns personagens sobre o ranking de desempenho das universidades, produzido pelo Grupo Folha de São Paulo, da Editora Abril, e que têm, nos últimos meses, desembainhando espadas editoriais nos veículos da família Frias  para  desqualificar o ensino público – continuam causando mal-estar no seio de acadêmicos da Unifesspa, cuja avaliação divulgada com estardalhaço classifica a Universidade Federal do Sul/Sudeste do Pará entre “as piores do país”.

Nas redes sociais, centenas de perfis criticam os critérios do ranking e,por fim, rechaçam matéria publicada no jornal Correio de Carajás, dando destaque negativo para o ranking.

Hildete Pereira dos Anjos, professora das mais antigas da Unifesspa, incluída entre aqueles educadores que participaram das primeiras aulas da então UFPA, quando instalada em Marabá, faz dura crítica, recheada de humor e ironias,  a um artigo assinado pela repórter Luciana Marshall.

Leiam o post de Hildete:

 

Pensando alto aqui com meus botões ao ler a reportagem de Luciana Marshall no Correio de Carajás, dia 20 de setembro último. Diz a jornalista, em certo trecho: “Desde 2012, quando o mestrado interdisciplinar “Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia” foi criado, ainda no tempo da Universidade Federal do Pará (UFPA), a nota está estagnada em 3, limite de sobrevivência de um programa de pós-graduação. Mestrados mais recentes tiveram conceito 4, superando a Unifesspa”.

Chamou-me a atenção a palavra “estagnado”, reforçada pelo ameaçador “limite de sobrevivência” que completa a frase e parece definir nosso destino enquanto programa de pós-graduação.

Medo medo! Estaríamos num pântano? Á beira da morte? Égua, ninguém me avisa?? Fui buscar o sentido de estagnado nos dicionários aqui da net, porque não entendi. Diz lá, resumidamente: que tende a não fluir; parado; que não se movimenta, paralisado, estacionário, cristalizado, inerte, estático, imobilizado, inativo, dormente. Puxa, pensei eu, vamos então analisar esse paradeiro, vai que o texto está certo e essa nossa vida alucinada de orienta/escreve/leciona/publica/defende/apresenta é pura ilusão da minha parte.

Toca então fazer conta, para escapar da Matrix. Vejamos em que pântano nos afundamos (ou não): tivemos, de 2012 para cá 33 dissertações aprovadas (e elogiadas pela CAPES!). publicamos dezenas de livros e capítulos de livro, no Brasil e fora dele. Publicamos 67 artigos no período, poucos ainda em revistas de primeira linha: apenas 17 foram publicados em revistas B1, A2 e A1, de expressão internacional (Acha pouco, né? Vai lá: publica um e me conta depois…).

Tivemos egressos aprovados em doutorados reconhecidos nacionalmente (só que eu me lembro aqui de cor: Flávia Lisbôa (PPGL/UFPA); Joyce Cardoso Olimpio Ikeda (Políticas Públicas/UFMA); Ribamar Ribeiro Jr (Antropologia Social/UFMG); Cristiano Bento (Sociologia e Antropologia/UFPA); Tiese Teixeira Júnior(NAEA/UFPA); Luciano Laurindo (Geografia/UNIR)… outros se acusem, por favor; outros tantos aprovados em concursos de universidades e institutos federais. 

Passamos agora pelo nosso primeiro processo de avaliação formal pela CAPES, embora tenhamos nos mantido permanentemente em avaliação interna, atentos aos critérios estabelecidos na área interdisciplinar. Em cinco anos de vida, quantos mestrados interdisciplinares no Brasil passaram da nota 03 para 04, saberia dizer a insigne jornalista? Quantos na Amazônia? Quantos no interior da Amazônia? 

Posso sintetizar o relatório da parte que nos toca, se for do interesse. Ali a CAPES diz da nossa coerência interna, da nossa inserção social, da qualidade de nossas dissertações, do nosso compromisso com a graduação. Tudo isso foi retido pelo filtro enviesado da jornalista (se é que ela teve acesso ao relatório).

Quais são nossos limites? Nós não publicamos ainda o suficiente e de modo equilibrado para chegar a 04, diz a CAPES. Nossos projetos de pesquisa ainda não atravessam as duas linhas. Nossos discentes ainda não participam suficientemente dos projetos de pesquisa, para além das próprias dissertações. É verdade. Continuaremos trabalhando nessa direção, serenamente, sem abrir mão daquilo que já alcançamos. Diz a nota oficial da UFPA sobre seus (brilhantes!) resultados nesta avaliação:”Como o sistema de pós-graduação está em permanente evolução, a manutenção da nota significa que o curso acompanhou a melhora dos demais cursos em sua área no País. Quando um curso sobe de nota, isso significa que ele avançou muito mais do que os seus congêneres”.

É isso, Luciana: não somos comparados com os programas que têm cinco anos de vida, como nós: somos comparados com todos os programas do país.

Não se trata de estagnação, e sim de mover-se num ritmo estável, no ritmo possivel, dentro de nossa maturidade, dentro das circunstâncias da pós-graduação no país. 

Nosso edital de seleção está aberto. Aqueles que não buscam excelência a qualquer custo, aceitando ser orientados por um conjunto de docentes sérios, esforçados, envolvidos com uma leitura crítica das dinâmicas regionais, são bem vindos. Nós conseguimos esse 03 em 2012, pelos esforços de nosso corpo docente.

Em 2017, as exigências são muito maiores, os padrões de comparação se tornaram bem mais exigentes; nosso 03 se mantém com muito suor: de mais docentes que se incorporaram à proposta, do setor técnico (obrigada, Thayná Passos!), da coordenação (um viva para William Assis, Celia CongilioNilsa Brito Ribeiro,Edma Moreira Moreira e Andrea Hentz, que seguraram as pontas nesses cinco anos!) das bolsistas e das/dos discentes de todas as turmas… Obrigada a todos os egressos que contribuíram para isso, publicando, lecionando, participando das lutas sociais, apresentando a público, em suas dissertações, aspectos das dinâmicas sociais nunca antes estudados.

E obrigada à jornalista que, por meios atravessados, me obriga a abrir uma brecha na correria do dia-a-dia para dizer, sem medo: nós somos o PDTSA, com muito orgulho. A nota da CAPES não nos define, apenas nos desafia. E (sorry, Luciana Marshall): estagnada, inerte, estática, imobilizada, inativa, dormente é a chocadeira donde são cultivadas tais “notícias”.

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Nota do blog: na segunda-feira, o blogueiro publicará post explicando tin tin por tin como foi feita a avaliação  do desempenho da Unifesspa, para encerrar de vez uma questão definitivamente  criada para desqualificar a universidade dos sul paraenses – em favor do ensino privado.

Em todo o país, donos de faculdades estão se pondo a direcionar campanhas condenando a qualidade do ensino das universidades federais, tendo como pano de fundo, a extinção definitiva do ensino gratuito.

E isso, a campanha, com apoio irrestrito de veículos de comunicação como a Folha, o Estadão e O Globo, este jornal que, ano passado, publicou editorial  exigindo de Temer a extinção do ensino universitário público, apoiando-se em argumentos mentirosos que, depois, foram fartamente desmoralizados por especialistas.

Ou seja, a mentira, como argumento principal para convencimento de seus leitores,

É fato que o sistema universitário brasileiro ainda é profundamente inhjusto.

O acesso dos mais pobres à universidade pública ainda é minoritário, mesmo tendo melhorado na última década, graças a algumas políticas públicas de inclusão dos governos Lula, contudo, apesar de terem ajudado, foram insuficientes.

Também é fato: muitas pessoas pobres que não conseguiram passar na universidade pública estudam em universidades particulares de duvidosa qualidade, muito diferentes das universidades particulares de elite, e muitas pessoas dos segmentos mais ricos da população, depois de estudarem em escolas particulares de elite, ingressam às melhores universidades públicas.

E eles poderiam pagar.

Também é fato: o estado brasileiro e muitos estados da federação estão quase falidos.

Contudo, não é fato que a solução para esses problemas seja acabar com a gratuidade do ensino universitário público.

Essa é uma grande mentira.

A experiência internacional mostra que esse modelo é um fracasso e só produz mais desigualdade, mais injustiça social, mais exclusão. E não soluciona o problema do déficit fiscal, nem melhora a universidade pública.

Tempos atrás, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou  a importância que os gastos sociais adquiriram no Brasil para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a redução das desigualdades.

Segundo o estudo, que usou como base dados de 2006, cada R$ 1 gasto com educação pública gera R$ 1,85 para o PIB.

A título de comparação, o gasto de R$ 1 com juros sobre a dívida pública, segundo o mesmo estudo, gerará apenas R$ 0,71 de crescimento do PIB.

Ou seja, o dinheiro gasto com educação de qualidade, como é o caso das universidade federais, é um excelente investimento dos recursos públicos.

Portanto, tomemos cuidado para não participarmos, inconscientemente, de campanhas que visem acabar com nossas universidades federais.

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5 Comentários

  1. Osmar Cidil Batista Valverde

    24 de setembro de 2017 - 15:25
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    Podemos ter como exemplo alguns paises europeus que a uns dez anos atrás investiram na classe baixa com educação, saúde, infraestrutura… Atualmente as penitenciárias lá estão sendo deixadas por falta de presos, isso mesmo foram só dez anos, enquanto isso, no Brasil, é preciso fechar escolas públicas, privatizar universidades, sucateando o máximo o Brasil para que se mantenha a desigualdade e assim, se mantenha o enredo. É obvia a dedicação do ESTADO para com o povo desde 1500.

  2. Adriano

    24 de setembro de 2017 - 13:43
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    Muito bom o artigo. Por uma educação pública, gratuita e de qualidade.

  3. Samuel de Almeida Mendes

    24 de setembro de 2017 - 11:47
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    Falar sobre o que não se tem conhecimento tem sido a base de notícias e momentários de repórterese de jornais e revistas que privilegiam o setor privado denegrindo a imagem de quem luta por uma educação pública de qualidade.
    Parabéns Professora

    • Pedro Gomes

      6 de outubro de 2017 - 15:06
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      Se é pública, não pode ser de qualidade e muito menos gratuita.
      Tudo que o governo faz “gratuitamente” vem por meio de dinheiro público.
      Cadê a gratuidade?

  4. Marcus

    23 de setembro de 2017 - 20:20
    Reply

    Parabéns à Hildete pela excelente reflexão e parabéns a você Hiroshi pela lucidez em demonstrar os interesses que estão por trás de notícias “catastróficas” como esta.

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