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Engenheiro paulista considera um case a obra da ponte do rio Moju

O depoimento a seguir é  do engenheiro Marcelo Dias,  filho de José Dias, engenheiro  que liderou a equipe  responsável pelo projeto e execução da ponte rodoferroviária sobre o rio Tocantins, ao comentar para o blog a importância da nova ponte sobre o rio Moju,  cujas obras estão em fase de conclusão:

 

                  -“É uma obra de suma importância para a engenharia nacional considerando o tempo recorde de sua construção e as condições de grau de dificuldades enfrentadas. O estaiamento  do vão central, pelo que venho acompanhando na imprensa e em contato com colegas engenheiros residentes em Belém,  no tempo  preestabelecido, é obra que merece muita atenção, principalmente pelos ensinamentos revelados na utilização de novas tecnologias. Como resido em São Paulo, ainda não tive tempo de ir a Belém para conhecer de perto a nova ponte, mas o farei em breve porque preciso ter acesso a detalhes. Meus companheiros de consultoria estão entusiasmados com o fluxograma e dimensão da obra, não no que se se refere ao padrão estabelecido, mas pelas condições enfrentadas e o curto prazo contratado para a entrega da ponte. Quero parabenizar os autores e executores do projeto, dizendo que a engenharia brasileira, mais uma vez, comprova sua competência”.

 

Segundo Marcelo,  trabalhar a edificação de uma ponte seguindo um cronograma de construção  em tempo recorde, numa área cercada de água, chuvas, ventos e todo tipo de periculosidade, “demonstra toda a competência e a criatividade de uma equipe de engenharia – e isso nos orgulha muito, porque nos representa dignamente”, disse.

O engenheiro também destacou o cenário de segurança da obra.

 

-“Tomei conhecimento de que até hoje não ocorreu nenhum acidente, de qualquer espécie. Isso é a prova de que todos os cuidados foram planejados e  seguem à risca. Verdadeiramente, posso considerar um case a obra dessa ponte no rio Moju”, declarou.

 

O blogueiro ouviu Marcelo, depois de conversar com seu pai, José Dias, hoje vivendo a aposentadoria depois de mais de 50 anos trabalhando na construção de pontes pelo mundo.

A amizade entre o blogueiro e José Dias vem de longas datas, mais precisamente  da primeira metade dos anos 80.

Nos conhecemos no dia a dia de cobertura jornalística, acompanhando o avanço das obras da ponte rodoferroviária, levada a cabo pela construtora Better, contratada pelo governo federal, através da então Companhia Vale do Rio Doce.

Nossa amizade se fortaleceu nas noitadas de seresta que o blogueiro realizava em casa, tendo Dias como um dos participantes.

Foi numa dessas noitadas que José Dias contou ao blogueiro  a saga vivida para assumir  a responsabilidade pela edificação da ponte, inicialmente, apenas ferroviária.

Dias se encontrava numa cidade argentina, não lembrando aqui, agora,  qual, quando recebeu telefonema do presidente da Better convocando-o para estar dois dias depois em Marabá.

José não sabia nem onde ficava a cidade.

Dois dias depois, cumprindo prazo estabelecido pelo seu patrão, Dias foi recebido no      aeroporto de Marabá pelo presidente da construtora.

Dali, ambos saíram em direção ao rio Tocantins.

Até então, a empresa para a qual José trabalhava não havia adiantado o sentido de sua viagem a Marabá.

Exatamente no final de uma tarde, no local onde ainda hoje existe uma rampa que servia para embarque e desembarque de carros quando a travessia do rio Tocantins era feita  por balsas, nas imediações da Folha 8 (Nova Marabá), o presidente da Better sentenciou:

-“Zé Dias, se prepare para construir uma ponte ferroviária de lá (apontando para os dois lados do rio ) até ali. Temos dois anos para fazer a ponte.

As obras foram iniciadas no segundo semestre de 1983 com o estudo dos prováveis locais para a construção da ponte.

No início de 1984 as obras foram iniciadas de fato, sendo que aproximadamente um ano depois já estavam praticamente concluídas, inaugurada em fevereiro de 85 – apenas a parte ferroviária.

Por que?

Porque o projeto inicial objetivava apenas uma ponte que atendesse  aos interesses da Vale, sem a travessia de carros.

Houve uma pressão muito grande por parte da sociedade e da classe política, obrigando o governo a mandar fazer a parte rodoviária, que também foi uma sacada da equipe de José Dias, usando aquelas “mãos francesas” lá existentes para receberem os taludes  das pistas de rolamento, viabilizando, com recursos tecnológicos  da época, a ponte rodoviária, nas laterais  do eixo ferroviário.

Antes de iniciar a confecção do projeto, José Dias contou da perrengue travada entre o governo federal e a Vale, que apresentou  um  projeto de ponte ferroviária de uma construtora alemã.

A proposta não foi aceita pelo governo que queria empreiteiras brasileiras no consórcio.

A CVRD (hoje Vale S.A.) no entanto afirmava que as empreiteiras brasileiras não estavam ainda em condições de executar obras tão audaciosas.

A Better, juntamente com a Usimec, desenvolveu o projeto final de engenharia.

Da sincera amizade entre o blogueiro e Dias, surgiu também  uma importante ajuda da construtora para a montagem da primeira rádio de Marabá, a Itacaiúnas.

Em 1985, este irrequieto jornalista foi contratado pelo empresário Aziz Mutran para montar a rádio Itacaiúnas, de sua propriedade, cuja concessão ele conseguira junto ao governo federal.

O local da rádio era num terreno muito baixo e encharcado, ao lado de uma engarrafadora da Coca-Cola, na Pa-150.

Calculado, precisávamos de cerca de 150 carradas de terra para nivelar a área onde seria esticado o sistema de radiais da antena da emissora AM.

Não havia na cidade caçambas suficientes disponíveis para levar aterro ao local, todas terceirizadas na obra da ponte.

Numa noitada de violão,  e cerveja!,   em nossa casa,  o fato foi revelado ao engenheiro José Dias.

-“ Deixe comigo, vou tentar resolver esse problema. Só me dê um tempo de  falar com o presidente da construtora”, disse o engenheiro, depois de ouvir relato das dificuldades que encontrávamos para montar a estação.

Três dias  depois, José Dias telefona à noite pra casa (não havia celular à época) comunicando que iria fazer o aterro da área, em dois finais de semana.

 

– Meu patrão disse que posso fazer, será um presente da  construtora para a montagem da primeira rádio de Marabá.

 

E assim foi feito.

Em dois finais de semana, mais de vinte caçambas despejavam 150 carradas de aterro,  0800, de graça, nada cobrado.

José Dias foi embora depois de concluir a ponte, mas nunca perdemos o contato.

Hoje, meu amigo está com o “burro na sombra”, curtindo sua aposentadoria, mas tem o filho como seu sucessor na profissão.

Marcelo trabalha numa empresa de consultoria e segue os passos do “velho” Zé, construindo pontes ao invés de muros. (Foto Ascom – Setran)

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2 Comentários

  1. Luiz Gonzaga Oliveira de Almeida

    10 de janeiro de 2020 - 09:59 - 9:59
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    Gostei muito da matéria! Foram desafios que hoje desfrutamos dos seus feitos. Parabéns ao senhor engenheiro Dias e ao blogueiro pela perseverança. Coisas que inalteceram é enaltece nossa querida Marabá!

  2. Maruska

    9 de janeiro de 2020 - 15:47 - 15:47
    Reply

    Muito interessante ler desafios na engenharia em prosa.

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