Hiroshi Bogéa On line

Empresário diz que siderúrgica proposta pela Vale não atenderá verticalização, e que a mineradora tentará “enrolar” o Governo do Estado

O Correio de Carajás, final da semana passada, divulgou tratativas entre o governo do Estado e a Vale no sentido de anunciarem, ainda neste mês, a construção de um polo metal-mecânico em Marabá, resultante de parceria com um grupo chinês.

Maiores detalhes sobre o empreendimento, não surgiram ainda.

O que se sabe é que seria um projeto avaliado em U$ 300 milhões para produção de 700  mil toneladas/ano (no mínimo) até um milhão.

O anúncio, até agora, não provocou auê no seio da sociedade, decepcionada com promessas de outros dois projetos anteriores (Alpa e Cevital) que não passaram mesmo de promessas.

A configuração de um projeto como o que deve ser anunciado é o ideal para colocar em ignição o processo de verticalização no Distrito Industrial de Marabá?

Essa pergunta o blogueiro encaminhou a um empresário do setor siderúrgico, exímio estudioso do assunto, que pediu em anonimato a conversa.

“A questão central, disse,  é que de um lado a Vale tenta postergar o máximo possível a confirmação do projeto e por outro, nosso estado e o Governo precisam materializar o tema verticalização mineral  urgentemente, seja pelos empregos a serem gerados e ativação da economia ou pelos compromissos políticos firmados”

Permeando estas duas forças, esclarece que existe também o limite da paciência da sociedade.

“Não é aceitável outro modelo de negócio aos moldes do ´circo´ montado pela Cevital. Precisamos tratar as coisas de forma mais coerente, técnica e responsável. Um novo erro do tipo CevitalL custaria muito caro para a sociedade de Marabá e estado do Pará”, adverte o empresário, ratificando a existência de tratativas em curso com parceiros chineses sérios e maiores que a Vale para desenvolvimento da Siderúrgica ALPA.

“O próprio governador Helder Barbalho foi participado disso pela mineradora de forma ainda bastante superficial”, diz.

 

Em sua análise, o empresário relata que a Companhia Siderúrgica do Pecém, localizada no estado do Ceará, na qual a Vale tem 50% de participação mesmo não produzindo uma pedra de minério por lá, “produz 3 milhões de toneladas de aço (placas)”.

Em seguida, o entrevistado faz algumas contas.

“A siderúrgica Pecem custou US$ 5,4 bilhões, exatamente 18 vezes este investimento anunciado nesta semana  (U$  300 milhões,)  o que nos leva a concluir que essa Alpinha possa ser qualquer coisa, menos uma siderúrgica com utilização de minério, alinhada à verticalização  mineral. Em verdade,  Isso é apenas uma laminadora que não criará mais que 250 postos de trabalho e será um “cala boca” no estado”, garante.

E em sua explanação, prossegue:

“Uma siderúrgica pequena de um milhão de toneladas, produzindo aço do tipo placas e tarugos, custa pelo menos US$ 2 Bilhões. Diga-se de passagem, a Sinobrás precisa de tarugo para concluir sua expansão e atender à região. Atualmente entra muito aço chinês na Região Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Podem acreditar que a demanda dessa região possa já estar próximo de dois milhões de tonelada de bobinas e tarugos”.

 

Indagado, então, qual conceito de siderúrgica viável na região, o empresário responde, em cima da bucha:

– Precisa produzir bobinas de espessuras diversas, inclusive com linha de laminados a frio e tarugos direcionados,  a princípio,  para as demandas da SIinobrás, e, claro,  considerando uma operação integrada com uso do minério da Vale. Este é o conceito que os investidores chineses acreditam e já conceitualmente estruturaram o projeto, incluindo também linha de financiamento e cooperação societária.

Na avaliação do entrevistado, o governador Helder Barbalho, açoitado pela vontade de ver a verticalização acontecer realmente no Estado, “dá sinais de que não percebeu o risco que ele corre de ser ´enrolado´ e perder a oportunidade real de iniciar imediatamente um projeto perfeito. Além disso, promessas infundadas da mineradora vão ganhando vida e a realidade de uma parceria para uma siderúrgica integrada produzindo tarugos e bobinas, com financiamento e participação chinesa,  se perdendo”.

Convicto do conhecimento profundo que tem sobre o assunto, o empresário, em tom de apelo, afirma que “alguém precisa alertar nosso governo estadual, porque estamos  próximos de cair novamente no golpe da  Vale.  Alguém precisa dar esta orientação para o governador, pois ao meu ver ele caminha a passos largos para ser levado com a barriga, por um ou dois anos em termos de um projeto sustentável para o estado.”

 

Ele lembra ainda que a China vem crescendo em produção de aço algo superior a 50 milhões de toneladas por ano –  e já produzem anualmente quase 930 milhões -, enquanto o Brasil, t e o Brasil apenas 35 milhões de toneladas/ano.

“Só os tarugos que poderiam ser sinergicamente produzidos para a Sinobrás já indica um projeto bem maior que as notícias que começam a surgir. E isto  sem considerar as bobinas a frio e a quente demandadas nas regiões mais ao Norte do País. Lembrando também que a China exporta para América Latina mais de 7 milhões de toneladas de aço, sendo grande parte para o Norte, Nordeste e até Centro-Oeste do Brasil”.

Outra informação muito importante do empresário:  a expressiva parcela das importações colombianas, superiores a 2,2 milhões de tonelada, estando este país logisticamente próximo do Pará, seno possível de ser acessado pelo Porto Barranquilla – Atlântico.

“Ainda insisto que o projeto dessa siderúrgica deveria ser capitaneado pelo nosso Governo Estadual, mas corre-se o risco de nascer por vias federais. Quero dizer, um projeto coerente e que realmente se alinhe com o que temos,  e precisamos no nosso estado –  e não esta laminadora de U$$ 300 ou 450 milhões anunciada informalmente pela revista Valor”.

Finalizando, ele arremata:

– “Qualquer ideia diferente da rota sinterização, alto-forno, aciaria, lingotamentos e linhas de tarugos e laminados planos , vai nos manter na mesma dependência de grande parte do aço continuar sendo importado da China, impactando negativamente a balança comercial. Precisamos fazer o inverso, ou seja, produzir volume de aço para cobrir todas as nossas necessidades regionais e, se possível for, até exportar. A se aceitar um projeto de U$$ 300 ou 450 milhões para o local da Alpa,  me leva a concluir que, ou a VALE não entendeu que o Estado precisa produzir de imediato tarugos e bobinas num volume maior e a um custo menor só alcançado por uma siderúrgica que utiliza minério e rotas tradicionais ou nosso Governo está aceitando um projeto que não terá sustentação ao longo do tempo, com limitada geração de empregos, desconectado do mercado existente e não irá no fundo fazer a verticalização mineral. E, pior, ainda irá afastar a cooperação com países ou parceiros de envergadura e sérios, a exemplo dos chineses.”

Na imagem originalmente publicada neste blog, local onde seria construída a siderúrgica de Marabá.

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1 Comentário

  1. Luis Sergio Anders Cavalcante

    18 de maio de 2019 - 12:44 - 12:44
    Reply

    A dura e perversa realidade se impõe, para, à princípio, se esclarecer : Nós temos o minerio in natura(bruto) os orientais compram, industrializam e vendem até para nós(Brasil) mesmos. Ou seja, continuamos Pará-Colônia, onde o Estado não consegue traduzir suas riquezas, em benefícios aos parauaras do Sul/Sudeste. 18.05.19, Marabá-PA.

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