Hiroshi Bogéa On line

BrasilisTupinikin

 

 

Com bem humorada crônica sobre o carnaval, a escritora Wanda Monteiro estréia no blog:

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Nação BrasilisTupinikin

(*) Wanda Monteiro

 

 

..Houve um tempo, na Terra hoje chamada Nação BrasilisTupinikin, que por imperiosa vontade do Rei e determinação do Alto Clero, num certo período do ano, todos teriam que fazer jejum da carne. E mais, deveriam ter comedimento e recato (sabe lá se era pra purgar suas culpas ou reverenciar aquele que purgou a culpa por eles). O fato é que todos obedeciam, sobretudo a alta burguesia que queria agradar o Rei. A esse período denominavam de Carnaval = palavra que carregava o peso simbólico de Jejum da Carne.

O tempo foi mudando essa Terra e um belo dia – eu disse belo? (licença poética). Bom, uma certa princesa chamada Izabel teve um raro surto de sanidade mental e decidiu, por livre e espontânea pressão, assinar uma tal lei dando liberdade à genialidade, à sensualidade e ao suingue da cultura negra, bom essa liberdade custou, mas chegou (mas isso já é outra história). O tempo foi passando e as caras e as cores de toda gente dessa Terra mudando…

Mas antes.. foi um tempo de descontentamento e o império, que tinha se instalado nessa Terra sem pedir licença, foi à bancarrota em sentidos inimagináveis e cabeças rolaram… Os republicanos, enfim, venceram pelo cansaço e o que sobrou desse malfadado reino voltou a cruzar os mares.

O tempo foi mudando mais e mais as caras e as cores dessa Terra e…. Deu-se uma pororoca sexual nas veias de toda gente que nessa Terra vivia.. Foi um tal de cruzar os daqui com os de lá, os de lá com os de cá que foram cruzando com os sequestrados de muito lá.. E os filhos desses e daqueles com os dacolá… Foi uma cruzada geral de cores de toda gente e o tempo foi passando..

Eis que, toda essa gente colorida da Terra Brasilis Tupinikin, ignorando, solenemente, as determinações do Alto Clero e os imperiosos motivos de um Rei posto e morto, deram de bradar aos quatro cantos da nação, por meio de um ritual de danças e sob o ritmo de tambores, tamborins, surdos, e mais e mais, que o Carnaval passaria a ser festejado em certo período do ano e teria um novo significado e então decretaram: o “Aval da Carne” e sob esse pretexto, declararam:

– Todos! – pelo menos aqueles que assim desejarem – podem:

Beber todas!

Comer todas! – de todas as cores e de preferência as mais suculentas.

Cantar e dançar!

…e assim festejar o Carnaval.

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(*) – Nascida na cidade de Alenquer, a escritora Wanda Monteiro reside atualmente no Rio de Janeiro.

Como ela mesma se autodefine : “Sou Escritora, uma Amazônida que chegou no Outono, nascendo em Alenquer, às margens de um Igarapé, veia d!água do rio Amazonas. Escrever! Esta é minha sina. Costurar películas de vida vivida, sofrida e sonhada. Deixando um rastro de poesia como testemunho de Mim”.

Na foto, Wanda e o saudoso escritor paraense Benedito Nunes.

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