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A morte de Gabriel Guerreiro

 

 

Gabriel Guerreiro: a morte abreviada  

 

– Lúcio Flávio Pinto

 

A Amazônia foi conectada ao mundo, na metade do século passado, pelo subsolo. A ligação se estabeleceu através de uma pedra preta que o nativo Mário Cruz levou ao coronel Janary Nunes. Primeiro governador do território federal do Amapá, criado em 1943, por desmembramento do território paraense, Janary prometeu recompensas a quem encontrasse amostras de minério. Quando a análise da pedra recolhida por Cruz foi concluída, seu resultado correu mundo: era manganês da melhor qualidade já registrada no planeta.

As duas maiores siderúrgicas do mundo, as americanas United States Steel e Bethelehem Steel, se apresentaram à licitação da jazida de Serra do Navio. A Icomi, do paulista Augusto Trajano de Azevedo Antunes, favorecido pelo governo, levou, mas acabou se unindo à Bethlehem. Sem esmorecer, a USS atravessou o rio Amazonas e passou a pesquisar manganês no Pará. Dez anos depois do primeiro embarque de manganês do Amapá para os Estados Unidos, a Steel localizou a melhor jazida de minério de ferro da crosta terrestre, em Carajás.

Desde então, as revelações de riquezas se sucedem e as minas entram em atividade no Pará, que se tornou o segundo mais importante Estado minerador do Brasil, saindo do nada, em menos de meio século. É uma história recente e pujante, embora dramática e infeliz. Não é de surpreender que uma nova categoria profissional tenha se tornado proeminente, a dos geólogos.

Em plena ditadura, através de uma associação de classe, a Apgam, eles promoveram debates e conferências com entonação crítica, como em nenhum outro ambiente ocorria. Os encontros transcorreram ao longo de todos os anos 1970/80, sem limitações, apesar do acompanhamento atento dos órgãos de segurança. Eles provavelmente se contiveram em função do nível técnico das discussões, porque o tema ainda era restrito aos iniciados e porque os cenários desses acontecimentos eram quase fechados.

Conscientes de sua importância e da relevância dos assuntos nos quais eram especialistas, os geólogos expandiram suas atividades e penetraram em novos recintos. Nenhum foi tão longe quanto Manoel Gabriel Siqueira Guerreiro, um autêntico caboco de Oriximiná, com uma ampla e rigorosa formação acadêmica. Guerreiro continuou sua atividade profissional e associativa, mas pulou a cerca e se estabeleceu na política.

Em quatro décadas de vida pública, se elegeu sete vezes deputado estadual (era o decano da atual legislatura) e uma vez deputado federal, atuando como constituinte. No seu percurso, formou adeptos e conquistou opiniões. Também suscitou controvérsias e críticas. Sempre, porém, sua seriedade foi tomada por premissa. Guerreiro era uma pessoa séria e, ao mesmo tempo, alegre e simpática. Podia-se discutir intensamente – e acaloradamente – com ele, como fiz algumas vezes, sem se perder a ternura. Sempre havia um abraço e um tapinha no rosto para encerrar o duelo.

De repente, ele teve seu mais recente mandato de deputado estadual cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral por abuso do poder. A cassação foi surpreendente – e inconvincente. A acusação tinha por fundamento uma gravação de telefonema dele de intercessão por projeto de manejo florestal em tramitação na Secretaria de Meio Ambiente do Estado.

Os autos não continham o áudio da gravação, feita com a quebra do sigilo telefônico do parlamentar, uma falha formal grave. Mas quem ouvisse a fita sem predisposição poderia constatar que a participação do deputado jamais podia se caracterizar como ilegal, enquadrável no crime eleitoral. A punição do TRE foi excessiva, tanto que reformada pelo TSE, embora sem resolução de mérito.

O Tribunal Superior Eleitoral devolveu a Guerreiro o mandato que o tribunal regional cassou. E certamente confirmaria essa decisão quando fosse apreciar o conteúdo da questão. Mas agora esse procedimento se tornou inútil. Vitima de infarto fulminante, quando estava em plena temporada de férias no Rio de Janeiro, Gabriel Guerreiro morreu no dia 2, aos 74 anos.

Se houve uma relação causal entre a cassação e a morte, nunca se saberá. Mas que não se trata de mera coincidência, não há dúvida. Homem saudável, que cuidava de si e tinha um modo de vida relaxado, Guerreiro parecia predestinado a vida mais longa do que a que o ato político da justiça eleitoral pode ter abreviado.

Mas sem conseguir manchar a biografia de um homem competente, digno, decente e que, na vida pública, procurou beneficiar a população do Estado no qual nasceu e que amou tanto.

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1 Comentário

  1. João Dias

    22 de janeiro de 2014 - 08:55 - 8:55
    Reply

    O DESCANSO FORÇADO DO GUERREIRO

    Merece destaque e, não se pode negar que, os fatos narrados por LFP sobre a trajetória de GG toca cada um de nós.

    Com ressalvas, por oportuno, cabe registrar, o que disse certa vez Artur da Távola, sobre o silêncio da violência jurídica praticada no Brasil: é brutal, se reportando ao caso Panair, quando da ditadura militar.

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