Hiroshi Bogéa (Altamira/PA) – Enquanto o mercado financeiro observa atentamente as cotações do ouro, no coração do Pará, a resistência das comunidades tradicionais escreve um capítulo decisivo na história da Amazônia. Há mais de 12 anos, o projeto “Volta Grande”, da mineradora canadense Belo Sun, caminha a passos largos para se tornar a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, mas o preço dessa empreitada parece recair inteiramente sobre quem sempre cuidou da terra.
O ponto nevrálgico dessa luta hoje atende pelo nome de Acampamento Nova Aliança.
Localizado no “Projeto de Assentamento Ressaca” — criado originalmente em 1999 — o acampamento surgiu como uma resposta direta a uma manobra burocrática e controversa do INCRA.
Em 2022, o governo Bolsonaro celebrou um Contrato de Concessão de Uso (CCU) cedendo 22 lotes de reforma agrária para a mineradora canadense. Qual a justificativa técnica para tal “desafetação” da área? A suposta inexistência de famílias para uso social da terra.
O acampamento Nova Aliança prova, com corpos e vozes, que essa é uma falácia administrativa. As famílias estão lá, e a terra possui uma função social que a mineração predatória ignora.
O gigante de barro e a ameaça ambiental
O projeto Volta Grande não é apenas uma mina; é uma ferida geográfica. Para sua ativação, estão previstas cavas profundas com uma abertura de 4 km de extensão por 400 metros de profundidade.
A destruição de vilas centenárias também faz parte do script.
Para extrair o ouro, a Vila Ressaca, uma comunidade com mais de cem anos de história, precisaria ser desmobilizada.
O espectro de Mariana e Brumadinho também aparece no cenário, porque o projeto prevê a edificação de uma bacia de rejeitos a apenas 1,5 km do Rio Xingu e de comunidades indígenas como a São Francisco, do povo Juruna.
Nessa bacia, o resultado será de proporção alarmante já que para cada grama de ouro extraído, uma tonelada de rejeito é gerada. O medo de um novo desastre ambiental não é alarmismo; é uma lição aprendida a duras penas em outras regiões do país.

A batalha judicial e o silêncio da mídia
Recentemente, a Defensoria Pública da União (DPU) e do Estado (DPE) conseguiram uma vitória na Justiça Federal de Altamira, que decretou a nulidade do contrato que passava os lotes para a Belo Sun. No entanto, em um movimento que gera perplexidade, o próprio INCRA recorreu da decisão em favor da mineradora.
Atualmente, o caso aguarda julgamento no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4). Enquanto o processo corre nos corredores de Brasília e Porto Alegre, o tema permanece em relativo silêncio nos grandes veículos de comunicação nacional.
A luta do acampamento Nova Aliança não é apenas contra uma mineradora; é uma luta contra um modelo de desenvolvimento que vê a Amazônia como um estoque de recursos e ignora seus habitantes. Como dizem os líderes locais, a briga tem dois vieses inseparáveis: a dignidade social de quem produz na terra e a preservação ambiental de um ecossistema que não suporta mais um ataque desse porte.

Milícias Privadas e a Lei do Silêncio
A resistência no “PA Ressaca” não enfrenta apenas a burocracia do INCRA, mas uma estrutura de vigilância ostensiva que, segundo relatos dos acampados, opera com táticas de poder de polícia sem qualquer respaldo legal.
Durante um período crítico, a Belo Sun manteve o contrato com a empresa de segurança privada Invictos. Relatos apontam que a empresa intimidava famílias, proibia a pesca e a coleta de açaí — recursos vitais para a subsistência local — e instalava placas de proibição em áreas de uso comum.
Foi necessária uma ação da Defensoria Pública do Estado, liderada pela defensora Bia Albuquerque Tiradentes, para que a justiça determinasse a retirada das placas e garantisse o direito de ir e vir dos moradores.
O clima de tensão atingiu seu ápice com a prisão de um trabalhador de outro acampamento vizinho, acusado de tentativa de homicídio contra guardas da empresa. A comunidade levanta suspeitas de que o incidente possa ter sido forjado (“armado”) para deslegitimar o movimento.
Após a substituição da empresa Invictos, a estratégia parece ter mudado. Denúncias indicam que a mineradora passou a cooptar e pagar pessoas da própria região para monitorar e intimidar os líderes do acampamento, gerando um conflito fratricida.
Impasse judicial: Reintegração vs. Conciliação
O braço jurídico da Belo Sun também se move com rapidez. Logo após a ocupação do lote e a consolidação do Acampamento Nova Aliança, a mineradora ingressou com uma ação de reintegração de posse na comarca de Senador José Porfírio.
O desdobramento mais recente, no entanto, traz uma fresta de diálogo: o processo foi encaminhado para a Comissão de Resolução de Conflitos do Tribunal de Justiça, que tentará uma audiência de conciliação. Para os acampados, essa é a oportunidade de provar que a terra cumpre sua função social nas mãos das famílias, e não como um canteiro de obras para o capital estrangeiro.
A luta das comunidades do Rio Xingu permanece sob a sombra de um gigante canadense e a omissão de órgãos que deveriam proteger a reforma agrária. Enquanto o julgamento no TRF4 não ocorre, a resistência no chão de terra é o que mantém a floresta de pé e a Vila Ressaca viva.
“Nossa briga é dupla: pela dignidade de quem produz e pela preservação de um ecossistema que não suporta mais esse ataque”, desabafa Amilson Cardoso, liderança do Acampamento Nova Aliança.

Ouro de sangue: a resistência contra o Projeto Belo Sun
Na região da Volta Grande do Xingu, em Altamira, a promessa de progresso brilha com o reflexo do ouro, mas projeta sombras profundas sobre aqueles que secularmente protegem a floresta. O projeto da mineradora canadense Belo Sun, que visa estabelecer a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, avança a passos largos, ignorando um ecossistema que já respira com dificuldade sob o peso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
Um dos pilares fundamentais na defesa deste território e de seus povos é o trabalho da procuradora-chefe Substituta, Thais Santi Cardoso da Silva, do Ministério Público Federal (MPF) em Altamira. Seu trabalho técnico e investigativo foi crucial para desnudar a realidade ambiental da região.
Taís Santi realizou um mapeamento detalhado da situação do Rio Xingu, documentando como os impactos de Belo Monte já alteraram drasticamente o fluxo hídrico e a vida das comunidades.
Impactos e riscos ao ecossistema do Xingu
O mapeamento detalhado encomendada pela procuradora federal Taís Santi demonstra como a construção da Usina de Belo Monte já alterou drasticamente o regime hídrico e a saúde do Rio Xingu.
De acordo com o MPF, a região da Volta Grande do Xingu já atingiu o seu limite ambiental, não suportando a instalação de qualquer novo empreendimento, seja ele de mineração ou ampliação hidrelétrica.
Existem espécies de peixes no Rio Xingu que são encontradas exclusivamente no trecho da Volta Grande e que já estão em processo de desaparecimento devido às mudanças causadas pelos grandes projetos.
O MPF manifestou-se formalmente contra o projeto da mineradora Belo Sun por considerar que os riscos ambientais são incompatíveis com a fragilidade atual do ecossistema.
A resistência enfatiza que o custo do projeto recai sobre formas de vida que não podem se defender, gerando uma perda irreparável da biodiversidade amazônica.
O Preço da Extração
A resistência das comunidades tradicionais não é apenas uma luta por terra, mas uma luta pela vida. O ecossistema da Volta Grande é único e abriga espécies endêmicas que correm risco real de extinção.
Como exemplo, existem espécies de peixes no Rio Xingu que só podem ser encontradas no trecho da Volta Grande e que já estão desaparecendo devido às mudanças no rio.
O custo dessa empreitada recai inteiramente sobre os ombros dos ribeirinhos e indígenas, que veem seu modo de vida, sua segurança alimentar e sua conexão espiritual com o rio serem ameaçados pela mineração em larga escala.
A mensagem das comunidades e do MPF é clara: a exploração mineral não pode ser legitimada sobre o “ecocídio” (expressão usada pela procuradora Taís) de um dos trechos mais vitais da Amazônia. A preservação da Volta Grande é, hoje, o maior símbolo de resistência contra um modelo de desenvolvimento que silencia a natureza em nome do lucro.
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Na edição de amanhã, o portal Hiroshi Bogéa On Line continuará narrando os problemas causados pela exploração de mineração no rio Xingu, em Altamira, publicando reportagem sobre a atual situação do processo judicial e o risco do uso de cianeto no processo de lavagem do ouro.



