Lideranças do residentes no entorno do Pedral do Lourenção articulam pacote de mitigação que inclui reforma agrária, fomento agrícola e saúde para compensar as obras de derrocagem.

Hiroshi Bogéa  –   No coração do Rio Tocantins, o tom não é apenas de resistência, mas de estratégia.

No último dia 22 de janeiro de 2026, as comunidades ribeirinhas que compõem o Território do Pedral do Lourenção deram um passo decisivo em direção à salvaguarda de seu futuro. Em uma reunião técnica e política, lideranças locais, acadêmicos e especialistas consolidaram o documento que detalha as compensações exigidas pela implementação da Hidrovia Araguaia-Tocantins.

A Luta pela Identidade no Rio

A intervenção no Pedral do Lourenção é vista pelo setor logístico como um marco para o escoamento de grãos e minérios, mas para quem vive nas margens, o cenário é de incerteza. O professor Iriw Atikum, uma das vozes mais ativas no debate, ressaltou que o projeto não pode ser lido meramente como uma “obra de engenharia”.

“As culturas correm o risco de destruição e as fontes de renda serão atingidas”, alertou Atikum.

O argumento central é de que a alteração do leito do rio desestrutura a economia tradicional e a identidade cultural. O suporte técnico de instituições como o IFPA Rural Marabá e a UNIFESSPA reforça o embasamento jurídico das comunidades para exigir o cumprimento de direitos previstos no licenciamento ambiental.

As Exigências: Além do Assistencialismo

Diferente de pedidos genéricos, a minuta aprovada por unanimidade no encontro estabelece itens concretos para garantir a autossuficiência das famílias. As nove comunidades envolvidas (como Limão, Jatobá Ferrado e Porto Novo) focam em três pilares principais:

  • A aquisição de 50 alqueires por comunidade e uma indenização mensal de nove salários mínimos por família, visando mitigar a perda das áreas de pesca e coleta.

  • Um robusto plano de mecanização agrícola, incluindo retroescavadeiras para piscicultura e caminhões para o escoamento da produção, com garantia de manutenção por cinco anos.

  • A institucionalização da Educação Escolar Ribeirinha e a infraestrutura de saúde com veículos e barcos tipo “voadeiras” para transporte de emergência.

Gestão e Autonomia

Um ponto de destaque na proposta é o repasse mensal de R$ 200 mil para cada associação comunitária. A medida visa dar autonomia às populações tradicionais para que elas mesmas gerenciem os investimentos locais, rompendo com a dependência histórica de repasses governamentais morosos.

O coordenador dos debates, Jaime, sinalizou que o cronograma agora entra em uma fase institucional. O documento será apresentado à Secretaria de Saúde do Estado do Pará (SESUPA) e outros órgãos competentes para alinhar a execução das exigências. Este documento é a peça-chave para que o licenciamento ambiental da derrocagem avance, mas desta vez, sob as condições estabelecidas por quem conhece o rio como ninguém.