Hiroshi Bogéa –  O brasileiro encara a virada do ano não como uma mudança de calendário, mas como um treinamento de sobrevivência de elite. Tudo começa com a superstição. Somos um povo racional até chegar o dia 31; aí, de repente, ninguém ousa passar a meia-noite sem uma cueca amarela (para o dinheiro) ou rosa (para o amor).

O resultado é uma nação inteira vestindo cores primárias por baixo do linho branco, parecendo um comercial de marshmallow que deu errado.

Na praia à noite, o tal momento das sete ondas é cheia de nó pelas costas. Você entra no mar com a dignidade de um herói grego e sai de lá parecendo um croquete à milanesa, com areia em lugares que a anatomia humana sequer mapeou.

E a ceia? A ceia de Ano Novo é o único lugar onde o arroz com passas — esse vilão incompreendido — tenta sua última cartada. Temos também a lentilha, que prometem trazer riqueza. Se a quantidade de lentilha que eu comi nos últimos dez anos funcionasse, eu não estaria escrevendo isso; estaria comprando o Twitter apenas para deletá-lo.

Mas o auge é sempre a contagem regressiva. É o único momento do ano em que dez segundos parecem durar uma eternidade e, ao mesmo tempo, ninguém sabe a hora exata. No prédio da frente o rojão estoura, na sua TV o animador do programa  ainda está rindo, e no rádio do vizinho o locutor já está gritando “Daqui a pouco tem Feliz 2026″…

Por que a gente faz isso?

No fim das contas, a gente se abraça. Abraçamos o primo que não vemos desde o último Natal, o vizinho que reclama do nosso cachorro e até o estranho que está do lado na calçada. Prometemos que “este ano a dieta sai”, que “vou aprender mandarim” e que “finalmente vou organizar minhas planilhas”.

Sabemos que dia 2 de janeiro estaremos todos presos no trânsito, comendo o resto do pernil e ignorando a academia. Mas a magia do Ano Novo é justamente essa amnésia coletiva. É o direito humano de acreditar, por cinco minutos, que o universo vai zerar o placar só porque a Terra deu mais uma volta no Sol.

A virada do ano é o único momento da vida em que o ser humano acredita piamente que o simples passar de um ponteiro sobre um número zero vai operar o que dez anos de terapia e três promessas  no Círio de Nazaré ou em Aparecida do Norte não conseguiram. É um delírio coletivo fascinante.

Olhamos para trás e vemos que debulhamos os meses como quem separa o milho da espiga — um grão de cansaço aqui, um punhado de riso ali, e a sensação de que o tempo, esse mestre soberano, não corre; ele voa com a pressa de quem tem lugar marcado.

2025 foi denso. Como todo ano de “meio de década”, ele nos exigiu certa gravidade.

 

 

Desejo que brota

Vivemos o peso dos dias, onde os valores fundamentais do ser humano vivem sob ataque, a pressão das telas e a correria de um mundo que insiste em girar mais rápido do que o nosso coração consegue bombear. Por isso, ao avistarmos a linha de chegada, o desejo que brota não é por grandes pirotecnias ou promessas hercúleas. O que a gente quer mesmo é o avesso do ruído.

Debulhar o ano é também um ato de limpeza. É deixar a palha para trás e levar para o celeiro de 2026 apenas o que é semente boa. Se o mundo lá fora insiste no caos, que o nosso “cancioneiro” particular seja feito de notas de paz.

Que a gente aprenda com a batida do Lenine que a beleza está na mistura, no encontro do orgânico com o eletrônico, da tradição com o novo.

Que 2026 seja essa ponte: menos grito, mais canto; menos pressa, mais passo.

O otimismo do Ano Novo é a prova de que a humanidade tem um “reset” automático no coração. É a nossa capacidade de olhar para um calendário em branco e dizer: – “Dessa vez, eu não vou esquecer a senha do Wi-Fi da felicidade”. Se a gente não tivesse essa ilusão anual, a vida seria apenas uma sucessão de segundas-feiras sem confete.

Que o próximo ciclo venha sem o peso das armaduras, vestindo apenas a leveza de quem sabe que o tempo é um presente, e não um castigo.

Então, que venha 2026! Que as ondas sejam baixas, que a cueca amarela funcione e que, se for para passar vergonha, que seja com um copo na mão e gente querida por perto.

Vivam um Ano Novo em paz!