Esta é uma história sobre as estradas que nos separam e as humanidades que nos unem. Um relato de quando o asfalto cedeu lugar à solidariedade em um dos momentos mais incertos da nossa história recente. Eu de um lado; e um bolsonarista convicto, do outro. O texto é uma homenagem a Albertino Santis, o Magal – falecido em 3 de junho de 2021, vítima de COVID.
Hiroshi Bogéa – Março de 2020. O mundo parecia estar dobrando os joelhos diante do invisível. O estado de emergência da Covid-19 transformava cidades em desertos e rodovias em palcos de incerteza. Eu cortava o asfalto de Belém rumo a Marabá, levando comigo o que havia de mais precioso: meu filho Gabriel, um pequeno passageiro de dois anos e cinco meses, devidamente ancorado em sua cadeirinha no banco traseiro.
Éramos só nós dois e o silêncio tenso de uma pandemia que começava a mostrar os dentes.
Ao atingir a rotatória da Alça Viária, no entroncamento da PA-483 com a PA-151, o fluxo estancou. O cenário era o samba do Billy Blanco: quem estava fora não entrava, quem estava dentro não saía. Caminhoneiros, rebelados contra o que viria a ser o chamado lockdown e toque de recolher, haviam transformado a rodovia em um muro de ferro e pneus.
Olhei pelo retrovisor. Gabriel, ora entregue ao sono pesado da infância, ora choramingando o estresse de estar enclausurado no metal do carro. A decisão parecia óbvia: retornar os 24 km até o Porto do Arapari e pegar a balsa de volta para a capital.
Mas o destino, ou a providência, bateu no meu vidro.
Era Albertino Santis, o “Magal”. Figura conhecida de Marabá, cartorário de pulso e opiniões fortes. — Pra onde você está indo com essa criança aí atrás? — perguntou, a preocupação vincando sua testa. Quando expliquei minha intenção de recuar, ele foi taxativo: a saída para o Arapari acabara de ser bloqueada também. Estávamos ilhados.
Magal, então, traçou uma rota de fuga: um caminho por dentro do Acará, cruzando terras de chão até alcançar a PA-150, em Tailândia.
“Vem atrás de mim”, disse ele. O convite era um teste de nervos. Magal estava em uma Hilux, alta, traçada, feita para o domínio do interior. Eu, no meu Lancer, sentia cada milímetro do chão como uma ameaça. Quando saímos da rodovia principal para pegar o atalho sentido Acará, a realidade mudou de cor.
À nossa volta, o “inverno paraense” não pedia licença. O céu desabou em uma tempestade de ventos e relâmpagos que transformou a estrada vicinal em um sabão avermelhado.
O asfalto deu lugar a uma via precária, uma cicatriz de terra vermelha que serpenteava entre a mata. Ainda era época de inverno, e o solo do Pará nessa estação não é terra; é uma massa viva e traiçoeira. O carro baixo sofria. Eu ouvia o cascalho batendo no assoalho, o barulho seco do metal raspando em ondulações que para a caminhonete de Magal eram invisíveis, mas para mim eram abismos.

A estrada virou um sabão. O Lancer dançava lateralmente, a direção leve demais, o perigo de um capotamento ou de um atoleiro definitivo rondando cada curva.
A certa altura, a visibilidade era zero. Parei o carro em uma entrada de fazenda, o coração batendo no ritmo dos trovões. O limpador de para-brisa lutando inutilmente contra a cortina de água.
No banco de trás, exausto e assustado com o clarão dos raios, Gabriel desabou no choro. Saí do meu posto de motorista e me enfiei no banco de trás. Ali, naquele cubículo de aço cercado por lama e tempestade, comecei a cantar. Era uma cena surreal: um pai tentando manter a sanidade de uma criança com canções de ninar, enquanto o mundo lá fora parecia uma revolução.
Achei que Magal tivesse seguido. Afinal, quem esperaria um carro baixo em meio a um dilúvio? Mas quando a chuva deu uma trégua e eu ameacei sair, vi o brilho dos faróis. A caminhonete estava ali, parada a dez metros, vigiando meu atraso.
Quando nos emparelhamos para retomar o caminho, baixei o vidro. O ar estava úmido, cheirando a terra molhada. Agradeci pela espera, surpreso com tamanha paciência. Foi quando Magal, com o braço apoiado na janela, soltou a frase que desarmou qualquer preconceito:
— Cara, você está com uma criança. Eu não esqueço que você tem suas restrições em relação à minha pessoa, mas somos marabaenses, do mesmo lugar, crescemos juntos. Vamos chegar juntos em Marabá.
Aquelas palavras pesaram mais que a tempestade. Eu sabia exatamente do que ele falava. Nas redes sociais, éramos dois estranhos em lados opostos de uma trincheira ideológica. Eu via suas postagens como o suprassumo de um conservadorismo que eu julgava arrogante; ele certamente me via com as lupas de suas próprias convicções. No tribunal do Facebook, éramos réus um do outro.
No tribunal digital, éramos distantes por um abismo ideológico.
Mas a estrada real é diferente da estrada virtual. Na lama da PA-483, não havia direita ou esquerda; havia apenas dois conterrâneos e uma criança. Magal não foi o “bolsonarista radical” naquele dia; foi o guia que não deixou ninguém para trás.
A crônica daquele março me ensinou que, sob a crosta das nossas certezas políticas, ainda pulsa algo mais antigo e necessário: a vizinhança. No final das contas, na vida, quase nada é o que parece ser no brilho frio de uma tela de celular.
Magal cumpriu a promessa. Só me deixou seguir sozinho quando o pior já tinha passado, depois de Jacundá. Ele não salvou apenas a minha viagem; ele salvou a minha percepção sobre o próximo. Aprendi que a vida real tem nuances que o algoritmo das redes sociais jamais será capaz de captar. Sob a capa do “adversário”, às vezes, há um guia esperando por você na chuva.




JOSE RIBAMAR SILVA JUNIOR
9 de janeiro de 2026 - 05:58Parabéns pelo texto