Dizem que o medo tem som de madeira estalando. Em Marabá, nos meus dez anos de idade, esse som atendia pelo nome de Professora Felipa.
Nome civil, Felipa Serrão Botelho.
Ela não era apenas uma educadora; era a autoridade máxima em um território onde a gramática e a tabuada eram fronteiras vigiadas por uma sentinela de olhar severo e mão firme.
Naquele tempo, a palmatória não era uma peça de museu, mas um instrumento pedagógico de terror. Um erro de concordância ou um tropeço na multiplicação de sete resultava no ritual coreografado: o aluno estendia a palma, o ar se comprimia e o estalo seco ecoava pela sala, selando o destino do indisciplinado ou do “lento”.
Lembro-me como se fosse hoje do desafio: uma redação sobre Francisco Coelho, o fundador da nossa cidade, na época eu devia ter uns 10 anos. Escrever sob o olhar de Felipa era como caminhar em um campo minado. Eu terminei o texto com os dedos rígidos, o coração disparado e as pernas que, como diz o ditado, “tremiam que nem vara verde”.
Entregar aquele papel na mesa dela era um ato de coragem. O medo não era apenas da crítica literária; era o temor físico de que a qualidade do meu texto fosse medida pela dor na palma da mão.
Dias depois, veio o acerto de contas. Vi colegas, um a um, serem chamados ao tribunal da mesa. O estalo da madeira e o choro contido eram a trilha sonora da tarde. Eu e mais uns cinco fomos poupados. O alívio, naquela época, tinha um gosto metálico de sobrevivência.
O Reencontro na Praça
A vida dá voltas que nem as águas do Tocantins. Décadas depois, já adulto e jornalista de profissão, o destino me colocou frente a frente com o fantasma da minha infância em uma praça de Marabá. Mas o fantasma tinha envelhecido. A professora Felipa, agora frágil e de cabelos brancos, não carregava mais a palmatória, mas sim uma memória de elefante.
O abraço que recebi foi carregado de um orgulho que eu nunca imaginei que ela nutrisse. Para as amigas que a acompanhavam, ela me apresentou como um troféu:
”Esse aqui nasceu para ser jornalista e escritor. Até hoje tenho guardada a redação dele sobre a fundação de Marabá!”, disse ela.
Ali, entre o calor da tarde e a nostalgia, ela revelou o segredo. Minha redação, que ela guardava entre seus apetrechos de memórias, a tinha impressionado não apenas pelo “início, meio e fim”, mas por um detalhe que saltou aos olhos da velha mestra: eu havia descrito, com precisão de cronista, como os proeiros de Francisco Coelho manuseavam as varas para empurrar o batelão zingrando o Tocantins.
Curioso — e talvez o que define o nascimento de um cronista— é que eu nunca tinha visto um batelão na vida, nem em desenhos em nanquim da família Morbach, estes extraordinários artistas que consagraram visualmente aqueles tipos de meios de transportes.
Aquelas embarcações pesadas, movidas a suor e força bruta antes da era dos motores, só existiam na minha imaginação alimentada pelas histórias ouvidas. Eu tinha “visto” o esforço dos homens no rio através da tinta da minha caneta.
Pedi a professora Felipa uma cópia. Queria tocar o papel que me salvou da palmatória, queria ver o registro do momento em que minha vocação foi selada pelo medo e pelo talento. Ela prometeu. No entanto, o tempo, esse mestre ainda mais rígido que Felipa, não permitiu o reencontro do autor com sua obra prima de infância. Ela partiu pouco tempo depois, levando consigo o manuscrito original.
Hoje, não tenho o papel amarelado em mãos. Mas guardo a lição: a rigidez de Felipa, que tanto nos assustou, era o seu modo bruto de polir pedras brutas. A palmatória ficou no passado, banida como deve ser, mas o reconhecimento na voz da velha professora eternizou em mim a certeza de que, naquele dia de tremor e batelões imaginários, eu realmente havia encontrado o meu caminho.
Na imagem destacada, rara imagem de um tipo de batelão com seus proeiros que zingravam os rios do país. No flagrante, batelões do rio São Francisco. (Foto: Internet/Reprodução)
—————-
Nota do Blog sobre a memória de Felipa Serrão Botelho.
A editoria deste blog informa que, apesar de uma busca criteriosa em diversos acervos e fontes de pesquisa, não foi possível localizar um registro fotográfico da professora Felipa Botelho para ilustrar esta publicação com o devido apelo.
A ausência de registros históricos acessíveis reflete uma lacuna na preservação da memória digital de nossa cidade. Felipa Botelho foi uma figura central na formação educacional de gerações de marabaenses, e sua trajetória merece ser devidamente documentada e visualizada.
Ressaltamos a importância de uma intervenção da Casa da Cultura de Marabá, ou de entidades congêneres, para que sejam realizados esforços de recuperação de arquivos físicos; e Informações e imagens dessa personagem histórica, como de outras esquecidas, sejam digitalizadas e disponibilizadas ao público.
A memória daqueles que construíram os alicerces educacionais da nossa região requer sua preservação para as futuras gerações.
Contamos com a colaboração de nossos leitores: Caso você possua fotos, documentos ou relatos sobre a professora Felipa Botelho, entre em contato conosco para que possamos enriquecer este registro.



