Antes de começar, começando: assistir ao vídeo que publico neste post, mostrará a vocês o quanto a vida é bela, significante e espetacular. O vídeo foi editado por mim com recortes de registros do dia a dia do nosso personagem. 

 

 

No coração do Maranhão, onde o sol não pede licença e a terra guarda segredos ancestrais, vive Pedro Martins. Para muitos, apenas um senhor centenário; para os que o cercam com carinho, o “Vovô Bibitok”.

Aos 107 anos de idade, Pedro não é um homem que espera o tempo passar na cadeira preguiçosa; ele é o próprio tempo em movimento, cadenciado pelo casco do seu burro “Zé Leitão” e pelo estalo do coco que se abre. O vídeo nos revela uma cena de pureza quase esquecida. De chapéu de palha bem assentado, protegendo a sabedoria de mais de um século, e camisa aberta ao vento, ele caminha com a leveza de quem nunca carregou o peso das ansiedades modernas.

Nas redes sociais, ele se transformou na atenção geral de mais de 2 milhões de seguidores no Tiktok, e mais de 1,3 milhão no Face e Instagram, perfis criados pela sua dedicada e carinhosa bisneta Eduarda, a Duda, idealizadora e geradora de conteúdos para o projeto “Vovô Bibitok”.

Como sou um dos seguidores de Vovô Bibitok, quase diariamente assisto, encantado, aos vídeos reveladores do dia a dia da família no longínquo  povoado de Pindura Saia, localizado no município de Satubinha, próximo à cidade de Bacabal, a cerca de 280 km de São Luís.

Fico imaginando o farto material humano e jornalístico que se pode recolher vivenciando pelo menos três dias ao lado dele, acompanhando-o nas idas e vindas pra buscar coco babaçu no mato, sentar tomando café para uma boa troca de prosa, nada paga um momento desse. Essa a razão motivadora de uma viagem que devo fazer até Pindura Saia, para conhecer Pedro Martins.

Neste final de semana, acho que sábado, a bisneta de Vovô Bibitok levou-o às pressas para um hospital próximo do povoado onde moram. Ele passou mal e teve que ser internado, mas foi apenas um susto.

Ao ver um vídeo de Duda mostrando seu Pedro tristonho no leito da clínica, tomando soro, deu nó em minha garganta e receio de que estivéssemos perdendo nosso personagem extraordinário.

Mas Pedro já está firme e lúcido em sua casa, recebendo visitantes de todo o lugar do Brasil, ansiosos para conhecê-lo. Aliás, este é um registro necessário: a vida centenária e pulsante de Pedro Martins vem formando uma roda-viva de curiosos ávidos em abraça-lo, encantados com o seu modo de viver. Diariamente, viajantes passam pela localidade e fazem questão de dar uma paradinha de celebração.

Espetáculo de vida

É impossível não se emocionar com o Vovô Bibitok. Ele é a prova viva de que a “riqueza” é um conceito que a gente, na pressa da cidade, desaprendeu completamente. É gostosa a sensação de vê-lo atravessar o tempo com tanta leveza.

Existem vídeos que a gente assiste com os olhos, e existem vídeos que a gente assiste com a alma. Quando as imagens de Pedro Martins surgem na tela, o mundo ao redor parece pedir licença para silenciar. Aos 107 anos, ele não está apenas caminhando pelo interior do Maranhão; ele está dando um passeio pela história, carregando o tempo no bolso com a naturalidade de quem colhe um fruto no pé.

O que me faz o coração bater mais forte, em um ritmo quase de oração, não é apenas a sua longevidade estatística. É a sua grandeza mansa. Ver esse senhor centenário, de mãos calejadas e chapéu de palha, conduzindo seu burro “Zé Leitão” na coleta de coco babaçu, é um choque de realidade na nossa cultura do “agora”, do cansaço crônico e do consumo vazio.

​Vovô Bibitok é um mestre sem diploma. Sua aldeia, seu universo particular, é onde ele exerce a soberania da simplicidade. Enquanto o mundo se debate em algoritmos e ansiedades, ele se ocupa do que é essencial: o passo firme sobre o mato, o trato com os bichos, a lucidez de quem sabe exatamente quem é.

Ele não conhece o mundo além das fronteiras de sua vila, mas parece conhecer todos os segredos do que significa estar vivo.

​Há uma dignidade profunda na sua humildade. Ele não precisa de palcos, mas sua presença é monumental. Assistir a ele é como beber água direto da fonte; é um lembrete de que a felicidade não mora no acúmulo, mas na harmonia com o próprio destino.

​Fico encantado porque ele personifica a resistência. Não uma resistência agressiva, mas uma resistência doce. Ele resiste ao esquecimento, resiste à fragilidade e, principalmente, resiste à tristeza. Há uma alegria silenciosa em seu semblante, uma paz de quem cumpriu — e continua cumprindo — seu papel na engrenagem da natureza.

​Quando vejo o Vovô Bibitok, sinto que minha própria vida ganha um novo fôlego. Se ele, com mais de um século de caminhada, ainda encontra motivos para se levantar e trabalhar com essa disposição, quem somos nós para nos sentirmos pequenos diante dos obstáculos?

 

​Um Patrimônio da Humanidade

​Pedro Martins é um monumento humano. Ele nos ensina que a verdadeira luz não vem dos refletores, mas da transparência de um coração que nunca se deixou corromper pela pressa do mundo. Ver seus vídeos é um exercício de gratidão e uma lição de que o tempo, quando bem vivido, não é um inimigo, mas um companheiro de jornada.

​Vida longa ao Vovô Bibitok, o homem que, sem sair de sua aldeia, ensina ao mundo inteiro o que é, de fato, ser gigante. (Fotos e vídeo: Reprodução)