Hiroshi Bogéa – Olhar esse vídeo é como ver um fantasma da minha própria infância dando um mortal para trás e caindo em pé no meio do Rio Tocantins. Que pancada de saudade!
Nos anos 60, Marabá era uma “menina” de 18 mil habitantes, segundo registros históricos do IBGE. A gente se conhecia pelo apelido e o rio era o nosso playground particular. Eu, moleque, não esperava o Papai Noel; eu esperava era o inverno. Não pelo frio, que aqui a gente mal sabe o que é, mas pela cheia.
Quando o Tocantins resolvia subir e abraçar a cidade, era o sinal de que a temporada de traquinagens aquáticas estava oficialmente aberta.
Nossa arena era o cais. E o regulamento? Não existia. O desafio era ver quem tinha o peito mais estufado de coragem. A gente subia nos pés de manga mais altos da ribanceira, aqueles que pareciam querer tocar o céu antes de se curvarem sobre a água. Dali, o mundo era pequeno e o mergulho era infinito.
Se não fosse o pé de manga, eram os barcos. Ah, aquelas embarcações enormes, cheirando a floresta, carregadas até a borda com castanha-do-pará, prontas para a longa jornada até Belém. A gente usava o convés como trampolim. Era um “tchibum” atrás do outro, entre um carregador e outro que gritava com a gente — mas a gente sabia que, no fundo, eles também queriam pular.
(Vídeo copiado do @fagner.f7 )
Mas o ápice, o “Oscar” da molecagem, era o salto mortal. A gente tomava uma distância calculada, o pé descalço estalando no chão quente, o coração batendo na garganta e… Tchibum!!!!
Uma corrida intensa, um impulso certeiro e o corpo girava no ar como se a gravidade tivesse tirado folga. Naquele segundo entre o céu e o rio, a gente era dono de Marabá inteira.
Hoje, vejo esses meninos no vídeo, correndo e saltando da orla moderna, e um filme em preto e branco (mas com som de risada colorida) passa na minha cabeça.
Meus filhos? Criados no asfalto, no ar-condicionado, em mundos cosmopolitas onde o perigo é a bateria do celular acabar. Eles não sabem o que é sentir o cheiro do Tocantins subindo pelo nariz depois de um mergulho mal calculado. Viveram tempos diferentes, seguros, mas talvez um pouco menos… “voadores”.
Dizem que o rio nunca é o mesmo, e a gente também não. Mas, vendo esse vídeo, percebo que o espírito de Marabá continua lá: teimoso, corajoso e sempre pronto para um mergulho. (Foto: Reprodução / Internet)



