Hiroshi Bogéa – Este é um momento que exige uma análise afiada sobre o papel da grande mídia na manutenção de estruturas de poder históricas no Brasil. O editorial do jornal O Globo desta terça-feira, 24, é um exemplo clássico de como a narrativa do “progresso” é frequentemente utilizada para silenciar direitos fundamentais.
O editorial é um lembrete incômodo de que, para certos setores da elite econômica brasileira, a preservação ambiental e a soberania indígena são meros obstáculos ao escoamento de safras. Ao classificar a revogação do Decreto 12.600 como uma “conivência com atos violentos” e “ceder a chantagens”, o veículo não apenas distorce a realidade, mas criminaliza a legítima resistência dos povos originários.
A tentativa de privatizar os rios amazônicos através de concessões de hidrovias nunca foi sobre logística sustentável; foi sobre a entrega de bens comuns ao controle privado. Ao fustigar o governo pela revogação da medida, O Globo reafirma seu papel histórico como porta-voz do agronegócio predatório, ignorando que rios são territórios.
Para os povos indígenas, as águas não são apenas “vias de transporte”, mas parte vital de sua cosmologia e subsistência.
O uso do termo “chantagem” para descrever a mobilização indígena é uma tática retórica perversa. Ela inverte a lógica do conflito: transforma o agredido (os povos que veem suas terras ameaçadas) em agressor, e o Estado (que tem o dever constitucional de proteger essas terras) em uma vítima de “grupos radicais”.
Enquanto o editorial fala em “atos violentos”, silencia sobre a violência estrutural do avanço das fronteiras agrícolas e do garimpo sobre as terras demarcadas.
Ao priorizar o lucro das tradings de grãos em detrimento da autonomia dos povos da floresta, O Globo demonstra que sua visão de desenvolvimento parou no século XX.
A revogação do decreto não é um erro político, mas um ato necessário de reparação e bom senso ambiental. Defender a privatização dos rios da Amazônia em 2026 não é jornalismo econômico; é a manutenção de um projeto colonial que insiste em ver o Brasil como uma fazenda de exportação, ignorando as vidas que nela habitam. (Foto: Reprodução)



