BELÉM (PA) – No coração da Amazônia, onde o rio encontra a floresta, o “ouro branco” das seringueiras está ganhando novas formas, cores e propósitos. O que antes era apenas matéria-prima bruta para a indústria da borracha, agora se transforma em joias orgânicas e biomateriais de alta costura nas mãos de um grupo de mulheres que decidiram ressignificar a moda sob a ótica da conservação.
Fundada em 2009 pela artesã Kátia Fagundes, a empresa Da Tribu tornou-se um símbolo de bioeconomia circular. O negócio não apenas produz acessórios como colares, pulseiras e brincos, mas sustenta uma cadeia produtiva que mantém a floresta em pé e garante a dignidade de famílias tradicionais em Belém e no Marajó.
O Ciclo da floresta: do “risco” ao ateliê
A jornada de cada peça começa muito antes de chegar às vitrines. Na Ilha de Cotijuba, Manoel Barros, o “Seu Bacu”, de 66 anos, comanda a extração. Com quase 200 árvores em seu terreno, ele e sua família praticam o “riscar” — o corte preciso no caule da seringueira para que o látex escorra.
O ritmo é ditado pela natureza: a coleta começa às 5h15; e a saída para o campo ocorre às 6h30.
O grupo extrai entre 25 e 29 litros de látex diariamente.
“Essa atividade representa uma renda a mais para o orçamento da minha família”, conta Seu Bacu. Após a coleta e a filtragem inicial (crivagem), o líquido é levado em tonéis para o ateliê de Kátia, em Belém.

Tecnologia social e alquimia orgânica
No ateliê, o látex passa por um processo rigoroso de beneficiamento. Para evitar a coagulação espontânea e garantir a durabilidade, a seiva é filtrada e cozida a 65°C por seis horas. É nessa fase que a “mágica” da pigmentação acontece, utilizando tintas de tecido para criar tonalidades vibrantes que remetem à biodiversidade amazônica.
A técnica de confecção é minuciosa. As artesãs banham fios de algodão no látex colorido de forma manual. “É como se estivesse encerando uma linha de pipa. Você passa o látex, espera secar e repete o processo em várias camadas”, explica a artesã Suelen Belém. O resultado são fios emborrachados únicos, que também servem de base para biomateriais usados em tecidos de mochilas e mobiliário, exportados para marcas nacionais e internacionais.
Empoderamento e ancestralidade
Para Kátia Fagundes, o lucro é indissociável do propósito social. O nome da empresa é uma homenagem aos seus filhos — Moahra, Kauê e Tainah —, cujos nomes indígenas refletem a conexão com a terra.
Atualmente, o grupo é formado por dez mulheres, muitas das quais se tornaram as principais provedoras de seus lares através do artesanato.
O projeto atua em comunidades como Paulo Fontelles (Mosqueiro) e Pedra Branca (Cotijuba).
A iniciativa conta com o suporte de programas como Jornada Amazônia e o Fundo Vale.
Para Suelen Belém, de 34 anos, o trabalho é também um resgate histórico. Filha e neta de seringueiros, ela vê na Da Tribu a chance de honrar o passado enquanto constrói um futuro sustentável. “A gente se sente reconhecida e orgulhosa de mostrar nossa ilha pelo trabalho”, afirma.

O Futuro é a floresta em pé
A visão da Da Tribu desafia a lógica da exploração predatória. Como define a própria fundadora, a preservação ambiental depende diretamente da valorização humana.
“A floresta só permanece em pé se houver pessoas que vivam e consigam se sustentar dela”, conclui Kátia Fagundes.
Na foto destacada, um dos grupos de artesãs que vivenciam a Da Tribu. ( Foto: Marcus Passos/g1 Pará)
Com informações do repórter Por Marcus Passos.



