Hiroshi Bogéa –  A formalização do curso de Medicina na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), selada nesta sexta-feira, 27,  pelo ministro Camilo Santana, não é apenas uma vitória burocrática ou um acréscimo estatístico ao sistema educacional brasileiro. É, acima de tudo, um ato de reparação histórica e uma aposta estratégica no potencial do interior do país.

Por décadas, o “Brasil profundo” exportou talentos e importou carências; hoje, Marabá deve começar a escrever um roteiro de autossuficiência.

O impacto de uma faculdade de medicina em uma universidade pública federal vai muito além das salas de aula. Ele altera o DNA da assistência básica e especializada.

Quando o ambiente acadêmico se funde ao sistema de saúde local, o que vemos é uma “oxigenação” dos hospitais e postos de saúde. Onde antes havia apenas o atendimento mecânico, passa a existir o rigor da investigação científica, a atualização constante de protocolos e o olhar atento da extensão universitária sobre as patologias que afligem a nossa gente.

A Medicina na Unifesspa não é apenas sobre formar médicos; é sobre fixar raízes e humanizar o desenvolvimento regional.

O benefício transborda os limites geográficos de Marabá.

Ao consolidar-se como um polo formador, a cidade torna-se o farol para o Sul e Sudeste do Pará, alcançando as fronteiras do Tocantins e do Maranhão. Essa integração interestadual é vital. Reduzir a dependência de capitais distantes — como Belém, Palmas, Teresina ou São Luís — é garantir que o tempo de resposta entre o diagnóstico e a cura seja encurtado para milhares de famílias.

Contudo, o entusiasmo do anúncio deve ser acompanhado pela vigilância da implementação. Para que o curso cumpra sua promessa de elevar a qualificação da saúde, é imperativo que a infraestrutura laboratorial e o corpo docente acompanhem o prestígio da chancela federal. Não basta o diploma; é necessária a excelência.

 

Indústria de serviços

Para um debate sobre o impacto econômico da chegada do curso de Medicina à Unifesppa  em Marabá, é preciso olhar além do estetoscópio. Um curso de Medicina é, por natureza, uma indústria de serviços de alta intensidade.

A instalação do curso atrai um público com poder aquisitivo específico (estudantes de diversas regiões, professores e pesquisadores).

O mercado imobiliário ganha estímulo, com uma valorização  de imóveis no entorno do campus e dos hospitais-escola. A demanda por aluguéis de médio e alto padrão cresce instantaneamente.

Outro setor a ser beneficiado, ao longo dos próximos anos, é o de serviços, com a expansão de nichos como gastronomia, lavanderias, livrarias técnicas e academias, que passam a atender uma massa crítica de novos residentes com rotinas de alta permanência na cidade.

Campus da Unifesppa em Marabá (Foto: Unifesppa)

 

Atração de investimentos em tecnologia médica

A presença da academia funciona como um selo de qualidade que atrai o setor privado, ampliando-se, principalmente, o polo de diagnósticos. Clínicas de imagem e laboratórios tendem a se instalar ou se modernizar em Marabá para dar suporte às práticas acadêmicas e de residência.

Com a melhoria da qualificação, Marabá deixa de “perder” pacientes para Belém, Teresina ou Goiânia e passa a “receber” pacientes de cidades vizinhas (Bico do Papagaio, Sul do Maranhão), injetando dinheiro externo na economia local (hotéis, transporte, alimentação).

O aumento na prestação de serviços de saúde qualificados gera um incremento direto na arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS).

E há estudos comprovados reveladores: para cada vaga de estudante de medicina, estima-se a criação de postos de trabalho em setores de apoio, desde a manutenção hospitalar até a administração de clínicas.

A qualificação da mão de obra será observada logo, logo.  O ecossistema de saúde exige profissionais de outras áreas (TI para saúde, gestão hospitalar, engenharia clínica), elevando o nível salarial médio da cidade.

A Unifesspa agora carrega a responsabilidade de ser o motor de uma nova era.

Que o jaleco branco, símbolo desta conquista, represente não um privilégio de poucos, mas um compromisso de muitos com a vida e com a dignidade de quem vive e produz longe dos grandes litorais.

O Sul do Pará não quer mais apenas ser o pulmão econômico do estado; quer ser, também, o coração de uma saúde pública de referência.

Na imagem destacada, ministro da Educação, Camilo Santana,  entrega a portaria  autorizando o curso de Medicina da Unifesspa. (Foto:  Evangelista Rocha/ Correio de Carajás)