Hiroshi Bogéa – Belém sempre viveu sob o fantasma do estrangulamento. Para quem respira o cotidiano da Região Metropolitana, a BR-316 não é apenas uma rodovia; é um cordão umbilical sobrecarregado, uma via única que, ao menor incidente, isola a capital do resto do continente. A inauguração da Avenida Liberdade, com seus 13,3 km de extensão conectando Belém à Alça Viária, deve ser compreendida não como um capricho urbanístico, mas como uma válvula de escape vital para uma metrópole que beira o colapso logístico.
Antes de avançarmos, é preciso estabelecer um marco de honestidade intelectual. Escrevo estas linhas com o histórico de quem sempre esteve na linha de frente das causas ambientais e das lutas sociais.
Minha trajetória não me permite ser conivente com o descaso ecológico. No entanto, o jornalismo honesto exige o reconhecimento de que, por vezes, o interesse social imediato e a viabilidade de uma cidade de 2,5 milhões de habitantes impõem escolhas difíceis. Não sou, portanto, suspeito para afirmar: a Avenida Liberdade é uma necessidade histórica incontornável.
A crítica ambientalista, embora legítima em seus fundamentos de preservação da fauna e flora locais, muitas vezes ignora o impacto humano da imobilidade urbana. Belém é uma cidade “de uma porta só”.
Depender exclusivamente da BR-316 é manter a economia e o direito de ir e vir da população reféns de um único fluxo.
A ligação direta com a Alça Viária facilita o escoamento de produção e o acesso às mesorregiões do estado, integrando o Pará de forma mais eficiente.

O tempo perdido em congestionamentos quilométricos traduz-se em perda de saúde mental, produtividade e aumento da poluição atmosférica pelos veículos parados — um ônus ambiental que raramente entra no cálculo dos críticos da obra.
É inegável que uma via expressa de 14 km em solo amazônico gera impactos. Contudo, o desenvolvimento sustentável não pressupõe a paralisia. O desafio agora desloca-se da construção para a gestão. Defender a avenida Liberdade é defender que Belém saia do século XX no quesito mobilidade.
Negar a necessidade desta via é ignorar a realidade de uma área metropolitana deflagrada.
O trânsito de Belém não é apenas “ruim”; ele é um impeditivo para o desenvolvimento social básico. Sem vias alternativas, o acesso a serviços de saúde de urgência, a fluidez do transporte público e a própria logística de abastecimento da capital permanecem comprometidos.
A avenida Liberdade não é o fim da luta ambiental, mas um teste para a nossa maturidade enquanto sociedade. Podemos — e devemos — exigir compensações ambientais rigorosas e o monitoramento do entorno da nova via para evitar a ocupação desordenada.
Mas, no balanço final, a entrega desta via representa a quebra de um isolamento sistêmico. Para uma cidade cercada de águas e florestas, a liberdade de movimento é o primeiro passo para que a preservação e o progresso deixem de ser inimigos e passem a coexistir na prática.

Realidade de uma metrópole deflagrada
Ao analisarmos a entrega da avenida Liberdade, é inevitável que o questionamento surja: haveria outro caminho? Quando críticos apontam o dedo para o traçado atual, raramente apresentam soluções que sobrevivam ao crivo da realidade técnica e orçamentária. Se não fosse por onde ela passou, por onde seria?
Muitos sugerem, em debates acalorados, que a solução para Belém deveria passar por intervenções que não tocassem o solo de preservação, como vias expressas aéreas (viadutos de longa extensão) ou um investimento massivo no modal hidroviário.
Uma “via horizontal aérea” de 14 km sobre áreas de solo mole e instável, características da nossa região, elevaria o custo da obra a patamares astronômicos, conforme relata amigo engenheiro com experiência em obras urbanas.
Optar por uma solução dez vezes mais cara significaria condenar a Região Metropolitana a mais 30 anos de imobilidade à espera de um orçamento que nunca chegaria.
Embora o transporte fluvial seja a vocação natural de Belém, ele resolve o transporte de passageiros e cargas específicas, mas não substitui a necessidade de uma via expressa para o fluxo de veículos pesados e de serviços que alimentam a capital via Alça Viária.
Questionar o traçado é um exercício válido, mas precisamos encarar o fato de que Belém está “encurralada” geograficamente. De um lado, a água; de outro, a mancha urbana densa e desordenada da BR-316. Qualquer nova via que busque conectar a capital ao restante do estado inevitavelmente cruzará áreas de sensibilidade ambiental.
Não existe intervenção urbana de grande porte em Belém que seja ‘neutra’. A omissão também gera impacto: o aumento da poluição na BR-316 e o atraso socioeconômico de toda uma região.
Como jornalista comprometido com as causas populares, devo provocar: até que ponto a pureza ecológica de um projeto justifica o sacrifício do bem-estar de milhões de trabalhadores que perdem horas de vida no trânsito?
A Avenida Liberdade, no modelo em que foi executada, é a resposta possível para um problema que não admitia mais adiamentos. As alternativas “ideais” muitas vezes esbarram na inviabilidade econômica que manteria Belém estagnada. O foco, agora, não deve ser o saudosismo de um traçado que não existiu, mas a garantia de que esta via servirá de vetor para um desenvolvimento ordenado, e não para uma degradação desenfreada.
Belém precisava dessa saída. E ela finalmente chegou. (Fotos: Agência Pará)



