Hiroshi Bogéa  –   Só agora tomo conhecimento da morte de Adelina Braglia, quarta-feira, 12, às 18 horas.

A correria do dia me afastou por horas das redes sociais.

Os telefonemas também rarearam, e assim fiquei distante das pessoas que tentavam me encontrar para falar da partida dela para outras paragens. Há notícias que chegam tarde, mas chegam carregadas de uma tristeza que parece não caber no tempo.

Conheci Adelina quando eu ainda “peruava” a sede do Projeto Rondon, em Marabá. Era um tempo em que eu inventava pretextos para estar por perto das equipes que chegavam de São Paulo. Principalmente quando entre elas apareciam aquelas meninas bonitas que desembarcavam na cidade para um período de trabalho e estudos.

O Campus Avançado do Projeto Rondon de Marabá era coordenado por professores paulistas. Foi ali que Adelina decidiu ficar. E não apenas ficar: assumiu responsabilidades, administrou o projeto por um período e começou a construir uma história que iria muito além dos limites daquela instituição.

Eu tocava violão. Isso, em Marabá, naquela época, era quase uma carteira de identidade.

Quando chegava uma equipe nova do Rondon, alguém logo aparecia:

— Vem aqui. Tem gente querendo te conhecer. Querem ouvir você tocar.

E eu ia.

Muitas dessas convocações vinham de Adelina.

Ela tinha um jeito especial de aproximar pessoas. Não era apenas uma articuladora. Era alguém que acreditava que gente diferente podia se encontrar e construir alguma coisa juntas.

Foi assim também que ela acompanhou uma das minhas paixões daquele período. Adelina foi testemunha e incentivadora da relação que tive com uma universitária. Regina, ou Regininha, como a chamávamos, se apaixonou por Marabá — e por mim. Quando chegou a hora de voltar para São Paulo, ela não queria ir.

Eu também não queria que ela fosse.

Comecei, então, a imaginar a possibilidade de partir com ela para São Paulo. A paixão, naquela idade, costuma fazer a geografia parecer um detalhe.

Adelina assistia a tudo com aquele seu jeito sereno, mas firme.

E havia outro romance acontecendo sob os cuidados dela: o de Valvilson Santos e Verinha.

Valvilson era um negro pernambucano, músico de Bezerros, dono de um estilo nordestino que conquistava quem o ouvia. Verinha caiu na sua música — e talvez tenha caído também no homem que existia por trás dela.

Adelina passou noites e dias conversando comigo e com Valvilson. Tentava nos convencer de que era preciso “desarmar” o coração. Que nem toda paixão precisava se transformar em permanência. Que havia momentos em que a vida impunha despedidas.

Ela argumentava sem levantar a voz. Tinha força sem precisar endurecer.

E venceu.

Regininha voltou para São Paulo. Valvilson e Verinha também seguiram seus caminhos.

Ficaram os corações partidos.

Depois, a vida fez o que costuma fazer: espalhou as pessoas.

Fui para o Rio de Janeiro. Adelina permaneceu em Marabá.

Mas ela não permaneceu parada.

Foi ampliando sua luta social, mergulhando cada vez mais profundamente na vida de uma população que, durante muito tempo, parecia condenada a assistir de longe às decisões tomadas pelos donos da terra.

Adelina encontrou em Marabá um dos cenários mais difíceis para quem ousasse desafiar a ordem estabelecida.

Uma sociedade profundamente machista, conservadora e marcada pelo poder do latifúndio.

Foi justamente ali que ela decidiu lutar.

Ao lado do saudoso Ademir Martins, Adelina ajudou a romper as cordas do conformismo social marabaense. Falava aos mais pobres sobre um direito que parecia impossível: o direito de ter um pedaço de chão para morar.

A cidade crescia cercada por enormes propriedades rurais. Havia terra em abundância, mas faltava terra para quem precisava construir uma casa.

E foi a voz de Adelina que ajudou muita gente a compreender que aquela realidade não era uma fatalidade.

Que era possível lutar.

Que era possível ocupar espaços.

Que era possível abrir ruas onde antes havia cercas.

 

Adelina Braglia sendo entrevista pelos repórteres Ulisses Pompeu e Gabriela Silva, do Correio de Carajás.

 

Os bairros Liberdade e Independência guardam, de certa maneira, parte dessa história. Antes dos “puxadinhos”, antes das deformações urbanas que vieram depois, havia ruas largas, traçados planejados, uma tentativa de organizar a cidade para quem chegava buscando um lugar para viver.

Havia ali a mão de muita gente.

Mas havia também o dedo, a voz e a coragem de Adelina.

Depois, ela seria vereadora. Mais tarde, vice-prefeita.

Mas os cargos públicos são apenas uma parte da biografia de determinadas pessoas. Em Adelina, talvez sejam a parte menos importante.

O que permanece é aquilo que ela ajudou a fazer pelas pessoas.

A última vez que falei com Adelina foi no ano passado, pelo telefone.

Continuávamos antenados pelas redes sociais, acompanhando, à distância, a vida um do outro. Eu não sabia que, nos últimos meses, sua saúde havia piorado na luta contra o câncer.

E agora ela se foi.

Tenho muitas histórias para contar sobre Adelina. Inclusive uma passagem dramática em que sua própria vida esteve ameaçada por um pistoleiro contratado por Nelito, aquele mesmo irmão de um ex-governador de Minas Gerais.

Talvez um dia eu conte essa história.

Talvez outras pessoas também contem as suas.

Porque a vida de Adelina merece um livro. Merece um filme. Merece documentos, fotografias, depoimentos, arquivos, bibliotecas e cinematecas. Merece ser preservada para que as novas gerações saibam que, em determinado momento da história de Marabá, uma mulher decidiu desafiar aquilo que parecia impossível de ser enfrentado.

Adelina Braglia não foi apenas uma mulher que passou por Marabá.

Ela ajudou a transformar Marabá.

E talvez essa seja a melhor maneira de entender a dimensão de sua existência: algumas pessoas morrem deixando saudade. Outras deixam obras. Adelina deixa marcas.

Marcas nas pessoas.

Marcas na política.

Marcas na cidade.

Marcas na história daqueles que aprenderam, com ela, que uma cerca não é necessariamente o fim de uma estrada.

Estou triste.

O Brasil perdeu uma pessoa profundamente dedicada à humanidade justamente num momento em que tanta gente parece esquecer o significado dessa palavra.

Humanidade.

Adelina viveu por ela.

E, em Marabá, ajudou muita gente a descobrir que também tinha direito a ela.