Hiroshi Bogéa   –  O anúncio de que o deputado estadual Dirceu ten Caten (PT) será o candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Hana Ghassan (MDB) representa muito mais do que uma simples composição eleitoral. Trata-se de um movimento estratégico cuidadosamente calculado para ampliar a base política da candidatura governista e reforçar sua competitividade em um cenário que se desenha cada vez mais polarizado.

A escolha de Dirceu atende a uma lógica que extrapola a distribuição de espaços partidários. O parlamentar petista possui forte inserção no sul e sudeste do Pará, especialmente em Redenção, Marabá e municípios da região de Carajás, áreas onde o PT mantém presença consolidada por meio de sindicatos, movimentos sociais e lideranças locais. Sua presença na chapa pode ajudar Hana Ghassan a penetrar em segmentos do eleitorado onde o MDB, historicamente, enfrenta maior resistência.

Sob o ponto de vista político, a composição também simboliza a manutenção da aliança nacional entre MDB e PT no Pará. O governador Helder Barbalho, principal fiador da candidatura de Hana, preserva a parceria construída com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, garantindo que a disputa estadual permaneça alinhada ao Palácio do Planalto. Em tempos de forte influência da política nacional sobre as eleições estaduais, esse fator pode ter peso relevante.

Há ainda um componente administrativo. Dirceu ten Caten é considerado um político experiente, conhecedor das demandas do interior paraense e com trânsito entre diferentes setores produtivos e movimentos sociais. Sua escolha transmite a ideia de equilíbrio regional e de complementaridade ao perfil técnico-administrativo atribuído a Hana Ghassan durante sua passagem pela Secretaria de Planejamento.

Do ponto de vista eleitoral, a aliança MDB/PT tende a produzir alguns efeitos imediatos.

Primeiro, amplia o tempo de televisão e fortalece a estrutura partidária da campanha em praticamente todas as regiões do Estado.

Segundo, reduz o risco de dispersão do eleitorado identificado com o governo Lula, concentrando esse segmento em torno da candidatura governista.

Terceiro, dificulta a estratégia da oposição de tentar isolar Hana Ghassan como candidata exclusivamente ligada ao grupo de Helder Barbalho, já que a presença do PT amplia o espectro político da chapa.

Naturalmente, a composição também traz desafios. O PT possui setores históricos que mantêm divergências locais com lideranças do MDB em diversos municípios. Caberá às direções estaduais administrar essas diferenças para evitar conflitos capazes de comprometer a mobilização das bases durante a campanha.

Outro aspecto será a reação do eleitorado mais conservador. Embora o governo Helder mantenha elevados índices de aprovação em boa parte do Estado, adversários deverão explorar a associação com o PT como instrumento de desgaste junto aos eleitores identificados com a direita. A eficácia dessa estratégia dependerá, sobretudo, da nacionalização — ou não — da campanha paraense.

Ainda assim, olhando o quadro geral, a indicação de Dirceu ten Caten fortalece a candidatura de Hana Ghassan em diversos aspectos. Agrega musculatura política, amplia a capilaridade territorial, fortalece a interlocução com Brasília e consolida uma frente partidária capaz de reunir duas das maiores estruturas políticas do Pará.

Mais do que um nome para ocupar a vice, Dirceu passa a representar uma peça importante na engenharia eleitoral construída pelo grupo governista. A chapa sinaliza continuidade administrativa, reforço da base de sustentação e a tentativa de formar uma coalizão suficientemente ampla para enfrentar uma eleição que promete ser uma das mais disputadas da história recente do Estado.