Hiroshi Bogéa  –  Julho sempre chega com uma brisa diferente. Para quem observa a vida com a profundidade da paternidade, celebrar a chegada de mais um ciclo de Thiago, meu primogênito, é olhar para trás com gratidão e para a frente com a certeza de que a felicidade, para um pai, se completa no sucesso humano de seu filho.

​Para compreender a têmpera do homem que Thiago se tornou, é preciso voltar ao momento exato em que ele abriu os olhos para o mundo, em julho de 1977.

​Aquele era um tempo de sombras e de luzes misteriosas.

No Pará, não se falava de outra coisa: a “Operação Prato” mobilizava investigações sigilosas conduzidas pela Força Aérea Brasileira para apurar os estranhos relatos de luzes e fenômenos aéreos não identificados que cruzavam os céus da região.

​Mas a verdadeira tensão que nos sufocava vinha da terra. Vivíamos o epicentro de um dos anos mais politicamente violentos da ditadura militar no Brasil. Poucos meses antes, o ditador Ernesto Geisel havia outorgado o famigerado “Pacote de Abril”, fechando o Congresso Nacional e alterando as regras eleitorais de forma autoritária para blindar o partido governista (Arena).

​Como jovem jornalista, o nojo que eu sentia daquela ditadura era visceral. Apenas alguns dias antes do nascimento do meu filho, juntei minha voz à resistência e assinei o histórico manifesto nacional em repúdio à censura e à repressão do Regime Militar, fazendo parte dos mais de 3 mil jornalistas corajosos que ousaram desafiar o silêncio imposto.

Foi sob essa aura de combate, de resistência e de um desejo inabalável por liberdade que Thiago nasceu. Ele carrega na própria origem a força de quem foi gestado na luta; por isso, traz em si a alma de um cidadão humanista e um defensor intransigente da Democracia.

 

A noite da espera

​Lembro-me de cada detalhe daquela noite na Beneficente Portuguesa, em Belém. Eu estava lá, andando de um lado para o outro naqueles corredores imensos e frios do hospital. O nervosismo do primeiro filho me consumia. De tempos em tempos, eu escapava para a área externa, as mãos trêmulas acendendo um cigarro atrás do outro para tentar acalmar o peito.

​Lá dentro, Sônia, minha mulher à época, passava pelo procedimento de uma cesariana. Acho que passava de raspão das 19 horas quando a porta da sala de cirurgia se abriu. Uma enfermeira surgiu conduzindo um pequeno embrulho.

 

​— Aqui, seu filho, ela disse.

 

​Aquelas palavras ecoaram com um impacto quase físico. Minhas pernas fraquejaram, um tremor inexplicável me tomou por inteiro. Foi uma emoção tão violenta e profunda que parecia que era eu quem estava parindo naquele instante.

​Aproximei-me devagar.

O bebê tinha os olhinhos bem fechados, o corpinho ainda recoberto por aquela camada protetora que os médicos chamam de vérnix caseoso. Do jeitinho que ele estava, antes que o levassem para o primeiro banho, inclinei-me e depositei um beijo terno em sua testinha. Mas, como bom jornalista — vacinado contra as peças que o destino prega —, contive o ímpeto da emoção por um segundo para conferir a pulseirinha em seu braço: “Sônia Bogéa”, o nome da mãe, estava lá, perfeitamente legível.

Mesmo assim, o coração de pai estreante não sossegou. Fiquei “grilado”, com medo de que trocassem o meu pequeno no berçário. Não saí do lugar; plantei-me firme na porta da sala de banho, vigiando cada movimento, até que a enfermeira retornasse com ele nos braços.

Depois de toda a agitação, o silêncio se fez no apartamento do hospital onde Sônia se recuperava da cesariana, descansando ao meu lado. Thiago dormia no berço, com a serenidade de quem mal sabia o mundo barulhento que o esperava lá fora. Aproximei-me, o coração ainda em sobressalto, e fiquei a olhar fixamente para aquele rostinho tão pequeno.

Foi ali, naquele instante de absoluta pureza, contrito, que fiz a minha primeira grande promessa de paternidade: sussurrei para ele que, daquele dia em diante, eu deixaria de lado os meus ‘paus’ no baseado.

A promessa está sendo cumprida, pelo menos até agora.

Dali em diante, meu mundo havia mudado para sempre.

O amor que nascia ali era maior do que qualquer fuga ou hábito da juventude.

 

Filho cuidadoso, irmão amigo

​​Há uma beleza muito particular em ser o primeiro. Thiago carrega em si a nobreza de quem abriu caminhos, mas fez isso sem perder a doçura.

​Como filho, ele sempre guardou aquele olhar atento, a preocupação silenciosa e o abraço que acolhe e protege. É o esteio que se faz presente antes mesmo de ser chamado.

​Como irmão, transformou o laço de sangue em uma escolha diária de cumplicidade e amizade. É a referência, o conselheiro de todas as horas, alguém com quem se pode contar sem reservas.

​​Ver o próprio filho se tornar pai é uma das experiências mais transcendentais da existência. É enxergar a continuidade do afeto se desenhar diante dos olhos. Thiago assumiu a paternidade não apenas como um papel, mas como uma missão de amor.

Sua dedicação é diária; o olhar que direciona aos filhos transborda um carinho generoso, paciente e firme. Ele ensina amando e protege acolhendo.

​No mundo corporativo, onde tantas vezes as pessoas são reduzidas a números e planilhas de metas, Thiago escolheu o caminho da empatia. Ele lidera uma estrutura robusta, mas compreende que o verdadeiro sucesso de um empreendimento não se mede pelo balanço financeiro, mas pelo bem-estar e dignidade de quem o ajuda a construir.

Sua preocupação genuína com as condições de trabalho e a qualidade de vida de seus colaboradores faz dele mais do que um gestor de visão; faz dele o humanista que as circunstâncias de seu nascimento já anunciavam. Ele sabe que por trás de cada crachá existe uma história, uma família e um sonho que merecem profundo respeito.

Ver o homem íntegro, forte e compassivo que Thiago se tornou, é a maior realização que eu poderia ambicionar nesta vida. Cada conquista sua ecoa em meu peito como uma vitória compartilhada.

​Acompanhar a virada de mais um mês de julho na sua vida é o complemento exato da minha felicidade.

Que este novo ciclo traga ainda mais luz para o seu caminho, saúde para os seus dias e que você continue sendo essa força mansa e democrática que transforma a vida de todos ao seu redor.

​Feliz aniversário, meu filho!

(Fotos: Arquivo Pessoal)