Hiroshi Bogéa – Diante de informações em alguns meios de divulgação de que o Grupo Mateus estaria atravessando grave situação de insolvência, eu procurei recolher dados concretos junto a executivos da empresa maranhense para esclarecer o que há de verdade e o que é tom alarmista.
A situação do Grupo Mateus é, de fato, um reflexo do momento desafiador que o varejo brasileiro atravessa, onde a estratégia de “crescimento a qualquer custo” dos anos anteriores cedeu lugar a uma necessidade urgente de eficiência.
O resumo honesto e transparente foi feito a mim por um economista que trabalha no conglomerado, mediante compromisso de não divulgar seu nome dado que ele e mais uma comissão de alguns especialistas trabalham silenciosamente para sanar as dificuldades financeiras da empresa
“O que observamos agora é o choque entre a ambição de expansão e a realidade macroeconômica”, disse, ajudando o blog a analisar com clareza a questão organizando pontos que compõem a complexidade do quadro.
Inicialmente, ele explica que a decisão de fechar 28 lojas e desligar cerca de 6,6 mil funcionários (o que representa quase 14% do quadro total) não é vista pelo mercado apenas como uma “crise”, mas como uma tentativa de estancar a sangria de unidades que não atingiram a maturidade esperada.
“A lógica por trás desse cenário é que, após uma fase de expansão acelerada pelo Norte e Nordeste, o grupo notou que muitas unidades estavam com despesas operacionais superiores às receitas, ou seja, gastando mais do que arrecada, usando um termo bem popular”, explica.
A decisão, ele confirma, gerou imediato impacto social junto as famílias que perderam o emprego, especialmente em cidades menores onde o Grupo Mateus era, muitas vezes, o principal motor de contratação local.
A Disputa com o Fisco
Há, sim, uma cobrança da Receita Federal de impostos acima de R$ 1 bilhão.
“A autuação de R$ 1,28 bilhão pela Receita Federal é um complicador significativo”, confirma, dizendo que este débito trata-se de uma divergência sobre o tratamento tributário envolvendo créditos presumidos de ICMS nos exercícios de 2022 e 2023.
O executivo sustenta também que o Grupo Mateus seguiu a legislação e que há fundamentos jurídicos sólidos para contestar a cobrança. No momento, o caso segue na esfera administrativa, mas o mercado financeiro acompanha com cautela, pois o montante representa uma fatia considerável do valor de mercado da companhia.
Outra observação anotada pelo blogueiro é que o peso da carga tributária toca em um ponto central: o varejo alimentar opera com margens extremamente estreitas.
“É o que chamamos de ´custo Brasil´. Para empresas que cresceram através de uma rede física vasta, qualquer alteração na regra tributária ou aumento no custo de capital (juros) altera rapidamente a viabilidade da operação”, diz o entrevistado.
Ao ser indagado sobre desconfianças dos investidores, já que o mercado ainda tenta processar episódios anteriores do grupo, como inconsistências contábeis em estoques ocorridas em 2025, o que gerou uma cautela adicional sobre os controles internos da companhia, a resposta do executivo é direta:
– “O Grupo Mateus não está em um processo de falência, mas sim em uma fase de “limpeza” do seu portfólio. O sucesso ou fracasso desta estratégia dependerá da capacidade da gestão em transformar esse império de R$ 40 bilhões de faturamento em um negócio lucrativo que suporte o atual cenário de consumo mais fraco nas regiões que atende”.

Impacto das mudanças operacionais no Pará
Para quem observa a atuação do Grupo Mateus no Pará, o desdobramento dessas mudanças já é visível não só nos números, mas na dinâmica comercial das cidades do interior, que sentem imediatamente o recuo de uma empresa que, por muito tempo, foi o símbolo do crescimento acelerado na região.
No estado, o cenário se desenha da seguinte forma, desenha numa folha de papel do economista:
Inicialmente, o impacto no mercado de trabalho. O corte de cerca de 6,6 mil empregos – diluídos pelos estados onde a rede opera — gera um efeito direto e sensível em muitas famílias paraenses.
“Em cidades menores do Pará, onde o Grupo Mateus atua como um dos maiores empregadores privados, a interrupção das atividades ou a redução de turnos retira uma importante fonte de renda formal da economia local. Além dos funcionários diretos, há o impacto indireto sobre fornecedores locais de perecíveis (como hortifrúti, panificação e serviços de logística), que perdem um canal de escoamento constante e de grande volume”, narra o entrevistado.
Nas palavras de um outro representante da empresa que se encontrava ao lado do economista, o Grupo Mateus está passando por um ajuste de “fôlego”. Segundo ele, a estratégia atual, chamada de “eficiência operacional”, significa que a empresa deixou de priorizar a abertura frenética de novas unidades para focar naquelas que dão lucro imediato.
“Em cidades onde o grupo fechou unidades, a concorrência pode diminuir, o que, em um primeiro momento, pode encarecer o custo da cesta básica local por falta de uma opção de atacarejo de grande porte, que exercia pressão para baixo nos preços. Haverá também descontinuidade de investimentos: projetos que estavam no radar ou obras que foram iniciadas e agora estão paralisadas (um cenário que já vem sendo notado em alguns locais) congelam a geração de novos empregos e o desenvolvimento de infraestrutura urbana que a abertura de um grande supermercado costuma atrair para o bairro ou município.”, completa
Varejo Regional
Para o setor varejista no Pará, o movimento do Mateus funciona como um sinal de alerta para outros players regionais?, é a pergunta que faço direta.
A resposta também volta, direta:
“O mercado está observando a dificuldade de sustentar uma operação gigante em um ambiente de juros altos e consumo retraído. Isso tende a tornar o varejo paraense mais conservador em 2026. A busca por eficiência do grupo (fechamento de lojas com baixa rentabilidade e foco no novo atacarejo) forçará outros supermercados regionais a também avaliarem quais de suas unidades são realmente lucrativas, podendo gerar novas ondas de ajustes em todo o setor”.
Trocando em miúdos, o Grupo Mateus continua sendo uma força dominante no estado, mas deixou de ser uma “aposta de crescimento ilimitado”. Para o Pará, o impacto imediato é de contração: menos lojas abertas, menos vagas de emprego direto e uma reconfiguração do abastecimento em áreas onde a rede encolheu. (Fotos: Grupo Mateus)



