Hiroshi Bogéa –   O violento duplo terremoto que atingiu a Venezuela na última quarta-feira, ceifando centenas de vidas, ferindo milhares e deixando um rastro de destruição em cidades como La Guaira e Caracas, colocou a comunidade internacional diante de um imperativo categórico: a solidariedade humana não conhece fronteiras, ideologias ou regimes políticos.

Enquanto brigadas de resgate de diversos países e aviões da Força Aérea Brasileira correm contra o tempo para retirar sobreviventes soterrados, assiste-se, no Brasil, a um espetáculo de profunda degradação ética promovido por setores extremistas da direita e militantes bolsonaristas nas redes sociais.

A tentativa de sabotar, criticar ou politizar o envio de ajuda humanitária a um povo fustigado por uma catástrofe natural é o sintoma mais recente e agudo de uma cegueira ideológica que desumaniza o outro. Sob o pretexto capcioso de oposição ao regime de Caracas, vozes do radicalismo digital tentam justificar a crueldade de se negar água, insumos médicos e o trabalho técnico de bombeiros a civis inocentes. Trata-se de uma confusão deliberada e sórdida entre Estado, governo e população.

Essa postura odiosa, contudo, carece não apenas de empatia, mas também de memória. Em janeiro de 2021, no auge da pandemia de Covid-19, quando o povo de Manaus asfixiava nos hospitais por falta de oxigênio sob os olhos complacentes de um governo federal bolsonarista que cruzou os braços e abandonou a população à própria sorte, foi justamente a Venezuela quem enviou carretas carregadas de oxigênio para salvar vidas brasileiras.

Naquele momento dramático, a despeito do corte de relações diplomáticas promovido por Brasília, o país vizinho agiu pelo princípio da solidariedade imediata. Pagar o gesto de ontem com o boicote ao socorro de hoje é um atestado de pura mesquinharia e ingratidão histórica.

O sofrimento de uma mãe que busca o filho sob o concreto colapsado em La Guaira é idêntico ao sofrimento das famílias que buscavam oxigênio no Amazonas. Condicionar o socorro a essa dor ao espectro ideológico de quem governa o país afetado é uma aberração moral.

Historicamente, a diplomacia e a tradição humanitária brasileira guiaram-se pelo princípio da cooperação e da defesa da vida. O envio do KC-390 com bombeiros e toneladas de equipamentos médicos (foto acima)  é a postura que se espera de uma nação que preza pela dignidade humana. Até mesmo vizinhos em históricos litígios geopolíticos e governos de potências tradicionalmente críticas a Caracas compreenderam o óbvio: diante de escombros e corpos, a única bandeira que legítima as ações é a da humanidade.

O ativismo digital que hoje ataca a solidariedade brasileira não está fazendo política; está promovendo a necropandemia do ódio. Ignorar o sofrimento alheio por conveniência eleitoral ou rancor doutrinário não é patriotismo, é covardia. Diante de desastres dessa magnitude, a indiferença e a oposição ao socorro de inocentes rebaixam a estatura daqueles que o fazem e envergonham o debate público do país. (Foto: FAB / Divulgação)