A destruição da antiga calçada de pedras de lioz na avenida Nazaré, em frente à loja do Burger King, é um desses casos que exigem mais do que notas oficiais ou justificativas burocráticas. Exigem respostas. E respostas convincentes.
Estamos falando de pedras de lioz — um calcário nobre extraído em Portugal, utilizado desde o período colonial em construções históricas e espaços urbanos que ajudam a contar a trajetória arquitetônica de Belém. Não era uma simples calçada de concreto. Era parte da identidade visual e afetiva de uma cidade que se orgulha de sua herança urbanística.
A pergunta inevitável é: como ninguém viu?
Como uma intervenção dessa magnitude aconteceu numa das avenidas mais movimentadas da capital paraense sem que nenhum órgão público percebesse, e paralisasse os serviços antes de sua conclusão? Como uma obra de destruição, retirada de material histórico e posterior cimentação do espaço avançou — talvez dias — sem embargo, fiscalização ou sequer questionamento?
A avenida Nazaré não é um beco esquecido da periferia urbana. É cartão-postal. É corredor histórico. É vitrine da cidade. Passam por ali diariamente agentes públicos, fiscais, guardas municipais, servidores, autoridades e milhares de cidadãos. Havia caçambas. Havia entulho. Havia máquinas. Havia operários. Havia barulho. Havia poeira. Havia tudo que caracteriza uma intervenção urbana visível.
Menos fiscalização.

O episódio expõe algo ainda mais grave do que a destruição física das pedras portuguesas: revela a assustadora ausência de vigilância patrimonial e urbanística numa cidade que vive repetindo discursos sobre preservação histórica. Afinal, de que adianta tombar memórias no papel se elas podem ser arrancadas do chão sem que ninguém perceba?
Belém corre o risco de transformar sua história em mero material descartável. E isso acontece aos poucos: numa fachada alterada aqui, numa árvore centenária derrubada ali, numa calçada histórica arrancada acolá. Quando se percebe, a cidade perdeu a própria alma — substituída por cimento, padronização e indiferença.
O mínimo que a população espera agora é transparência.
Quem autorizou a obra? Houve licença? Existia parecer dos órgãos de patrimônio? Qual será a punição, além da multa de R$ 30 mil anunciada? As pedras serão recuperadas? Ou tudo acabará soterrado sob a velha prática brasileira do “ninguém viu, ninguém sabe”?
Belém merece mais respeito com sua memória. Porque cidade sem memória não é cidade: é apenas um amontoado de concreto tentando lembrar o que um dia foi.



