Hiroshi Bogéa  –  É inegável que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva devolveu ao Brasil um ativo valioso nos últimos anos: o respeito e o trânsito livre nos principais palcos do tabuleiro global. De Washington a Pequim, passando pelas principais capitais europeias e africanas, o chefe do Executivo brasileiro desfruta de uma força política internacional que poucos líderes no mundo atual conseguem rivalizar.

Em um planeta fragmentado por tensões geopolíticas, o Brasil voltou a ser visto como um mediador necessário. Contudo, essa indiscutível estatura externa contrasta com uma lacuna interna incômoda: a falta de uma ancoragem estratégica de longo prazo para o próprio país.

Até aqui, a tônica do terceiro mandato de Lula tem sido a busca por resultados imediatos. Compreende-se a urgência. O governo assumiu sob a imperativa necessidade de reconstruir políticas públicas desmanteladas, estancar a fome e pacificar as instituições brasileiras. Diante dessas frentes de batalha, a gestão focou no “varejo” da governabilidade e em respostas conjunturais aos humores do Congresso e do mercado.

Mas o imediatismo, embora útil para apagar incêndios cotidianos, é um terreno arenoso para construir o futuro de uma nação.

O Brasil não pode continuar navegando ao sabor do vento de cada trimestre fiscal ou de cada ciclo eleitoral. É urgente que Lula assuma uma posição clara e lidere a formulação de um verdadeiro Plano de Metas de longo prazo.

Um plano que estabeleça, de forma transparente e mensurável, onde o país quer chegar nos próximos dez, quinze ou vinte anos. Precisamos de respostas objetivas para perguntas estruturais.

Por exemplo, qual é a nossa meta real de transição energética e reindustrialização verde?

Como vamos, sistematicamente, elevar os índices de produtividade e a qualidade da educação básica para além de remendos orçamentários?

Qual é o desenho para a nossa infraestrutura que sobreviva à troca de ministros e de partidos no poder?

Ter objetivos com metas claras não é apenas um exercício de tecnocracia; é o que separa o mero gerenciamento de crises da verdadeira liderança histórica. Quando um governo se limita a governar pelo retrovisor ou pelo imediatismo pragmático, ele abre mão de ditar o ritmo do desenvolvimento e se torna refém das circunstâncias.

Lula detém o capital político e a autoridade moral para convocar a sociedade, o setor produtivo e as forças políticas em torno de um pacto de futuro. Se sua voz ecoa com peso ao cobrar as potências globais sobre o financiamento climático e a reforma da governança mundial, essa mesma voz precisa ecoar internamente na cobrança por metas ambiciosas e rigorosas dentro de casa.

O pragmatismo resolve o hoje, mas apenas o planejamento estratégico garante o amanhã.

É hora de o presidente usar o gigantismo de sua liderança para projetar o Brasil além do próximo horizonte eleitoral. O país precisa saber para onde está caminhando. (Foto: Internet / Reprodução)