Neste ano de 2006, o Brasil volta seus olhos para o retrovisor  da  história  para marcar os 30 anos da morte de Juscelino Kubitschek. O “Presidente Bossa Nova”, que personificou o otimismo desenvolvimentista, teve seu fim selado no asfalto da Rodovia Dutra em 22 de agosto de 1976. Contudo, três décadas depois, a versão oficial de que um trágico acidente de trânsito calou o fundador de Brasília soa, para muitos, como uma narrativa escrita sob medida pelos porões do regime militar.

A história contada pelos generais é linear: o motorista Geraldo Ribeiro teria perdido o controle do Opala após ser atingido por uma carreta. O veículo teria atravessado o canteiro central, invadindo a pista oposta e sendo destruído pela colisão. Simples, direto e conveniente. Mas a história, quando submetida ao escrutínio da lógica e da perícia científica, raramente é tão linear assim.

O que mais assombra nesta efeméride não são as certezas, mas as perguntas que permanecem sem resposta. Por que um procedimento tão corriqueiro e fundamental quanto a realização de um exame toxicológico no corpo do motorista Geraldo Ribeiro foi negligenciado à época? Em qualquer investigação de acidente com vítimas fatais, a condição física de quem conduz o veículo é o ponto de partida. Por que, no caso de um ex-presidente cassado e vigiado, essa etapa foi ignorada?

Se as versões que negam o choque da carreta estiverem corretas, o que teria feito Ribeiro perder a direção de forma tão catastrófica? A suspeita de envenenamento ou sabotagem física não é mera teoria da conspiração quando inserida no contexto da Operação Condor e da eliminação sistemática de opositores no Cone Sul. Sem o laudo toxicológico, a dúvida torna-se uma evidência de má-fé das autoridades da época.

Trinta anos depois, o “acidente” de JK permanece como uma ferida aberta na historiografia brasileira. Se o carro foi “acidentado”   propositadamente,   o Estado brasileiro deve essa verdade ao seu povo. Celebrar JK sem questionar as circunstâncias de seu silenciamento é aceitar uma biografia incompleta. A verdade, assim como o progresso que JK tanto pregava, não pode ser detida por manobras de percurso ou laudos omissos.