O Blog Hiroshi Bogéa On Line, a partir desta edição, tentará entrevistar os pré-candidatos ao Governo do Estado do Pará, ouvindo suas propostas administrativas e políticas a serem oferecidas ao eleitor paraense durante a campanha eleitoral. A primeira contatada é Araceli Lemos (Psol), que respondeu às perguntas encaminhadas através de sua assessoria de imprensa.
Ao longo dos próximos dias, tentaremos ouvir os demais pré-candidatos ao Governo, Hana Ghassan (MDB) e Daniel Santos (Podemos).
A ex-deputada estadual e educadora Araceli Lemos (PSOL) reafirma sua pré-candidatura ao Governo do Pará consolidando-se como a voz de oposição ao atual modelo de gestão estadual. Em entrevista exclusiva ao Blog Hiroshi Bogéa On Line, a política — que já foi a parlamentar mais votada do estado — faz um diagnóstico crítico das desigualdades regionais, especialmente no Sudeste paraense, onde o contraste entre a riqueza mineral e a precariedade dos serviços públicos é mais latente.
Ao longo da conversa, Araceli não poupa críticas ao grupo político liderado por Helder Barbalho e à atual governadora Hana Ghassan, classificando a gestão como um “projeto familiar de poder” que prioriza a visibilidade externa em detrimento das necessidades básicas da população, como saneamento e saúde. A pré-candidata também aborda o distanciamento local em relação ao PT, defende um modelo de desenvolvimento baseado na bioeconomia real e propõe uma ruptura com as “estruturas conservadoras” por meio da participação direta dos movimentos sociais.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista, onde a liderança do PSOL detalha suas propostas para o futuro do estado e explica por que escolheu a “coerência em vez da conveniência” no cenário político paraense.
A senhora tem percorrido o interior do Pará com a “Caravana de Sol a Sol”. Qual é o diagnóstico mais urgente que a senhora faz das regiões que visitou, especialmente no Sudeste paraense?
O diagnóstico que eu faço não vem de gabinete. Vem de ouvir. E o que eu ouço, do Marajó ao Sudeste, é o mesmo grito com sotaques diferentes: o povo está cansado de ser tratado como paisagem. O Sudeste paraense é uma das regiões que mais gera acúmulo de riqueza nesse estado, com minério, agronegócio, energia, e ao mesmo tempo convive com postos de saúde que não têm médico, estradas que viram lamaçal na chuva e jovens que precisam sair da cidade pra ter acesso à universidade. Isso não é falta de recurso. Isso é uma escolha política de quem está no poder. O diagnóstico mais urgente é esse: o Pará tem dinheiro, o Pará não tem prioridade no seu povo.
O PSOL se coloca como uma alternativa às “lideranças tradicionais”. Como enfrentar, na prática, uma máquina pública tão consolidada quanto a que apoia a atual governadora Hana Ghassan?
Máquina se enfrenta com povo organizado. Sempre foi assim. Ninguém achava que eu ia ganhar a eleição de deputada estadual em 1998, mas eu fui a mulher mais votada daquele pleito. Não tinha máquina nenhuma atrás de mim. Tinha professores, sindicalistas, moradores de periferia, gente que acredita que a política pode mudar de lado. Estou falando do povo. O povo estava comigo. O que nós temos que fazer é transformar cada comunidade visitada em uma base ativa. A máquina governa de cima pra baixo. Nós construímos de baixo pra cima. E quem aguenta mais tempo em pé é quem tem raiz.
Falando em Hana Ghassan, ela assume o governo com o apoio total de Helder Barbalho. Como a senhora avalia a continuidade desse grupo político para o futuro do Pará?
Não tenho nada pessoal contra ela. O problema é o projeto. Um projeto que elegeu o Pará como vitrine ambiental pra fora e deixou o povo sem saneamento básico lá dentro. Um projeto que cresceu economicamente nos índices e encolheu humanamente nos postos de saúde, nas escolas, na vida real das pessoas. Continuidade desse grupo significa continuar elegendo quem manda e quem obedece dentro do estado. E o Pará merece, depois de tanto tempo, ter um governo que não deve favores pra ninguém, só pro povo que elegeu. Nós estamos falando de um projeto familiar de poder. Esposa, filhos, primos, uma família que se acha dona do Pará. Helder colocou Igor na prefeitura e olha o desastre que está sendo!!!
O Pará foi sede da COP30 e vive um momento de protagonismo ambiental. No entanto, o PSOL frequentemente critica o modelo de desenvolvimento baseado em grandes projetos. Qual é a sua proposta para conciliar preservação e geração de renda?
A Amazônia não é um cartão postal. Ela é o chão onde vive um povo que também precisa comer, se tratar e educar seus filhos. Quando eu critico o modelo de grandes projetos, não estou dizendo que não queremos desenvolvimento. Estou dizendo que desenvolvimento que não fica no território é saque, não é crescimento. A minha proposta é a bioeconomia de verdade, não aquela que aparece em relatório bonito pra COP e some depois. Pesca artesanal, extrativismo sustentável, castanha, açaí, cacau, turismo de base comunitária, tecnologia aplicada às cadeias produtivas locais. O Pará pode ser referência mundial em desenvolver sem destruir. Mas isso exige que quem governa não esteja comprometido com quem quer destruir. Outro ponto é importante é, se está extraindo daqui, tem que beneficiar aqui. Não dá pra exportar comoddities, que não geram emprego, não incrementam a nossa economia. Olha a exportação de gado vivo. Quando você exporta um boi vivo, você deixa de gerar economia com a carne, com o couro do animal. E isso acontece também com o minério. Precisamos ter indústrias aqui. Do jeito que está agora, as multinacionais chegam aqui, ganham bilhões e deixam pra nós só o buraco e a destruição socioambiental.
“Convergências importantes com o projeto do presidente Lula”
Historicamente, PSOL e PT caminham juntos em nível federal. Por que, no Pará, essa união parece tão distante, com o PT optando por compor a base de apoio do grupo de Helder Barbalho?
Essa é uma pergunta que o PT paraense precisa responder. Eu saí do PT em 2005 exatamente porque não quis negociar meus princípios por espaço de poder. E o que vejo hoje é o PT do Pará fazendo exatamente isso: trocando a independência por cargos dentro de um governo que não representa os trabalhadores. No plano federal, temos convergências importantes com o projeto do presidente Lula. Mas política se faz no concreto, e no concreto do Pará, o PT escolheu o lado das oligarquias. Isso é uma contradição deles, não nossa.
A senhora se sente “isolada” no campo da esquerda ao não contar com o apoio da federação PT/PCdoB/PV, que está comprometida com a candidatura governista?
Isolada? Isolamento pra mim tem outro peso. O que existe aqui é uma divergência política clara. Não é pessoal, não é ressentimento. É que existem forças de esquerda que escolheram a conveniência, e eu escolhi a coerência. E na história da política brasileira, quem escolhe a coerência muitas vezes caminha sozinha por um tempo. Mas não por muito tempo.
Existe uma discussão nacional sobre uma “super-federação” entre PT e PSOL. Como a senhora vê essa possibilidade diante das divergências locais tão profundas no Pará?
As discussões nacionais são legítimas e devem acontecer. No caso específico, o Psol decidiu renovar sua federação com a Rede Sustentabilidade, ao mesmo tempo em reafirmou o apoio a Lula desde o 1o turno. Para mim, é uma grave incoerência que no Pará segmentos progressistas continuem apoiando um projeto que privatiza o cuidado com o povo, que tolera a corrupção no Estado, que usa a máquina pública como moeda eleitoral — não há federação que resolva isso. O que precisa acontecer primeiro é uma autocrítica honesta da esquerda paraense. E isso independe de qualquer arranjo nacional.
“Porque transparência que só especialista entende não é transparência, é maquiagem”
O Sudeste paraense é uma região rica em mineração, mas marcada por profundas desigualdades sociais. O que o seu plano de governo prevê para que a riqueza do minério se traduza em dignidade para o povo da região?
Primeiro: transparência total nos contratos de concessão mineral. O povo do Pará tem direito de saber quanto sai do seu chão e quanto fica no seu estado. Hoje isso é uma caixa preta. Segundo: fundos de desenvolvimento territorial obrigatórios, vinculados à exploração mineral, geridos com participação das comunidades, não por secretários de gabinete. Terceiro: diversificação econômica forçada nessas regiões, porque dependência de minério é armadilha. Quando o preço do minério cai, quem sofre é o trabalhador, nunca a mineradora. Nosso governo vai mudar essa equação. A riqueza que sai da terra do Pará tem que voltar em escola, em saúde, em saneamento, na vida das famílias que vivem ali.
Como educadora, a senhora sempre defendeu a transparência. Como avalia o atual estado da liberdade de imprensa e do acesso à informação pública no Pará hoje?
Preocupante. Temos veículos que dependem financeiramente de publicidade governamental e isso cria uma relação que compromete a isenção, não por má-fé de todo jornalista, mas por uma estrutura que constrange. Temos dados públicos que existem no papel mas são quase inacessíveis na prática. E temos uma cultura de gestão que ainda enxerga a pergunta do jornalista como um ataque, não como um direito. No meu governo, o portal de transparência não vai ser enfeite de site. Vai ter dado aberto, atualizado em tempo real, linguagem acessível. Porque transparência que só especialista entende não é transparência, é maquiagem.
Se eleita, qual seria o seu “ato número 1” para romper com o que a senhora chama de “estruturas conservadoras” que comandam o estado há décadas?
O ato número 1 não seria um decreto espetacular. Seria uma reunião: com os movimentos sociais, com as organizações de base, com os sindicatos, com as associações comunitárias, para construir juntos as prioridades dos primeiros cem dias. Porque governar diferente começa com um gesto diferente: o de entender que o poder não está na cadeira do governador, está nas mãos de quem trabalha, produz e sustenta esse estado. Isso já rompe. Já diz pra todo o sistema: aqui, quem manda é o povo.



