Hiroshi Bogéa – Diz a lenda — ou talvez a conveniência social — que a paternidade é um porto seguro. Mas, quando o diagnóstico de autismo atravessa a porta da sala, esse porto, com frequência alarmante, revela-se uma miragem de areia que se desfaz ao primeiro sinal de maré alta. O que sobra é a rocha. E a rocha, quase invariavelmente, tem nome de mulher e cheiro de cansaço acumulado.
A cena é um clichê trágico e repetitivo: o laudo chega à mesa. Para o homem, parece o soar de uma sirene de abandono. Muitos, covardemente “pragmáticos”, escolhem o exílio interno. Estão presentes no endereço, mas ausentes na alma. Tornam-se especialistas em horas extras inexistentes, em silêncios punitivos e na incapacidade teatral de lidar com o “diferente”. É a fuga dos medíocres, daqueles que só sabem amar o reflexo do próprio ego e que, diante de um filho que não segue o roteiro esperado, decidem que a carga é pesada demais para seus ombros de vidro.
Enquanto isso, a mulher se agiganta.
Tenho uma amiga com quem, vez por outra, conversamos, e a escuto atentamente sobre a luta que trava diariamente para lidar com o autismo de seu filho, um garoto de 13 anos inteligente, amoroso, mas que convive com o TEA (Transtorno do Espectro Autista). No dia a dia, somente ela a cuidar do garoto. O pai escafedeu-se.
Hoje, deparo com essa pesquisa do print publicado acima, revelando o quanto a mulher carrega o peso da responsabilidade de lidar sozinha com o autismo.
Ela não tem o luxo do luto prolongado. Enquanto o “provedor” se afunda na autopiedade ou na indiferença, ela se torna médica, fonoaudióloga, advogada e escudo. É ela quem decifra o choro sem palavras, quem enfrenta o olhar julgador no supermercado e quem carrega nas costas a agenda interminável de terapias. A mãe do autista não apenas cuida; ela guerreia contra um mundo que não foi desenhado para o seu filho.
É preciso dizer com todas as letras: a “ausência” masculina no cuidado com o autismo não é cansaço, é falência moral. É a perpetuação de um patriarcado covarde que delega o afeto e a responsabilidade à mulher, reservando para si apenas o direito de reclamar da desordem da casa ou do custo do tratamento.
Criticar esses homens não é um exercício de amargura, é um ato de justiça. É vergonhoso que, em pleno século XXI, a estrutura do cuidado ainda seja uma ilha habitada exclusivamente por mulheres exaustas. O homem que se distancia de um filho autista não é apenas um pai ruim; ele é um desertor da humanidade.
Às mães, fica o nosso aplauso, mas que ele não seja apenas poético. Elas não querem ser chamadas de “anjos” ou “guerreiras” para que o resto da sociedade — e os pais — continuem de braços cruzados. Elas querem divisão, querem respeito e, acima de tudo, querem que o amor não seja um substantivo exclusivamente feminino.
O autismo não destrói famílias. O que destrói famílias é o egoísmo de homens pequenos que não suportam a grandeza de um amor que exige mais do que apenas um sobrenome no registro. Que a força dessas mulheres continue sendo o farol, mas que a covardia desses homens seja, enfim, exposta à luz do sol até que sintam o peso do que abandonaram. (Foto: extraída do portal Opinião em Pauta)



