Hiroshi Bogéa  – A carta de desligamento de Sheila Kaline da corrente Democracia Socialista (DS), do Partido dos Trabalhadores, não é apenas um documento administrativo de desfiliação interna; é um manifesto de princípios. Através de uma escrita lúcida e serena, Sheila revela a estatura de uma intelectual orgânica que não separa a vida da política, e cuja trajetória se confunde com a própria história das lutas sociais no Pará.

Diferente do pragmatismo volátil que assola a política atual, a trajetória de Sheila é marcada pelo acúmulo e pela permanência. Ao relembrar seu início aos 14 anos no movimento secundarista, ela deixa claro que seu compromisso não é circunstancial.

Sua fidelidade aos espaços que ocupou — da Força Socialista ao Movimento Cabano — demonstra que Kaline não busca o poder pelo poder, mas sim o pertencimento a um projeto. Sua saída da DS, portanto, deve ser lida como um ato de lealdade a si mesma e aos seus ideais, ocorrendo justamente quando sente que o ciclo de construção coletiva naquele espaço não mais comporta a ética que ela carrega.

A carta revela uma sensibilidade política aguçada e um conhecimento profundo das estruturas de poder. Sheila não ignora a complexidade da governabilidade de coalizão, mas faz um alerta necessário: a governabilidade não pode servir de álibi para o esvaziamento da identidade histórica da esquerda.

Sua análise sobre o cenário no Pará e, especificamente, em Marabá, demonstra que ela compreende o Estado não de forma abstrata, mas através do solo que pisa.

A menção aos conflitos agrários e ao MST mostra que sua política é feita no território, onde as contradições são “vivas e concretas”.

A formação acadêmica de Sheila em Ciências Sociais não é um adorno, mas uma ferramenta de análise que ela utiliza para ler as “assimetrias e injustiças estruturais”.

Um dos pontos mais tocantes e corajosos da carta é a denúncia sutil, porém firme, das práticas que corroem a política por dentro. Sheila expressa sua desilusão com o uso de vínculos familiares e relações de proximidade para pautar decisões políticas.

A crítica às filiações pouco criteriosas e ao abandono do estudo político em favor da disputa de cargos.

Para ela, “nem tudo é admissível”. Essa frase é um divisor de águas que separa a militante por convicção daquela que se molda conforme o vento dos interesses pessoais.

Sheila representa o que há de mais promissor na política brasileira: a novidade que não descarta a história. Ela não prega uma renovação vazia de “marketing”, mas uma renovação que é “soma”.

Sua figura personifica a sensibilidade de quem sofre com a desigualdade e a inteligência de quem dedica a vida a estudá-la para transformá-la. É uma mulher que, mesmo diante das hostilidades do ambiente político, mantém a doçura do sonho aliada ao rigor da dedicação constante.

 

Nota de Admiração Pessoal

Finalizando, não posso deixar de registrar esta nota de admiração pessoal: É impossível ler as palavras de Sheila Kaline sem sentir um profundo respeito por sua trajetória. Ela é uma inteligência rara, que combina preocupação humanitária com uma sensibilidade política que não se aprende nos manuais, mas se forja na luta. Sua dedicação ao estudo e ao aprofundamento constante do conhecimento faz dela uma referência de sobriedade e esperança. Sheila não é apenas um quadro político; ela é o exemplo vivo de que a política pode, e deve, ser um exercício de ética e amor ao povo.

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Abaixo, íntegra da carta:

DESLIGAMENTO DA DEMOCRACIA SOCIALISTA

 

Minha decisão de me desligar da corrente interna Democracia Socialista (DS) resulta de um processo de reflexão amadurecido ao longo do tempo, em coerência com minha trajetória política.

Iniciei minha militância aos 14 anos, no movimento secundarista, no Grêmio Estudantil da Escola Pedro Amazonas Pedroso, movida por uma inquietação diante das desigualdades sociais. Desde cedo, não me foi possível naturalizar as assimetrias, as injustiças estruturais e, especialmente, o lugar imposto às mulheres. Esses elementos moldaram minha consciência política e fundamentaram, posteriormente, minha formação em Ciências Sociais, impulsionada pelo amor à política construído na prática.

Minha trajetória não é circunstancial nem marcada por deslocamentos episódicos.

Não tenho o hábito de transitar entre espaços. Ao contrário, estabeleço vínculos duradouros, orientados por identidade política e projeto. Permaneci por longo período na Força Socialista, desligando-me apenas quando deixou de existir. Em seguida, integrei o Movimento Socialista Cabano, que posteriormente se incorporou à Democracia Socialista.

Essa lógica de permanência orienta minha atuação. Meus vínculos políticos são construídos com acúmulo, convivência e compromisso coletivo. Da mesma forma, minhas relações pessoais também se constituíram nesse campo, atravessadas por valores e ideais comuns. Foi na Democracia Socialista que conheci Ademir Martins, que viria a se tornar meu companheiro e pai do meu filho, com quem compartilhei vida e projeto político, até o seu falecimento.

Compreendo que não somos dissociados entre o que somos na política e na vida. Há contradições próprias da condição humana, mas existe um limite ético e político que não pode ser ultrapassado. Quando isso ocorre, a coerência cede lugar à construção de personagens moldados por interesses e disputas de poder.

Minha atuação se desenvolveu de forma enraizada nos movimentos sociais e nas organizações populares. Atuei em associação de moradores como vice-presidente, contribuí com sindicatos e projetos populares. No Partido dos Trabalhadores, percorri diferentes instâncias: base, executiva e diretório do DAENT, Diretório Municipal e Estadual, participei de coordenações de campanhas eleitorais e de sucessivos processos eleitorais, exercendo também a função de assessora parlamentar. Vivenciei experiência de governo estadual, o que aprofundou minha compreensão sobre Estado, governo e partido, especialmente na tensão entre o ideal e o concreto.

Em 2013, me desloquei de Belém para Marabá. Esse movimento não significou afastamento da militância, mas sua reconfiguração. Em Marabá, a luta se intensificou em um território marcado por profundas contradições sociais e pela presença de movimentos como o MST.

No plano mais amplo, a conjuntura política atual impõe desafios significativos à esquerda e, em especial, ao Partido dos Trabalhadores. Em nível nacional, o PT se

consolidou como força central da institucionalidade democrática, assumindo papel estratégico na condução do Estado. Essa posição, no entanto, o tensiona entre sua vocação  histórica de transformação social e as exigências da governabilidade.

No âmbito estadual, especialmente no Pará, essas contradições se intensificam em um contexto marcado por desigualdades estruturais, conflitos agrários e disputas em torno de grandes projetos econômicos. Nesse cenário, a atuação do Partido dos Trabalhadores também se insere em uma lógica mais ampla de alianças políticas, característica do sistema político brasileiro, frequentemente analisado a partir do conceito de presidencialismo de coalizão.

Essa dinâmica, embora compreensível do ponto de vista da governabilidade, produz tensionamentos importantes. A inserção do partido em alianças mais amplas, inclusive com forças políticas de perfil distinto, coloca desafios concretos à preservação de sua identidade histórica e programática. Em determinados momentos, observa-se a presença de forças políticas com maior capacidade de hegemonização no interior dessas alianças, o que pode deslocar o centro de gravidade das decisões e limitar a autonomia política do partido. Esse movimento exige atenção, pois há o risco de que a busca pela governabilidade acabe por diluir elementos que historicamente constituíram o PT enquanto instrumento de transformação social.

Não se trata de negar a importância das alianças no contexto político brasileiro, mas de refletir sobre seus limites. A construção de maiorias não pode significar o esvaziamento do projeto político nem a perda de identidade. Já na região sul e sudeste do Pará, especialmente em Marabá, a política se realiza de forma concreta. As contradições se expressam no cotidiano, na disputa por direitos, pela terra e por condições de vida, exigindo coerência, presença territorial e capacidade de articulação política.

Ao longo da minha trajetória, vivi desencontros, decepções e tensionamentos próprios da militância, intensificados pela condição de ser mulher na política. Disputar espaços de poder em ambientes muitas vezes hostis exige resistência constante. Observei também transformações que exigem crítica: práticas orientadas por relações de proximidade, vínculos familiares, filiações pouco criteriosas e o enfraquecimento da formação política. Faço parte de uma geração que aprendeu que nem tudo é admissível em nome da disputa. Existe um limite ético e político que diferencia a esquerda dos demais campos.

Apesar dessas contradições, sigo compreendendo o Partido dos Trabalhadores como um espaço fundamental de disputa. Não o único, mas um espaço que carrega história, acúmulo e o custo político de gerações que o construíram. A renovação, para mim, deve ser soma, e não descarte.

Na Democracia Socialista construí relações importantes de amizade, companheirismo e aprendizado, que não se diluem com a minha saída. Minha decisão de deixar a corrente não é motivada por conflito específico, mas pela compreensão de que este ciclo se encerra na minha trajetória, permaneço no Partido dos Trabalhadores até o dia em que se esgotarem o que acredito como projeto político societário, hoje reafirmo meu compromisso com a luta pela superação das desigualdades sociais e com a construção de um projeto político, democrático e popular.

Sheila Kaline.