Hiroshi Bogéa – A máxima do jornalismo diz que a seleção da notícia já é, por si só, um ato interpretativo. No entanto, o que o programa Estúdio i, da GloboNews, entregou aos seus telespectadores nesta semana, precisamente na última sexta-feira, 20, cruzou a fronteira entre a edição jornalística e a distorção deliberada. Ao exibir um PowerPoint com a lista de nomes citados em uma denúncia de grande repercussão, a emissora operou uma “limpeza” cirúrgica: manteve os coadjuvantes e suprimiu as figuras centrais do escândalo.
O episódio, que incendiou as redes sociais, não é apenas um deslize visual. É um sintoma de um jornalismo que, sob o pretexto de informar, acaba por moldar a realidade de acordo com conveniências que o público, cada vez mais atento, não aceita mais passivamente.
Diante do incêndio reputacional, a apresentadora Andreia Sadi, nesta segunda-feira, 23, veio a público com uma justificativa que beira o cinismo corporativo:
“Diante de um material incompleto e em desacordo com nossos princípios editoriais, a gente pede desculpas”, disse ela na apresentação do estúdio I.
A frase, embora polida, é o que no jargão popular chamamos de “desculpa esfarrapada”. Dizer que o material estava “em desacordo com os princípios editoriais” após ele ter sido produzido, revisado pela chefia de reportagem, formatado pela arte e levado ao ar ao vivo é subestimar a inteligência do espectador.
Se o material fere os princípios da casa, como ele venceu todas as barreiras de controle de qualidade de uma das maiores estruturas de jornalismo do país?
Não se engane: a desinformação moderna não se faz apenas com mentiras descaradas, mas com a omissão estratégica da verdade. Ao retirar os principais denunciados da tela, a GloboNews pratica uma espécie de “fake news por subtração”. Cria-se uma narrativa paralela onde os peixes grandes são protegidos pelo vácuo da informação, enquanto o público recebe apenas fragmentos irrelevantes do todo.
Atribuir um erro dessa magnitude a uma mera falha técnica ou “material incompleto” é tentar esconder um elefante embaixo do tapete. Princípios editoriais não são camisas que se vestem e tiram conforme a conveniência do dia; ou eles guiam a produção desde o rascunho, ou são apenas peças de marketing para serem usadas em pedidos de desculpas protocolares.
O episódio deixa uma mancha na credibilidade do canal e serve de alerta: em tempos de redes sociais e acesso direto às fontes, a era em que uma emissora detinha o monopólio da narrativa e decidia quem seria poupado do escrutínio público acabou. (Foto: GloboNews/Print)



