Hiroshi Bogéa  –  ​A notícia de que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) planeja a implosão das duas pontes sobre o Rio Itacaiúnas, em Marabá, transcende a falha de engenharia: é um sintoma terminal da negligência com o patrimônio público no Brasil. Quando o Estado admite que a única solução para estruturas vitais de mobilidade é a sua destruição total, ele confessa, simultaneamente, a sua incapacidade de planejar, executar e fiscalizar.

​O caso ganha contornos de escândalo ao observarmos o cronômetro da história. Se a ponte mais antiga, com quatro décadas de serviços prestados, já clama por substituição devido ao desgaste natural e ao aumento exponencial do fluxo de carga, a situação da estrutura vizinha é injustificável. Com apenas 16 anos de existência, a “ponte nova” é, na prática, uma obra recém-nascida em termos de infraestrutura pesada. Projetos desta magnitude são concebidos para atravessar gerações; vê-la condenada à demolição antes de completar duas décadas é um acinte à técnica e ao bolso do contribuinte.

​É imperativo questionar: como chegaram a este ponto? O concreto não apodrece por acaso e o aço não cede sem aviso.

Não sou engenheiro, mas qualquer leigo tem noções mínimas de que uma obra da envergadura da concretagem de uma ponte com mais de 300 metros, tem longevidade

Se uma obra de 16 anos está estruturalmente comprometida a ponto de ser irrecuperável, houve falha grave em alguma ponta da engrenagem. Ou o projeto original foi subdimensionado, ou os materiais utilizados foram de qualidade inferior, ou a manutenção preventiva — o calcanhar de Aquiles da gestão pública brasileira — foi simplesmente ignorada.

​O custo dessa conta, infelizmente, não será pago apenas com os impostos que financiarão as novas obras. O preço real será pago pela população de Marabá e de todo o sudeste paraense, que enfrentará o estrangulamento de sua economia e o caos em sua rotina de deslocamento.

A mobilidade urbana é um direito, e o que se vê no Itacaiúnas é um sequestro desse direito pela via da incompetência.

​Não se pode aceitar a implosão como um fato consumado e inevitável sem que haja uma investigação rigorosa. O Ministério Público Federal e os órgãos de controle externo devem exigir respostas claras. Quem assinou os laudos de recebimento da obra há 16 anos? Quais empresas executaram o serviço e sob qual fiscalização?

​Tratar o episódio como uma mera fatalidade técnica é pavimentar o caminho para que novos “monumentos ao desperdício” continuem sendo erguidos — e implodidos — com o nosso dinheiro. A sociedade não espera apenas novas pontes; ela exige responsabilidade, punição para os culpados e o fim da era das obras descartáveis. (Foto: Reprodução)